O GP de Mônaco de 1937

Pra acelerar, é só pisar?
22/05/2017
A (última?) jornada de Maio
26/05/2017

O Grand Prix de Mônaco, “A corrida das 1000 curvas”, é a original e mais famosa das corridas “entre casas”, e começou há oito anos*.

A corrida dura mais de 100 voltas no circuito de 3,2 km, e é usualmente vista como o mais extenuante teste do mundo, tanto para o carro quanto para o piloto. Como o circuito é muito curto, as inscrições ocorrem unicamente por convite, o que quer dizer que os competidores, tanto pilotos quanto carros, são a nata do mundo do Grand Prix.

A coisa que mais chama a atenção acerca do Grand Prix de Mônaco é a maneira rápida com tudo acontece, devido, em não pequena medida, à maravilhosa organização de Antony Noghes, que é tanto uma pessoa extremamente charmosa quanto um grande entusiasta do esporte a motor.

O treino de quinta-feira aconteceu de tarde, a partir das 13h30 e foi usado apenas para fazer os carros funcionar – por isso não apareceram tempos realmente rápidos.

Na sexta, Brauchitsch virou em 1m50, com Rosemeyer sendo um segundo mais lento.

O treino foi suspenso por cerca de quinze minutos enquanto o óleo do Maserati de Pietch era removido da pista e ele convidado a retirar seu carro da corrida, o que efetivamente fez. Óleo num circuito é ruim o suficiente a qualquer tempo, mas em Mônaco, onde a pista é estreita e confinada entre edifícios e muros, é um perigo terrível. A corrida de 1936 foi completamente estragada quando cinco carros bateram durante a segunda volta devido a óleo na pista.

O calor estava terrível, e andar ao longo do circuito carregado com diversas cameras não era brincadeira, portanto eu decidi usar shorts com uma toalha em volta da minha cabeça, o que pareceu causar não pouca diversão; Neubauer gritou “Ah, o pescador!” eu suponho que por causa de toda minha indumentária eu devia parecer realmente com algum notório pescador, mas no final das contas eu me senti realmente refrescado!

O treino de sábado ocorreu às 6h da manhã. Caracciola fez uma magnífica volta rápida em 1m47, mais de 10 segundos abaixo do velho recorde da pista. Brauchitsch foi um segundo mais lento, com Kautz, Rosemeyer e Stuck virando em 1m49. Os carros da Mercedes pareciam estar mais adaptados ao circuito que os Auto-Unions, porque muito difíceis de se dirigir em curvas tipo grampo.

Houve um grande desapontamento quando se soube que Nuvolari não iria correr, por estar em Monza, testando o novo Alfa-Romeo de 12 cilindros. Os diretores da Alfa-Romeo, que tinham requisitado os serviços de Nuvolari, queriam muito ter o novo carro pronto para a Coppa Acerbo, que ocorreria uma semana mais tarde. Foi uma pena pois Mônaco é um dos poucos circuitos onde Nuvolari, usando a sua maravilhosa habilidade, podia compensar a superioridade dos carros alemães.

Depois de Kautz ter marcado 1m49, ele recebeu aviso para voltar aos boxes, mas resolveu continuar por mais uma volta. Ele queria especificamente verificar a quantos giros estava o motor quando fazia a curva do Casino. Essa olhada rápida ao tacometro teve resultados desastrosos, pois ele acabou batendo nos sacos de areia colocados do lado de fora do Hotel de Paris, deixando seu Mercedes bem danificado.

Kautz recebeu severa descompostura de seu chefe Neubauer e seu “subchefe” Caracciola! A única pessoa que achou isso tudo divertido foi Rosemeyer, o qual, tendo batido diversos Auto-Unions enquanto aprendia a guiar, sabia o quanto era fácil bater um moderno carro de Grand Prix. Os mecânicos da Mercedes trabalharam o dia inteiro no carro de Kautz, que ficou pronto e repintado na noite de sábado.

Eu fui acordado no domingo de manhã por uma orquestra de escapamentos de Auto-Union. Pulando para fora da cama, descobri que a equipe promovia uma espécie de mini-corrida particular, subindo e descendo a Corniche.

Quando cheguei no circuito, o céu estava encoberto e tudo indicava que haveria um aguaceiro tropical, fazendo com que muitos pilotos preparassem seus visores. O Conde Trossi, conhecedor de Mônaco, assegurou a todos que não havia necessidade de alarme: a tempestade não viria. E ele tinha razão.

A largada ocorreu às 15h45 do domingo. As primeiras quatro filas eram formadas, pela ordem, por Rosemeyer (Auto-Union), Brauchitsch e Caracciola (ambos de Mercedes); Kautz (Mercedes) e Stuck (Auto-Union); Farina (Alfa-Romeo), Zehender (Mercedes) e Hasse (Auto-Union); Ruesch e Pintacuda (ambos de Alfa-Romeo).

Charles Faroux, uma figura imponente em flanelas brancas encimadas por um enorme chapéu, tinha vindo em pessoa dar a largada. Na opinião de muitos pilotos, ele é de longe melhor que todas as luzes coloridas e outros auto-denominados “largadores”, do mundo.

Assim que baixou a bandeira, Caracciola e Brauchitsch pularam para a liderança, mostrando todo o poder dos Mercedes, sendo seguidos bem de perto pelos Auto-Unions de Rosemeyer e Stuck mas já então surgia uma vasta lacuna até que o resto do grid aparecesse rugindo. Isto foi provavelmente causado por Hasse, que bateu seu Auto-Union na primeira volta.

Essas voltas iniciais foram tremendamente excitantes, particularmente porque Rosemeyer estava fazendo tudo que sabia para alcançar Brauchitsch, embora não parecesse conseguir muitos progressos.

Na décima volta, Kautz ganhou o quarto lugar, passando Stuck, enquanto Rosemeyer se aproximava de Brauchitsch, mas obviamente correndo muitos riscos. Logo depois, ele chegou ao grampo do Gasometro rápido demais e escorregou até os sacos de areia, o que não melhorou em nada a parte da frente do Auto-Union.

Rosemeyer não pode mais continuar, tanto assim que na 20a volta Kautz passou para terceiro, um minuto atrás de Brauchitsch. Farina já tomara uma volta dos líderes. Zehender, que vinha dirigindo muito consistentemente, passou para terceiro lugar quando Kautz parou nos boxes por dois minutos para checar as velas e Stuck para ajustar os freios.

Os italianos também tinham problemas. Pintacuda perdeu dois minutos nos boxes ajustando seus freios, Brivio abandonou com um radiador queimado e Biondetti com um motor estourado, o mesmo acontecendo com Sofietti, com seu Maserati vermelho e amarelo.

Na metade da corrida, quando ocupava o sétimo lugar, Stuck cedeu seu carro para Rosemeyer. Kautz havia parado novamente por causa das velas e Pintacuda perdeu mais quatro minutos para novo ajuste nos freios. Na 47a volta, o motor de Caracciola perdeu rendimento e, debaixo de tremendos aplausos, ele veio para os boxes, onde se descobriu que um parafuso tinha caído fora do tubo de indução. Isto foi devidamente reparado e o tanque completado com gasolina. O tempo gasto foi de 3m15. Assim, na volta 50, Brauchitsch liderava com 2 minutos de vantagem. Caracciola voltou para tentar reaver a liderança. Embora ele estivesse agora mais de uma volta atrás, Brauchitsch teria que parar para reabastecer. Farina, mesmo já 4 minutos atrás do líder andava como um raio, escorregando o Alfa em todo o circuito da maneira mais excitante possível.

Na 60a volta Rosemeyer parou novamente e devolveu o carro a Stuck; a ordem era Brauchitsch em primeiro, 1m34 à frente de Caracciola, Zehender em terceiro, Kautz quarto, com Farina em quinto e Stuck/Rosemeyer em sexto, cinco minutos atrás.

Um grande aplauso irrompeu na volta 69, quando Brauchitsch parou para reabastecer. Os mecânicos colocaram o combustível e correram para empurrá-lo de volta à pista apenas para descobrir que o carro não se movia, o freio dianteiro bloqueado. Os mecânicos martelaram febrilmente, mas levou um minuto e meio até que ele se soltasse.

Durante todo esse tempo Caracciola recuperara quase uma volta e todos os olhos se voltaram para o lado mais distante da enseada, até que ele apareceu repentinamente, numa perfeita derrapagem controlada, andando realmente rápido.

Conseguiria o Mercedes de Brauchitsch ser ligada novamente antes que Caracciola aparecesse? De repente o motor de Brauchitsch voltou à vida e o carro disparou. Quando passaram diante da cronometragem, Brauchitsch liderava um segundo à frente de Caracciola.

Começou, então, um dos mais excitantes duelos já vistos. Cada vez que os dois passavam pelos boxes, Brauchitsch era sinalizado por Neubauer para deixar Caracciola passar, mas sua única resposta era agitar o punho e por o pé ainda mais no fundo. Durante as oito voltas seguintes, Caracciola tentou passar Brauchitsch no grampo do Gasometro, primeiro por dentro, depois por fora. Brauchitsch se virava sorrindo e, assim que seu carro aprumava na reta, dava o máximo.

Isto é um exemplo de como é impossível para um piloto passar outro, assumindo que ambos têm carros de performance similar, a menos que o piloto da frente dê passagem. Brauchitsch não tinha intenção nenhuma de dar passagem mas na volta 80, Caracciola manobrou para passar depois da curva St Dévote e ganhou uma liderança por 0.3s, uma distância entre carros de menos de dois míseros metros. Boa parte da platéia ficou de pé durante essas voltas eletrizantes.

Caracciola havia quebrado o recorde da pista diversas vezes – na 74a volta ele marcou 1m46s5, uma média de velocidade de 107 km/h. Isso é quase inacreditável num circuito como Mônaco, especialmente se conseguido durante a corrida. Contudo, o esforço para o motor do carro de Caracciola nessas dez voltas foi demasiado e na volta 81 ele entrava nos boxes para trocar as velas, perdendo novamente e em definitivo a liderança para Brauchitsch.

Durante as últimas 20 voltas o Auto-Union com Rosemeyer ao volante estava fazendo um tremendo esforço para chegar ao terceiro lugar, tendo passado o Alfa-Romeo de Farina, e então prosseguindo em perseguição ao Mercedes de Zehender, o que conseguiu faltando quatro voltas para o final, mas falhando em alcançar Kautz.

Brauchitsch venceu com a velocidade recorde de 102 km/h, com Caracciola em segundo e Kautz em terceiro, duas voltas atrasado; o Auto-Union de Stuck/Rosemeyer foi quarto, três voltas atrás, e Zehender quinto. O primeiro Alfa-Romeo foi o de Farina, que tinha dirigido extremamente bem, e os seguintes a terminar foram Sommer, Ruesch e Pintacuda.

A Mercedes marcou um duplo “hat trick”. Não só ganhou a corrida pelo terceiro ano consecutivo como era a terceira vez que o fazia ocupando as três primeiras posições. Uma vitória, enfim, memorável.

Eu passei a segunda-feira com alguns amigos na adorável piscina do Palm Beach Casino, em Cannes, retornando a Mônaco parecendo uma lagosta cozida!

*Coluna publicada originalmente em 23 de maio de 2007

Carlos Chiesa
Carlos Chiesa
Publicitário, criou campanhas para VW, Ford e Fiat. Ganhou inúmeros prêmios nessa atividade, inclusive 2 Grand Prix. Acompanha F1 desde os primeiros sucessos do Emerson Fittipaldi.

11 Comentários

  1. Fernando Marques disse:

    Rubergil,

    a minha visão sobre o acidente de Bourdais e do Piquet são semelhantes no seguinte … em ambos os casos o carro derrapa de traseira e ambos tentar concertar no braço … e com isso, devido a rápida reação do carro, eles perdem o controle e vão de frente em encontro ao muro … e nestes casos, principalmente em circuitos ovais, se o piloto perder a traseira do carro, não tente concertar, pois a pancada será de traseira no muro, e o motor nestes casos protege muito a integridade física do piloto.
    Sei que já vimos vários acidentes assim em Indianápolis … mas sei lá pelo angulo da câmera que filmou tudo, me pareceu tudo muito igual …


    Chiesa,

    fascinante descobrir esse passado é pouco … nós não temos mais esta emoção nos dias de hoje … a não ser nos Ralis onde vemos sempre os carros de lado e por aí vai … e complementando aqueles pilotos não tinham só um motor de 660 HP, na frente ou atrás, pneus estreitos e segurança zero sem cinto e capacetes de pano … segurar uma fera daquelas nas curvas com aquele volantão não devia ser nada fácil também … haja braço!!! …

    Fernando Marques

  2. Mauro Santana disse:

    Grande Chiesa

    Rapaz, que história fantástica, o texto, excelente, como sempre, e, Mônaco é Mônaco.

    🙂

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

  3. Paulo Hardt disse:

    Belo resgate!!!

    • Carlos Chiesa disse:

      Obrigado, Paulo. Esse é um capítulo do livro de George Monkhouse, apenas traduzi. Achei que valeria a pena oferecer a oportunidade para quem nos lê de comparar os dois momentos, separados por 80 anos.
      Do meu ponto de vista, feliz aniversário, muitos anos de vida, GP de Monaco!

  4. tassios disse:

    Ótimo texto, ótima história. No seu finzinho ele se repete inteiro até o ultimo parágrafo, acho que da pra corrigir.

  5. Fernando Marques disse:

    Chiesa,

    bela historia … bela corrida … no vídeo mostra o tão legal era ver os carros saindo de traseira ao terminar atangencia das curvas e o quanto já eram rápidos na saída do tunel.
    Na semana mais importante do automobilismo mundial, onde a consagração acontece no próximo domingo, começa-la com esta história do GP de Mônaco de 1937 foi uma ideia fantástica … será que teremos uma historia fantástica das 500 Milhas de Indy?
    Falando em Indy, me chamou a atenção o acidente do francês Sebastian Bourdais por ser plasticamente muito semelhante ao acidente sofrido pelo Nelson Piquet. Os carros ficaram mais seguros. Os ferimentos do Bourdais, se comparado aos que Piquet sofreu, foram bem menos sérios e a maior prova disso foram a forma como os carros resistiram ao impacto, pois ao bater frontalmente no muro, a frente do carro do Piquet ficou totalmente destruído e o do Bourdais ao contrário parece ter resistido bem a pancada.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

    • Rubergil Jr. disse:

      Fernando, o acidente do Bourdais foi plasticamente mais semelhante ainda com o acidente do Gordon Smiley em 1982, com a diferença que este bateu em um ângulo mais “reto” em direção ao muro. A diferença em relação ao estado que os carros ficaram beira o inacreditável. Basta dizer que o cockpit do Bourdais esteve íntegro e o motor/câmbio continuaram presos ao carro. Já no caso do Smiley… não existiu mais carro algum, nem piloto! Se ao invés da batida fosse um míssil Tomahawk disparado no carro provavelmente não causaria muito mais dano.

      Pessoal do GPTotal: o texto deste post está com problema, parece que foi feito um duplo “paste”: quando o autor está no final da corrida, repete-se o texto do meio da corrida.

      Abraço!

    • Carlos Chiesa disse:

      Olá Fernando, obrigado pelo simpático comentário. Penso que o tempo decorrido… 80 anos, com tanta evolução tecnológica, nos fez perder a perspectiva daquela realidade. No entanto, esses pilotos lidavam com 600HP, na frente ou atrás, com pneus estreitos e zero segurança. Os capacetes eram de pano! Pessoalmente acho fascinante descobrir esse passado – glorioso – do automobilismo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *