1988, Jacarepaguá

Memento Mori
11/07/2012
O Início e o Fim
16/07/2012

Uma época que permitia testes de pneus e um Jacarepaguá ainda vivo. Tudo isso nos olhos de um jovem jornalista fanático pela F1.

Hoje no GPTotal vou trazer um amigo de longa data. Um desses caras que nos lembram o porque, justificam, todas as noites viradas em agências, todos os projetos entregues de madrugada, os fins-de-semana e feriados na frente do computador: a alegria de conhecer grandes pessoas e levá-los para fora daquele ambiente profissional. Conheci o Chico Neto lá em 2000, na Tv1.com. Redator e carioca. Essa é a melhor definição que consigo achar! Mudamos algumas vezes de agência, voltamos a trabalhar juntos, mudamos outras vezes, até que um dia ele conheceu o GPTotal e me contou uma história “das antigas”. Não tive dúvida e o chamei para participar desse espaço com sua história. Vamos voltar lá para o finado Jacarepaguá, nos anos 80. Grande pilotos, grandes carros e o mais incrível: testes!
Para saber mais do autor do artigo, você encontra o Chico aqui no facebook e todas as fotos que ilustram esse teste aqui nessa galeria

Aproveitem!
Abraços,
Flaviz Guerra

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Testes de Pneus, Jacarepaguá, 1988

O ano era esse!

Eu? Eu era um moleque de 24 anos, estudante de Jornalismo, apaixonado pela Fórmula 1 e fã de Ayrton Senna.

Como responsável pelo Estúdio de VT da antiga Faculdade da Cidade (atual Univercidade), ao descobrir que haveria o tal “Teste de Pneus” (realizados durante uma semana, um mês antes do início da temporada, que era com o GP Brasil, em Jacarepaguá), decidi arrumar umas credenciais e ir ver os carros e pilotos de perto. Enchi o saco do Coordenador, Léo Borges, o famigerado “Barão” da revista Ele & Ela, e consegui uma declaração em papel timbrado da Faculdade, dizendo que éramos estudantes fazendo um trabalho de final de curso.

Arrumado isso, fomos ao Hotel Nacional, em São Conrado, para o credenciamento de imprensa e, sem vergonha alguma, entrei na fila e disputei as tais “credenças” com alguns futuros amigos de profissão. Vi muita gente de quem já era e continuo fã na espera pelos cobiçados penduricalhos de pescoço, que davam direito a chegar pertinho dos caras e carros que eu só havia visto pela TV até então.

Missão cumprida! Credenciais garantidas! Quatro!

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O cenário na Fórmula 1 era mais ou menos igual ao de 1987:

Piquet campeão, mas trocando a Williams pela Lotus, Mansell ao lado de Patrese (que assumiu o lugar de Piquet) na Williams, McLaren mantendo Prost e trocando Stefan Johansson por Ayrton Senna.

No primeiro dia, coletiva de imprensa com Gerard Ducarrouge apresentando o atual campeão, Piquet, como novo piloto, substituindo Senna. Ao ser perguntado o que havia faltado à Lotus para ser campeã até então, Piquet tira o microfone de Ducarrouge e responde: “A Lotus tem um bom motor e um bom carro. Ano passado faltou piloto, mas agora eles têm.”

Gracinhas à parte, Piquet nunca fez na Lotus um milésimo do que Senna realizou.

Vi de perto a confusão, com direito a oficial de justiça no paddock e tudo, referente à declaração de Piquet de que Senna não gostava de mulher. Senna, por sua vez, apresentado como novo piloto da McLaren, desfilava pelos boxes de mãos dadas com a Xuxa, a quem “namorava” na ocasião. Descobri porque Piquet era sempre agraciado com o troféu limão pela imprensa: ácido, humor rasgado e sem papas na língua.

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Cenários de lado, vamos às emoções.

A primeira vez que vi Senna de perto, ele estava descansando em uma área atrás do box da McLaren, sozinho. Chamei a equipe que estava comigo e, com a câmera na mão, pedi à repórter da Faculdade que falasse com ele. Não consegui gravar. Mandei a câmera pra outro cinegrafista e fiquei olhando. Eu tremia da cabeça aos pés!

A emoção era grande, uma vez que já era fã do cara desde 1985. Eu estava vendo um ídolo ali, na minha frente! Mal sabia eu que, ao fim daquele ano, cairia da cadeira (literalmente) ao ver o cara ser campeão pela primeira vez…

Nos dias seguintes – pois fomos ao autódromo todos os dias, de segunda a sexta, das 9 às 17h -, a convivência com aqueles astros passou a ser normal. Sentávamos no bar do paddock com o saudoso Jo Ramirez, mexicano da McLaren, que adorava contar como deu o título a Prost, depois do estouro de pneu de Mansell, em 86, batíamos muito papo com o simpático Derek Warwick, piloto da Arrows, conversávamos com Roberto Pupo Moreno, na Coloni, etc.

Piquet, Senna, Mansell e Prost eram menos disponíveis, mas, ainda assim, tive oportunidade de tomar uma cerveja ao lado do Ayrton, que bebia água mineral, e de falar com o desagradável Alain Prost no bar do paddock. Mihally Idasi, o “Miguel”, diretor de prova em Jacarepaguá durante muitos anos, e Sargenteli, o das mulatas, foram outras figuras simpáticas que conhecemos. Sem contar o sensacional Creighton Brown – já falecido -, um dos diretores da McLaren, que descobrimos falar português perfeitamente, ser casado com uma brasileira, e ter criação de porcos em Silva Jardim, interior do Rio de Janeiro.

Viver, mesmo que por apenas uma semana, dentro daquele mundo que só existia no meu tubo de imagens foi fantástico! Estar ao lado de mitos, como Alboreto, Mansell, Patrese, Péres-Sala, Nannini, Boutsen, Berger, Hebert, Nakajima, De Cesaris, além dos já citados deuses do automobilismo, foi inesquecível! Hoje, esses nomes são mitos. Eu os conheci como pessoas. De alguns apertei a mão, outros abracei, tirei fotos – perdidas -, bebi junto . Isso, sem merchandising, não tem, preço.

A aventura rendeu algumas belas fotos, mais de duas horas de gravação em VHS, com uma camcorder Panasonic, e muita histórias, como essa, para contar. Feliz de quem tem a chance de ver seu ídolos de perto. Eu tive.

Abraços,
Chico Neto

Flaviz Guerra
Flaviz Guerra
Apaixonado por automobilismo de todos os tipos, colabora com o GPTotal desde 2004 com sua visão sobre a temporada da F1.

7 Comentários

  1. Paulo Ramos disse:

    Muita saudade daquela época, o Senna, o Moreno, o Gugelmin pessoas muito legais, já o Piquet era arrogante até 1983 depois também ficou legal, ele era irreverente, acredito que ele melhorou depois do prêmio limão, mas legal. Dizem que ele era ruim, mas comigo foi legal, se bem que um amigo meu foi pedir um autógrafo e levou um monte de desaforo do Piquet, a mesma coisa com o Senna, comigo e meus amigos sempre foi legal… em 88 o Senna estava arrasado com a declarações do Nélson de que ele era gay.

  2. Allan disse:

    Velho, usamos “saudoso” para quem já se foi… E o Jo Ramirez não morreu!

  3. A saga de Jacarepaguá na F1 é uma das poucas coisas que me faz lamentar não ser uma pessoa mais velha. Amo a pista como se fosse um membro próximo de minha família, e quem visitou o local sabe que provavelmente jamais haverá autódromo construído num local mais atraente.
    E não é só isso. O traçado era repleto de curvas de raio longo, pista digna da cidade, e envolta num clima de descontração que levava boa parte do circo a passar férias no Rio sob pretexto de longos testes de pneus. Acredite, deve ter muito filho de piloto andando por aí.
    Teria muitas histórias a contar sobre a pista, inclusive a forma como seu retão salvou a vida de Roberto Pupo Moreno, mas isso talvez mereça uma coluna própria.
    Só sei que tô muito triste e revoltado com o fim daquele que, provavelmente, foi o lugar que mais gostei de frequntar em toda a minha vida.

  4. Mauro Santana disse:

    Olá Amigos do GPTotal!

    O que nós, amantes do automobilismo não queríamos que um dia acontecesse, infelizmente, vai acontecer, o dia chegou, e com enorme tristeza.

    http://www.totalrace.com.br/blog/blogdoico/2012/07/15/cronicamente-inviavel/

    No belo texto escrito pelo grande Ico, contem a belíssima foto registrada no GP Brasil de 1985, e nela, o que mais me chama a atenção, é o relógio marcando 34°.

    Isso, só o Rio de janeiro foi capaz de fazer com que a F1 amasse correr em Jacarepaguá, como descreve muito bem outro belíssimo texto, este sendo do Agresti.

    http://gptotal.com.br/2005/Colunas/Agresti/20080213.asp

    Certamente, senhores, Jacarepaguá vai fazer muita falta, e muito mais do que nós podemos imaginar.

    Abraço a todos!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

  5. Rafael Carvalho de Oliveira disse:

    Porra, que bacana este texto. Me fez lembrar quando fui ao Grande Premio do Brasil em 2005. Meu chefe me presenteou com os ingressos para assistir os treinos e a corrida. Que emoção em chegar na Av. Sen. Teotonio Vilela e ouvir o ronco dos motores v-10(ultimo ano destes motores) nos ouvidos, me arrepiei antes de entrar no autodromo em cada acelerada ou redução de marcha que tesão em ouvir aqueles motores, só quem gosta de velocidade mesmo tem noção do que é esta sensação foi um tesão!!! Até um tempo atras eu tinha um cartão do Grande Premio Brasil como a foto da Minardi que deixaria de exisitir, aquele final de semana foi incrivel que jamais vou esquecer!!!!
    São Paulo-SP

  6. Fernando Marques disse:

    Lendo este relato do Chico Neto me lembro das 3 vezes em que assisti em Jacarepaguá a Formula 1 ao vivo. Em todas elas fui torcer pelo meu idolo Nelson Piquet. Bem em frente as arquibancadas onde estava, no inicio do retão, vi Piquet ultrapassar o Villenueve, numa bela manobra que assustou o canadense que perdeu o controle de sua Ferrari e foi de encontro aos guard-rails. Acho que foi o grande momento da minha vida na Formula 1, pois estava ali pertinho vendo tudo ao vivo.
    No Autodromo de Jacarepaguá assisti muitas outras corridas como a Stock Cars dos opalões do Ingo, Paulão, Reynaldo Campello, dos irmãos Giaffone, do Boesel, provas da divisão 3, da Copa Fiat, da Formula V e SuperV. Por causa da crise do petroleo as corridas foram proibidas no Brasil. Quando acabou a proibição o retorno das corridas foi atraves de um festival de corridas em Jacarepaguá, com a participação de todas as categorias existentes, corridas de motovelocidade e inclusive com uma prova de Fiat só com mulheres como piloto (a então esposa do Emerson foi uma delas e todos os carros eram rosas) e inaugurando a era do alcool como combustivel nas competições brasileiras. Foi corrida das 8 horas da manha até 8 horas da noite onde uma prova da Divisão 3 encerrou o festival com uma corrida noturna.
    Bons tempos ….

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  7. Mauro Santana disse:

    Parabéns Flaviz, e obrigado Chico Neto!

    Jacarepaguá era uma festa, e neste tempo era muito bom e super mais fácil de chegar mais perto dos nossos ídolos.

    Meu pai e meus tios foram em vários gps e testes de pneus no Rio, e eu tive a oportunidade de ir somente no de 1988.

    Só tínhamos os ingressos para o dia da corrida, e para conseguir assistir os treinos, negociamos a entrada com um rapaz de uma barraquinha de cerveja que era chegado de um dos segurança de um dos portões.

    Após o pagamento em $$$ ao figura da barraquinha, fomos para perto do segurança aguardando o sinal de positivo dele, que levou mais de 15 min. para erguer o polegar.

    Lembro do meu tio falando para meu pai e outro tio, “acho que se f……, pois esse cara vai levar nossa grana de graça”

    rsrs

    Mas deu tudo certo, e pudemos assistir aos treinos numa boa.

    Lembro que na sexta ou no sábado, caiu um baita balão na lagoa, e quase que ele cai dentro do autódromo, com os carros andando forte na pista.

    No dia do GP, fomos para a fila às 04h00, e já havia umas 100 pessoas na nossa frente, e os portões abririam somente às 06h00 ou 07h00, não lembro direito, e felizmente, conseguimos ficar no ultimo degrau bem no final do retão, abençoados por estar no lugar aonde bem na nossa frente, Senna vinha comendo todo mundo, inclusive Piquet.

    Também lembro que fez “frio” para os padrões cariocas, e o dia estava nublado, e também lembro bem de uma turma de gaúchos que estavam no mesmo campim que nós, e os caras estavam com um baita isopor, daqueles gigantes, munidos de cerveja, sanduíches, e ovos, sim, isso mesmo, ovos, para atirar nos que chegavam às 11h30, 12h00 e queriam subir lá no alto.

    Os cara mandavam ver sem dó nem piedade.

    Enquanto que o nosso isopor, bem menor que o deles, continha somente cerveja, refrigerante e sanduíches.

    Como nós nos divertimos!

    O GP todo mundo sabe como foi!

    Saudades desta época!

    Abraço a todos!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

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