2001, o ano que não terminou

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A sensação que tivemos ao ver 2020 acabar não foi muito diferente, guardadas as devidas proporções, daquela de 20 anos atrás. 2001 foi um ano muito aguardado desde décadas anteriores: além de mexer com o imaginário popular por conta da obra-prima cinematográfica “Uma Odisseia no espaço“, lançada mais de 40 anos antes, era o início efetivo do terceiro milênio e do século 21, afinal.

Na música, foi um ano com grandes expectativas para a terceira (e última, na minha opinião) edição do Rock in Rio, especialmente pelo retorno da lendária banda Guns N’ Roses. Tivemos muitos lançamentos importantes: Paul McCartney gravou disco solo, mas o que explode mesmo é o “1”, dos Beatles, reunindo todos os hits número 1 da banda. Roberto Carlos e MTV fazem uma parceria impensável e surpreendentemente agradável no Acústico. Michael Jackson lança seu último disco. É anunciado o fim do grupo Spice Girls, surgem as bandas Gorillaz e Strokes, acontecem as mortes de Cassia Eller e George Harrison. Nos cinemas, começavam as chamadas “franquias”, tão populares e bem-sucedidas em nossos tempos: Harry Potter, Velozes e Furiosos, além de “O Senhor dos Anéis”. Por aqui, foi o ano do reality “Casa dos Artistas” e da novela “O Clone”.

Bush assumiu a presidência, depois das polêmicas recontagens de votos (em 2020, isso se tornou piada e conversa de perdedor, mas naquela época foi transmitido ao vivo, e o governador do estado em questão era irmão do futuro presidente). Foi o ano em que sequestraram a filha de Silvio Santos, e depois o próprio Silvio. Foi o ano em que lançaram a nota de 2 reais e tivemos gigantescos apagões no Brasil.

No esporte, o Vasco ganha o Brasileiro (de 2000) em janeiro, após as “euricadas” na famigerada Copa João Havelange. Ano marcante, também, pelo terrível acidente de Alessandro Zanardi, lhe amputando as pernas, e pela morte de Dale Earnhardt, num choque aparentemente simples, na NASCAR. Um suíço cabeludo chamado Roger Federer derrotou Pete Sampras em Wimbledon. E Michael Jordan voltou às quadras, pelo Washington Wizards.

A gente lembra de tudo isso, mesmo que não lembre que foi tudo em 2001. Mas nada naquele ano foi mais impactante do que os ocorridos de 11 de Setembro. É tipo 1º de Maio de 1994: todo mundo lembra onde, com quem e o que estava fazendo.

Num âmbito pessoal, posso dizer que foi um ano extremamente marcante porque foi quando faleceu meu avô paterno, com quem pude conviver com relativa proximidade na infância mas com muita intensidade naqueles últimos anos. Meu avô morreu exatamente no dia do GP da Alemanha, aquele do acidente espetacular de Luciano Burti – um prenúncio do que aconteceria um mês depois. De certa forma, aquele ano foi pra mim permeado pelas corridas, todos os grandes acontecimentos mundiais, locais, culturais, familiares e pessoais tendo a temporada de F1 de fundo. Não à toa, foi em 2001 que eu li “F1 Pela Glória e Pela pátria” e, ao pesquisar pelo autor da obra-prima, conheci o GPtotal. O site foi fundado em Agosto daquele ano.

20 anos depois, cá estamos.

Refletindo, duas décadas mais tarde, percebo que a temporada de 2001 da Fórmula 1 foi um ano muito interessante em suas nuances e teve momentos de diferentes protagonismos e fatos marcantes: estrearam Juan Pablo Montoya, Fernando Alonso e Kimi Räikkönen e se aposentaram Mika Häkkinen e Jean Alesi. Foi o ano do retorno do controle de tração e a última temporada do Hockenheim clássico (minha pista predileta). Tivemos o regresso dos Michelin. Voltava a famigerada regra dos 107% (pobre Tarso Marques!) nos treinos. Era o fim da equipe Prost e da Benetton, dando lugar às grandes montadoras — a Toyota entraria em 2002 e a Renault substituiria a Benetton. Tivemos o último piloto argentino na categoria e o recorde (5) de brasileiros num mesmo ano.

Esse é, também, o menos lembrado/exaltado dos 7 títulos de Michael Schumacher. Talvez a quantidade de coisas malucas, trágicas e estranhas que aconteceram no ano tenham ofuscado um pouco, ou talvez isso se dê pela própria dinâmica dos GPs e do equilíbrio de forças. Não sei. Mas, olhando em retrospectiva, foi uma ótima temporada do alemão, e o que parece é que os conjuntos adversários nunca tiveram força e perseverança suficientes para desafiá-lo: não se trata de que fossem “ruins”, mas simplesmente não conseguiam combinar o foco, a experiência e a velocidade de Schumi. McLaren e Williams, as duas “desafiantes”, não tinham o know-how, a expertise e, é claro, o dinheiro e a influência da Ferrari. E também não tinham na Bridgestone uma quase sócia.

Mika Häkkinen, candidato natural não apenas por ser o número 1 da McLaren mas por ter protagonizado disputas titânicas com Schumacher de 1998 a 2000, aparentava estar em outra esfera. Depois de superar Coulthard em 4 dos primeiros 5 treinos, ao ver a vitória na Espanha escapar a 4 curvas do fim seu desempenho cairia vertiginosamente. A única motivação encontrada pelo finlandês, palavras do próprio, foi tentar vencer nos dois templos sagrados do automobilismo onde não conseguira triunfar anteriormente: Silverstone e Indianápolis. Ainda em Mônaco Mika anunciou a Ron Dennis sua decisão de parar, e o chefe da McLaren queria convencer-lhe a tirar um ano sabático.

De fato, Hakkinen ganhou nas duas pistas míticas, mas conseguiu terminar o ano em quinto, atrás de Ralf Schumacher. Nas primeiras 10 etapas, o bicampeão mundial somou 9 pontos.

Ralf Schumacher, apesar de ter iludido o nosso querido Edu (desculpa aí, chefe!), não deve entrar muito na conta. Foi o que mais venceu corridas depois de Schumy (foram 3), é verdade, mas conseguiu isso em situações pontuais de abandonos de Michael (San Marino e Alemanha) ou num desempenho superior do BMW no Canadá, superando o irmão mais velho nos boxes. De resto, foi pouco ao pódio. Além do meme do Edu, serviu para o bordão do Galvão: “os irmãos Schumacher do-MI-nam a Fórmula 1“.

Juan Pablo Montoya fez algumas gracinhas no ano, como a antológica ultrapassagem sobre Schumy em Interlagos e uma volta canhão em Monza (uma de suas três poles no ano), abusando do motor BMW nas pistas de alta. Mais a mais, foi só isso mesmo. Vários acientes e algumas quebras: dois segundos lugares e 7 abandonos nas primeiras 9 etapas. Conseguiria uma vitória na Itália, Schumacher já campeão.

Rubens Barrichello não enganou o Edu, mas a este colunista, sim. Depois de um 2000 promissor (Austrália, Canadá, Alemanha, Inglaterra e outros bons momentos), esperava-se que, mais ambientado, Rubens pudesse extrair o melhor possível do carro e, se pensar em título fosse difícil, um punhado de vitórias não parecia nada irreal. O balde d’água veio logo no começo do ano, na Áustria, quando Barrichello precisou ceder a segunda posição para Schumacher na linha de chegada — começava ali o enredo do clássico “Hoje não“.

Nenhuma vitória e, mais do que isso, uma humilhação sem precedentes nos treinos: em 17 etapas, Rubens largou à frente de Schumy apenas uma vez. Nas corridas, não marcou nenhuma volta mais rápida, e terminou o ano apenas na 3ª colocação (ora, com tal carro o vice não seria obrigação?).

Concorrência interna trucidada, maior rival quase deprimido e a outra equipe sem experiência nenhuma, a chance da briga com Schumacher caiu no colo de David Coulthard, momento pelo qual ele esperava havia pelo menos três anos.

Fisciamente parecido com Dolph Lundgren, Coulthard até tentou fazer como o antagonista de Rocky IV e ameaçou a liderança do então tricampeão: ao final da sexta etapa (o GP da Áustria em que Barrichello cedeu a segunda posição a Schumacher), vencida pelo escocês, David tinha apenas 4 pontos de desvantagem para Michael. Como a corrida seguinte seria em Mônaco, a chance de ele assumir a ponta era real. Caso vencesse, mesmo com o alemão em segundo, a liderança seria do piloto McLaren.

Coulthard fez a pole. Pole em Mônaco é 50% da vitória, dizem. Mas tudo terminaria ali, bem no comecinho do round: o escocês não largou. Pra piorar, durante a corrida tivemos aquele episódio pitoresco, atrás de Enrique Bernoldi.

Não sabemos se a mesma desmotivação de Mika, se (somente) a falta de capacidade de Coulthard ou se algum erro muito grande no desenvolvimento do carro/gerenciamento da equipe minou as possibilidades do piloto, mas fato é que de Mônaco até a Alemanha (12ª etapa) Coulthard marcou um terceiro, um quarto, um quinto e teve três abandonos. Nesse mesmo período, Barrichello fez o dever de casa e subiu quatro vezes ao pódio, duas delas em segundo. Schumacher venceu metade das corridas e anotou dois segundos lugares, nas vitórias de Ralf e Mika.

Chegando na Hungria, pista onde Schumacher já havia vencido duas vezes, o alemão poderia ser campeão até mesmo com um quarto lugar, caso Coulthard não pontuasse (ou terceiro, se David terminasse em sexto, e ainda segundo, sendo DC o quarto).

Coulthard foi terceiro. Schumacher fez a pole e venceu.

Um fator importantíssimo e pouco observado com relação à performance de Schumacher em 2001 está nas classificações: a destruição que ele impôs a Barrichello em velocidade se deu com relação a todo o grid: foram 11 pole-positions em 17 etapas, seu recorde pessoal e uma das melhores marcas para um ano até hoje — aproveitamento que Lewis Hamilton nunca conseguiu igualar, e cujo total só superou em 2016, precisando, para isso, disputar 4 GPs a mais.

Por outro lado, Schumacher, que se notabilizou por suas voltas mais rápidas em GP, marcou apenas 3 naquele ano, duas a menos que seu caçulinha e quantidade igual à dos outros vencedores de GP do ano.

Schumacher foi, talvez pela única vez em sua carreira, um piloto de perfil descendente. Na única vez em que precisou vir de trás, assinou uma obra-prima, na Malásia.

Foi um ano bem atípico, afinal.

Abraços,
Marcel Pilatti

***

Leia também:De Melbourne a Abu Dhabi“.

Marcel Pilatti
Marcel Pilatti
Chegou a cursar jornalismo, mas é formado em Letras. Sua primeira lembrança na F1 é o GP do Japão de 1990.

6 Comments

  1. Felipe disse:

    Que ano, realmente, marcante!

    Parabéns pela escrito, o ano do tetra de schummy, cheio de fatos.

  2. Fernando marques disse:

    Marcel,

    2001 … Aquelas torres gêmeas pegando fogo … Eu no trabalho deveras preocupado com o que poderia acontecer com o mundo. Afinal. Segurança dos EUA foi pro espaço … Qual seria a reação americana?

    Aquela corrida na Áustria … Aquela vaia da torcida … a credibilidade das corridas da fórmula 1 sendo posto em cheque mate.

    Foi a única coisa interessante numa fórmula 1 cada vez dominada pelo Schumacher/ Ferrari … Sem falar nos Bridgestones …

    A torcida brasileira em fim entendendo e aprendendo que Barrichello jamais seria campeão pela Ferrari …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

    • Fernando,

      O episódio do “hoje não, hoje não, hoje sim” ocorreu em 2002.

      Marcelo C.Souza
      Dias D’ávila – BA

      • Marcel Pilatti disse:

        SIm, Marcelo, mas como descrevo na coluna o enredo começava em 2001. o Hoje não sucedeu “Foi na última curva no ano passado”.

        Abs!

      • Fernando marques disse:

        Marcelo

        Confiar na minha memória as vezes dá nisso.
        Mas em todo o caso, esportivamente falando, em 2001 já estava claro que Barrichello na Ferrari foi uma furada.

  3. Foi um ano muito louco em todas as vertentes (pessoalmente para mim também o foi) e como você falou irmão: uma ótima temporada do Schumacher, mas pouco falada

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