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| » » » 23.08.10 |
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| Emerson x Ferrari |
23.08.10 |
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Quem iria substituir Jackie Stewart como piloto-referência da Fórmula 1, a partir da temporada 74?
Ele havia sido a baliza esportiva indiscutível da categoria desde a morte de Jim Clark,
no começo de 68. Campeão em 69, 71 e 73, vice em 68 e 72 e líder na luta por mais
segurança nas pistas, Stewart tirara proveito de uma combinação de vácuo de rivais
à altura (a única exceção sendo Emerson Fittipaldi em 72 e 73), superioridade de
meios e grande empatia com a mídia e o público para conquistar um lugar ao lado
de Juan Manuel Fangio e Clark como um dos grandes da categoria, uma posição, a
meu ver, superestimada.
Sua aposentadoria detonava um processo sucessório forçado, tendo como candidatos Emerson,
Clay Regazzoni, Carlos Reutemann, Ronnie Peterson, Patrick Depailler, Carlos Pace e os
jovens Niki Lauda e Jody Scheckter. Não lembro de ninguém incluindo James Hunt, apesar
de uma temporada 73 bem razoável. A lista sofrera pesada e lamentada baixa exatamente
na última corrida de 73: o francês François Cevert morreu nos treinos para o GP dos Estados
Unidos, aos 29 anos.
Para boa parte da imprensa europeia, Emerson não era o favorito ao “cargo”, apesar de haver
vencido o Mundial de 72, depois de eletrizante disputa com Stewart. Argumentava-se que o
brasileiro tirara proveito de problemas de saúde do escocês (que chegou a perder ao menos
um GP por conta de uma úlcera) e um carro antigo e menos competitivo. Numa época em que
praticamente todos os bons pilotos eram europeus era, de fato, meio indigesto para a imprensa
deglutir um sul americano. Os especialistas preferiam apostar suas fichas em Peterson, um piloto
agressivo e algo descuidado mas incrivelmente veloz. Regazzoni e Lauda também não eram muito
cotados pois teriam de superar os problemas da Ferrari, mergulhada na pior crise da sua história.
Bem. Os especialistas erraram feio. Foi Emerson, combinando inteligência, técnica e velocidade,
a tornar-se a referência da categoria, rivalizando inicialmente com Regazzoni e depois Lauda.
Scheckter, apesar de ter lutado pelo título de 74, teria de esperar ainda cinco anos para se
tornar campeão. Os demais candidatos, a exceção de Hunt, ficaram pelo caminho.
A renovação da Ferrari em 74 salvo-a da extinção. A equipe acumulava dez anos sem títulos
na Fórmula 1, produto de uma administração esportiva destemperada e de defasagem tecnológica,
principalmente na construção de chassis. Enzo Ferrari sempre foi ortodoxo, sendo um dos
últimos a abandonar os motores dianteiros (ele argumentava que não devia se colocar a
carroça à frente dos burros...).
Em 74, finalmente concordou em abandonar os chassis tubulares, encomendando um monocoque
na Inglaterra, já que ninguém na Ferrari sabia construir um. Empurrado pelo maravilhoso
12 cilindros boxers, certamente o motor mais potente da categoria, o carro, apesar das
suas feições esquisitas, logo deixou a impressão de que era uma questão de tempo para que
se tornasse dominante na categoria, impressão reforçada pelo fato de a Ferrari ter abandonado
o Campeonato Mundial de Marcas, de forma a poder concentrar dinheiro e o talento de seus
engenheiros na Fórmula 1. Até 73, a mesma equipe de meia dúzia de engenheiros da Ferrari,
comandada pelo genial Mauro Forghieri, projetava, construía e geria tanto a equipe de
Fórmula 1 quanto a de Sport-protótipos.
Emerson também iniciava nova fase em 74. Ele abandonara a Lotus depois de quatro temporadas,
atraído mais por uma boa proposta esportiva e financeira da McLaren e seus patrocinadores,
Marlboro e Texaco, e menos, como se costuma dizer, por diferenças com Colin Chapman, dono da Lotus.
Ele se adaptou bem à sua nova equipe desde o primeiro momento. O carro era, digamos,
primo-irmão do Lotus 72, de construção robusta e bastante versátil. Não era especialmente
veloz – o brasileiro largou apenas duas vezes na pole enquanto Lauda o fez por nove vezes –
mas combinou bem com Emerson. Seu companheiro de equipe, Denis Hulme, planejava a
aposentadoria para o final daquele ano e nunca representou ameaça à liderança do brasileiro.
Niki Lauda foi levado para a Ferrari pela insistência de Clay Regazzoni, que convivera com
ele em 73 na BRM. Aposta é isso aí! Lauda conseguira apenas dois pontos em duas temporadas.
No entanto, tinha talento e personalidade, a ponto de, recém-chegado à equipe, saber influenciar
aquele ninho de cobras na direção certa. Ele conquistou a imprensa e a torcida e neutralizou
as pressões a que os italianos haviam se habituados e que o próprio Enzo gostava de fomentar.
Como Lauda fez isso, não sei explicar mas em poucas semanas já controlava a equipe.
No entanto, não foi ele quem se credenciou a lutar contra Emerson em 74. Apesar das
repetidas poles, foi Regazzoni quem somou os pontos nas corridas, chegando à fase final
do campeonato em condições de disputar o título com o brasileiro. Correndo por fora,
vinha Scheckter. Havia ainda Peterson mas todos sabiam, desde o começo, que ele tinha
poucas chances pois o novíssimo Lotus 76 havia se revelado um fracasso retumbante,
condenando o sueco a carregar nas costas mais uma meia-sola do Lotus 72, lançado na
temporada de 70. Mesmo assim, Peterson ganhou três GPs na temporada - mas pouco fez além disso.
Emerson e Regazzoni brigaram pela liderança do campeonato desde o começo e estavam
empatados em pontos depois de nove GPs. Nas três corridas seguintes, Regazzoni marcou
14 pontos (inclusive vencendo em Nurburgring), mais do que o dobro conseguido por Emerson.
Nos dois GPs seguintes, veio a resposta: uma vitória e um 2º lugar do brasileiro, enquanto
Regazzoni obteve apenas um 2º, no Canadá, corrida vencida pelo rival, o que os igualou na
pontuação. Como Emerson contava mais vitórias, se ambos zerassem no GP final, nos Estados
Unidos, o brasileiro ficaria com o título.
Regazzoni contou depois – e eu acredito nele – que dormiu tranquilo na noite
anterior ao GP, não se permitindo pensar seriamente no título. Piloto da velha
guarda, Regazzoni não estava no nível de profissionalismo de Emerson, apreciando
as farras pré-corrida, que lhe eram possíveis pois nunca levava a mulher aos GPs,
Na corrida, não pode fazer muito. Com problemas no seu Ferrari, atrasou-se já nas
primeiras voltas enquanto Emerson corria tranquilo em 6º lugar. Os abandonos de Lauda
e Scheckter lhe renderam o 4º lugar no final, mais do que suficiente para que conquistasse
o seu segundo mundial, batendo a Ferrari.
No ano seguinte, ele seguiria lutando contra a equipe italiana, desta vez
contra Lauda. Falarei desta temporada em uma próxima coluna.
Boa semana a todos.
Eduardo Correa
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