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| » » » 28.01.10 |
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| Indianapolis Jones descobre mais razões para se temer a Mercedes |
28.01.10 |
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No início de 1939, a fórmula para motores da categoria Fórmula 1 da época era 3 litros supercharged ou 4,5 litros aspirado. Quem acompanhou nossas aventuras pela arqueologia automobilística, sabe que Mercedes-Benz e Auto-Union dominaram totalmente esse período pré-guerra, não dando chances aos únicos que podiam desafiá-los, os italianos.
Por essa razão estes queriam iniciar o ano em grande estilo. Lembrem-se que Mussolini estava no auge, vencendo em casa. Na época, a Itália era colonialista e a Líbia estava sob seu domínio. Lá era corrido o GP de Trípoli. Em setembro de 38, durante o GP da Itália, foi anunciado que esse GP africano seria aberto somente a carros com motor 1,5 litro supercharged. A idéia era desestimular os alemães e assim garantir uma vitória italiana. O pessoal da Mercedes não abriu a boca.
Vamos, mais uma vez, ouvir o relato de Hermann Lang, personagem central da história.
“Em meados de abril um telegrama convocou todos os pilotos para a fábrica. De lá fomos até Hockenheim. Hockenheim?!?! Um circuito feito especialmente para corridas de moto! Será que a Mercedes iria lançar motocicletas? Finalmente o segredo foi revelado. A mais nova criação do departamento de testes da Mercedes estava lá. Em impossíveis, míseros 7 meses, um carro inteiramente novo, com motor 1,5 litro estava pronto para ser testado. Restavam apenas 3 dias para se inscrever no GP de Trípoli e os italianos não paravam de mandar telegramas para Neubauer perguntando se ele ia entrar ou não. ‘Nós reservamos dois lugares para vocês mas teremos que dar para outros, segundo as regras da loteria, caso não venham’, diziam os telegramas. A decisão teria que ser tomada nesse único teste.”
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| O Mercedes W165 de Lang, vencedor em Tripoli 39, hoje no museu da empresa - Clique para ampliar |
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“Se um acidente, por mínimo que fosse, acontecesse, ou mesmo se alguma alteração precisasse ser feita, as esperanças de competir desapareceriam. Por isso, o diretor Sailer também estava em Hockenheim com todo seu staff e bastaria ele dizer “nein” que todo o esforço teria sido em vão. À primeira vista a pequena maravilha impressionou bem. Externamente era muito parecida com seu irmão maior de 3 litros. O motor era um V8. Ele parecia muito menor que os famosos Alfa Romeo que também usavam 8 cilindros, mas em linha, igualmente muito bem construídos. Cinco marchas, suspensão independente na frente e rígida atrás, poderosos freios a tambor.”
“O sol sorria quando Caracciola subiu no cockpit. Foi um prazer ouvir como soava o motorzinho. Rudi deu a primeira volta e esperávamos que parasse, deveria encontrar um monte de coisas a acertar. Mas não! Ele passa rugindo e continua, dando volta após volta. ‘A coisinha corre como um carro de bombeiros’, disse Rudi.”
“Agora era a minha vez! Era impressionante como essa pequena maravilha andava bem! Assim que você engrenava uma marcha o motor já pedia por outra. Rapidamente deixei de pensar nesse carro como um brinquedo e fui obedecendo às suas vontades. 200... 210... 220... 230 km/h. Ele parecia poder ir ainda mais rápido, mas lá está Neubauer sinalizando para parar. Céus, haveria alguma coisa errada? Será que eu estava indo lento demais? Qual o problema?, gritei. Neubauer gritou de volta que Sailer tinha ordenado: ‘Sim!’. E nós todos nos abraçamos, felizes da vida.”
“Em Trípoli, o carro era a sensação. Como a Mercedes aparece com um carro inteiramente novo em tão pouco espaço de tempo?! Estou certo de que os italianos também estavam contentes. Uma vitória sobre um oponente fraco não tem o mesmo valor. E ninguém duvidava que um carro italiano venceria, já que seus 1.5 litro já tinham sido desenvolvidos ao máximo e vencido várias vezes. Nós também não esperávamos vencer, o carro era simplesmente novo demais e não podíamos chamar aquele dia em Hockenheim de teste real.”
“Nós tínhamos apenas dois carros, portanto dois pilotos da equipe tiveram de ficar em casa. Caracciola foi escolhido porque era o mais velho e eu porque tinha vencido em Trípoli duas vezes. Era a quinta vez que eu desembarcava nessa cidade e o tempo estava especialmente quente. Mais do que nunca iríamos sofrer com o Ghibli, o vento que vem do Sahara e deixa o céu todo amarelo.
Enquanto Rudi pegava o carro que tinha andado em Hockenheim, eu ficava com o totalmente novo, que ainda não tinha rodado. Eu precisava testá-lo antes da corrida. Durante esse teste, um outro carro me ultrapassou, lançando uma pedra que veio a atingir minha testa tão fortemente que o sangue começou a escorrer e tive que por uma bandagem. Era a terceira vez que esse estranho acidente ocorria comigo nessa pista.”
“Não demorou muito para percebermos que tínhamos chances de vitória. Somente um dos 28 carros vermelhos que se opunham aos nossos dois prateados era mais rápido. Era uma Maserati totalmente carenada com Luigi Viloresi atrás do volante. Ele largaria em primeiro, depois Rudi e eu. Neubauer determinou as seguintes táticas: Lang persegue os competidores dando tudo que puder. No meio da corrida ele troca os pneus. Caracciola dirige conservadoramente, na tentativa de não precisar trocar pneus. Se eu não conseguir ultrapassar meus oponentes, Caracciola deve tentar tomar a liderança. As chances estavam bem divididas entre nós. Se meu carro fosse forte o suficiente, eu poderia ganhar; se não fosse, Rudi teria poupado seu motor para poder atacar quando nossos concorrentes tivessem gasto os seus disputando comigo. Assim, meu carro foi equipado com um overdrive, para não sobrecarregar o motor. Inicialmente achei que isso iria atrapalhar a briga, gerando uma aceleração inferior.”
“O dia da corrida chegou. Eu estava sentado nos pits quando Neubauer se aproximou e perguntei a ele se a largada seria com bandeira ou luzes. Ele não sabia e foi atrás dos organizadores. Eu já estava sentado no meu carro quando ele se aproximou, cuspiu três vezes sobre meu ombro para desejar boa sorte e gritou: “Vai ser luz...”. Se ele disse alguma coisa a mais eu não ouvi, pois estava totalmente concentrado para a largada. E o que eu imaginava aconteceu!”
“Todos os outros pilotos estavam olhando para a direita, onde estava o Marechal Balbo, com a bandeira. Somente eu estava olhando para o lado dos boxes onde estavam as luzes de partida.
- Achtung! A cada segundo uma das luzes amarelas se apagava. Eu aumentei as rotações, coloquei a alavanca de câmbio na posição de entrada da primeira marcha e lentamente fui engatando. Luz verde! Disparei como um tiro de canhão.”
“Estava na liderança! Minha largada tinha sido esplendida, talvez a mais bela de todas que fiz. Minhas rodas rolaram impecavelmente na pista e toda a potencia do motor foi liberada sem desperdício.
Quando olhei no espelho não vi nada além de poeira. Agora o motor tinha que mostrar tudo de que era capaz. Se ele agüentasse e eu conseguisse impor uma grande vantagem sobre os adversários, teria chance de poupá-lo na segunda metade da corrida.”
“No início da carreira, eu costumava fazer as curvas com o acelerador no fundo mas agora estava guiando com muita consciência. Meus adversários eram todos famosos e não me deixariam ganhar sem lutar. Depois de algum tempo, notei que estava correndo sozinho; bem longe vi uma nuvem de poeira. Era o rápido e aerodinâmico carro de Viloresi. Tinha perdido as marchas ainda na primeira volta e estava fora. ‘Caramba, Lang, nós ficamos atônitos quando vimos você passar voando com 7segundos de vantagem sobre Farina em seu Alfa’.”
“Farina e Caracciola estavam lutando arduamente pelo 2º lugar, que Caracciola tinha obtido na 7a. volta. Farina teve que abandonar pouco depois. Volta a volta minha vantagem aumentava e no meio da corrida eu estava 1m30 na frente de Rudi. Como de hábito, não vi minha esposa. Tenho certeza de que ela estava em algum lugar nos boxes, com os dedos cruzados. A parada foi bem curta e eu não perdi a liderança após encher os tanques e trocar pneus. Apesar de todo o esforço, o motor tinha agüentado e agora eu podia guiar mais cuidadosamente, exatamente de acordo com meu plano.”
“A partir desse momento, eu comecei a me dar conta do terrível calor reinante, 52ºC no solo e 37º na sombra. Os pneus tinham que resistir a essa fornalha. Os pedais estavam tão quentes que minhas solas dos pés começaram a doer, mais e mais. Mas consegui chegar ao final com 3 minutos de vantagem sobre Caracciola, que tinha 5 minutos sobre Emilio Viloresi, com sua Alfa. Emilio era o irmão mais novo de Luigi e infelizmente teve um acidente fatal ainda muito jovem.”
Depois desta largada excepcional e dupla vitória, o novo carro foi levado de volta ao departamento de testes da Mercedes-Benz e nunca mais correu. A fábrica alemã queria apenas provar ao mundo que era capaz de superar qualquer desafio. Durante a guerra, ambos os carros foram levados para Zurique, na Suíça, onde foram confiscados após o cessar-fogo.
Se você acha que a Mercedes-Benz vai ser apenas mais uma competidora nesta temporada, evite apostas altas com alguém que pensa o contrário.
Carlos Chiesa
Fonte: German Racing Cars and Drivers – Pré-war and post-war.
Autor: Günther Molter
Editor: Floyd Clymer
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