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| » » » 27.08.10 |
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Na antiguidade, passaram à imortalidade os 300 de Esparta. Neste fim de semana de 2010 teremos 300 em Spa (desculpe, é uma simetria, não um trocadilho).
Sem dúvida uma marca menos épica na história da civilização, mas repleta de significados na da F1. Não é o mero cumprimento de tabela de um piloto que se arrasta no fundo do pelotão, apenas para alcançar essa marca, com a benevolência de todos.
Vimos isso no futebol brasileiro, por exemplo, com o tão incensado Romário assumidamente jogando apenas para alcançar o milésimo gol, desfrutando de uma complacência que Pelé jamais teve. Estamos falando de um piloto que se considera em seu melhor momento. Aos 38 anos, 18 de carreira.
Será verdade? A julgar por sua tão comentada ultrapassagem sobre Michael, é possível. Vi diversos elogios na imprensa internacional. Um deles dizia que Rubens parecia um garoto estreante, com as naturais vontade e necessidade de mostrar serviço. Como já escrevi antes, aqui, sei de fonte excelente que ele gosta tanto do que faz que se oferece até para fazer testes de pneus de kart. Durante as férias! E que Sam Michael não esconde sua admiração por ele. Portanto é de se esperar que Rubens continuará na Williams por mais tempo, ambos focados na busca de um titulo mundial, e publicamente satisfeitos um com outro.
Mas esta não é uma coluna destinada a elogiar Rubens. Esse mesmo duelo entre ele e Michael, citado acima, também tem mais significados do que o que foi comentado na imprensa. Alguém reparou que se tratava de uma prova de força entre os dois pilotos mais velhos da F1 atual? Alguém se deu conta que ambos são detentores de contas bancarias pra lá de confortáveis para qualquer padrão de vida?
O que leva dois pilotos que poderiam estar em casa (ou no iate, no avião etc.) se divertindo com qualquer outra coisa, a discutir cada centímetro de pista com o acelerador no fundo, roçando um muro de concreto, em busca de um misero pontinho?
Prazer. Puro prazer.
Acredito na tese de que Michael voltou porque sentia falta de andar no limite (além de ter a oportunidade de retribuir o apoio dado pela Mercedes no início de sua inigualável carreira).
Acho que é o mesmo prazer que leva futeboleiros gravemente lesionados no fim da carreira, como Zico, Raí e agora Ronaldo, a enfrentar um tratamento longo e por vezes doloroso, só para experimentar novamente a sensação de ver um estádio cheio gritando seu nome. São todos viciados em adrenalina, acho.
Entendo um Jody Schekter, um Alan Jones, que ganharam um titulo e pularam fora do circo. Na época não havia estas espantosas células de sobrevivência a que um Robert Kubica, por exemplo, deve a vida.
Hoje a categoria oferece bem menos perigo. Mas, e a pressão?
A pressão por resultados se tornou tão desmesurada que tem equipe contratando profissionais como um ex-piloto de caça, por exemplo, para ajudar a lidar com a pressão em momentos críticos.
Curiosamente, Michael parece ser o grande ícone dos pilotos que lidam mal com essa pressão.
Basta ver seu histórico de manobras brutais, arriscadas, ou mesmo desleais, antes desta espremida em seu antigo companheiro de Ferrari.
Hakkinen, Damon, Jacques, eles sentiram as conseqüências dessa fraqueza psicológica do multi-campeão tedesco na hora duvamuvê.
Mas isso não é motivo suficiente para impedi-lo de sentir o prazer da pilotagem em altíssimo nível. Lembram do Zanardi? Que voltou a competir com próteses, dizendo que alguns dos melhores momentos da sua vida aconteceram a 400 km/h?
Discordo totalmente das pessoas que acham que Michael está velho demais. A maioria da população mundial hoje é composta por pessoas maduras e não por jovens.
Não só porque o crescimento populacional é vegetativo ou mesmo negativo em países com economia forte, mas porque o maior conhecimento na área da saúde permitiu elevar substancialmente o tempo e a qualidade de vida. Viver 90, 100 anos já não é mais um ponto totalmente fora da curva.
Em outras palavras, Rubens e Michael, mantendo-se em forma e com essa vontade exuberante, esse entusiasmo juvenil, podem perfeitamente brigar de igual para igual com Seb Vettel, Alonso etc. por mais um tempo. Quer outro paralelo?
Olhe para o cinema atual. Não vejo como Clint Eastwood e Martin Scorsese possam ficar de fora de qualquer lista dos cinco melhores diretores da atualidade. Martin tem 68 anos e Clint 80. Oscar Niemeyer; preciso acrescentar alguma coisa?
Tomara que Rubens e Michael possam atingir seus objetivos antes da aposentadoria. Nada contra os jovens, mas isto seria efetivamente um marco inédito na história do esporte. E dará muito o que pensar a quem vai começar uma carreira.
Sobre as primeiras sessões deste Spa 2010: parece que os motores Ferrari e Mercedes vão ditar o ritmo deste fim de semana. Para o bem da audiência, tomara que chova e pare, chova e pare...
Carlos Chiesa
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