Sessão Leitores
11.08.11 - Roberto Agresti
Talvez sim, talvez não
17.05.11 - Eduardo Correa
Mauro
18.09.09 - Luis Fernando Ramos
O melhor Rubinho, o Rubinho de sempre
12.12.08 - Alessandra Alves
Carta ao editor
27.10.08 - Luiz Alberto Pandini
Micos brasileiros III
mais
29.07.11 - Carlos Chiesa
O Eclipse
E o toureiro não apareceu
21.09.09 - Ernesto Rodrigues
O parasita fanfarrão
Rubens, o relativo
mais
12.03.06
Confira a classificação
12.03.06
Pilotos e Equipes
mais
Home » Leitores » A maior vitória brasileira na F1 » 20.02.08
Aumente o tamanho das letras:
12 | 16 | 20
A maior vitória brasileira na F1 20.02.08
Escreva pra gente


Todas as vezes que entrei em blogs e sites sobre automobilismo, e se estava falando sobre quem foi o melhor piloto ou qual foi a maior vitória brasileira na Fórmula 1, sempre encontrei, como aliás sempre encontrarei, a briguinha mais chata que existe nestes espaços: Piquet x Senna, ainda havendo alguém que se lembre do GP da Argentina de 73 com o Emerson dando uma aula, ou até mesmo da vitória do Barrichello na Alemanha em 2000.

Pra mim, porém, vitória de 9 pontos não foi nenhuma destas. No meu modo de apreciar uma corrida/pilotagem, às vezes o que fica marcado não precisa ser necessariamente uma vitória. Do Ayrton, por exemplo, muitos falam de Donington 93 ou Suzuka 88. Para mim, estas foram fichinhas se comparadas às voltas em Silverstone 93, onde com uma McLaren nitidamente inferior, segurou, no braço, o Prost que pilotava o “carro de outro planeta” que ele tanto desejava. Em Donnigton, na chuva, até de patinete Senna seria o primeiro (desde que o Ickx não estivesse presente). Em Suzuka, tinha nas mãos o melhor carro de F1 jamais construído nestes 58 anos de GPs. Logo, ultrapassar Leyton House, Williams de motor Judd, Arrows, Tyrrell etc, não teve a audácia de Silverstone. Mas voltemos ao motivo desta coluna, “A maior vitória brasileira na F1”, que na minha opinião aconteceu no verão de 1978...







Emerson e seu Copersucar um 2o que valeu por uma vitória
Desde que o Emerson havia se tornado uma celebridade, vencendo corridas na F-Ford e se tornado Campeão Inglês de F3, estive presente aos torneios de automobilismo internacionais que se iniciaram no Brasil: BUA F-Ford (1970), F3 (1971), F2 (1971/1972), Copa Brasil de Turismo (1970 e 1972) e finalmente F1 (1972). Excetuando-se o Torneio de F-Ford, que teve o Rio como ponto centralizador, todos os outros torneios tiveram São Paulo como ponto principal e eu estava sempre lá, viajando de Morubixaba da Cometa com autorização do Juizado de Menores (bons tempos aqueles).

Nos anos seguintes, comecei a ir nos Verões a Sampa, agora nos novíssimos Dinossauros, pois a Cometa tinha aposentado os Morubixabas – ônibus GM PD-4104. Assim, vi todos este torneios e vi a F1, sonho de moleque. A partir de 1973, aposentei os Cometas e ia para São Paulo dirigindo calmamente meu carro com bancos Procar e depois da corrida voltava sentado no mesmo carro, mas o banco já era, imaginação minha é claro, moldado sob-medida para facilitar minha pilotagem. Nestes anos começamos a acompanhar aos domingos pelas manhãs as vitórias do Emerson e seus títulos, pois o campeonato de F1 começou a ser transmitido integralmente para o Brasil em 1973. Vimos grandes corridas e vitórias do Emerson e a do Pace, o Brasil teve a oportunidade de ver o melhor traçado de um autódromo do mundo ao vivo (Interlagos antes da destruição em 1989). Vimos também a Equipe Fittipaldi de F1 – Copersucar-Fittipaldi, com seus carros lindos, mas impiedosamente criticados por uma imprensa esportiva sedimentada no futebol, ser chamado de Caterpilar, Tartaruga, Açucareiro etc, sem se levar em consideração que apesar de tudo, marcou pontos em todos os anos a partir de 76, quando pontos só eram atribuídos até o 6º lugar, sendo motivo de chacota maior que a que fizeram com o Barrichello.

Andretti, o 4o em Jacarepaguá
O Autódromo de Jacarepaguá estava sendo reconstruído (tudo bem, todos sabemos que já foi re-destruído pelo prefeito maluco) e, em 1977, após sua reinauguração, a Brabham–Alfa (BT-45) com Niki Lauda saído da Ferrari, veio treinar aqui no Rio. Eu, já casado, resolvi matar o trabalho para ir fazer uma coisa mais importante, ou seja, ver a Brabham e o Niki cheio de cicatrizes pelo acidente do GP da Alemanha. Não só vi como apareci numa foto de jornal dentro do box ao lado do Lauda e quase fui demitido - mas isso é papo para outra coluna.

A Brabham treinou e quase dois meses depois fomos informados, nós cariocas, que não precisaríamos ir para Sampa pra ver o GP, pois ele seria disputado aqui no Rio, o que achei estranho, pois F1 no Brasil pra mim, só em São Paulo, mas pelo menos gastaria menos e a partir de janeiro comecei a me preparar vendo os treinos gratuitos que as equipes faziam no início da temporada. Aproveitei e levei minha esposa, já grávida, para conhecer as crianças andando rápidas e nervosas no Parquinho e enquanto ela ficava batendo papo com amigas e amigos, como se nenhum F1 estivesse passando em frente a ela, eu fui de arquibancada em arquibancada, do início do retão até o final nas arquibancadas cobertas, observando qual seria o melhor ponto para ver a corrida, ou seja, Setor D, ponta direita, bem no último degrau, de onde se via cerca de 90/95% da pista. No dia seguinte voltei com uma trena, lápis e papel e saí tomando medidas, depois fui ver o treino e aqui cabe uma observação: o Merzário F1 era digno de disputar com o F-Ford do Amedeo Ferri o Troféu “Carro mais mal acabado do planeta”. Nunca vi um F1 mais remendado, mal pintado e lento que aquele, tanto que nem participou do GP por falta de peças. Para ser sincero lento já vi: o AGS do Pascal Fabre.

Merzario e seu carro
Passados os treinos gratuitos, a mídia falava a respeito das possibilidades do Fittipaldi F5A, na realidade o F5 modificado por um studio italiano, o Fly, para ver se melhorava, visto que o original não havia correspondido e também não era um carro-asa como a Lotus que já estava melhorando sua invenção e seria campeã de pilotos de 78 com o Mario Andretti. Na Argentina, o F5A , agora um F1 semi-asa, largara na 17ª posição e chegara em 9º, e nos treinos gratuitos esteve sempre entre os dez melhores tempos.

Na quinta-feira, na montagem dos carros, fantasiado de “rato de box”, lá estava eu. Dava para distinguir bem como cada um se comportava: Emerson, um gentleman mostrando as mudanças no carro, Divila, falando pouco e meio nervoso verificando se tudo estava correndo normal e Wilsinho, nervosão, e com nenhuma ou pouca disposição para entrevistas, devido às pressões.

Na sexta-feira, o carro se apresentou com altos e baixos e naquela época os tempos valiam em ambas as seções e dias, e a Fittipaldi tinha um F5A reserva, novo nos boxes, onde cada mudança exigida pelo Emerson era passada para ele também, mas os tempos ficavam sempre entre o 8º e o 13º. O calor era insuportável, o que é fácil de imaginar, pois se em São Paulo já era quente, imagina no Rio em pleno verão. Os carros eram cheios de dutos para captação de ar menos quente.

No sábado, um certo clima de frustração já tomava conta do ambiente e o inacreditável ainda estava por vir. Cena raríssima, na entrada dos boxes o F5A quebrou o semi-eixo ou coisa parecida e o Emerson pediu e depois mandou o bandeirinha ajudá-lo a empurrar o carro para os boxes. O rapaz, cumprindo seu dever, disse que não. E o Emerson, fugindo totalmente das suas características e mostrando o estado de pressão em que se encontrava a equipe, partiu pra cima do comissário e deu-lhe uns catiripapos. A cena saiu estampada nos jornais do domingo. Como não dava pra reparar o problema a tempo, Emerson sentou no carro reserva e shazan... os tempos e os sorrisos apareceram. Com o F5A reserva, os tempos estavam sempre entre os 8 melhores e ao final do dia o Fittipaldi F5A largaria na 4ª fila, 7º tempo atrás das Ferrari, Lotus e McLaren e como sabíamos que o Emerson era um piloto de chegada, já dava pra imaginar uma boa corrida e aqui começa a ser aplicado o plano traçado: como sou parte de uma tradicional família mineira, ou seja enorme, combinamos que os mais novos, claro, iriam dormir nas filas das roletas pra garantir a ponta direita alta do Setor D e nós chegaríamos por volta das 6 da matina com a cerveja, sanduíches e aquilo que eu garbosamente posso chamar de o primeiro “HC - Hospitality Center” de um autódromo. Sem problemas, porteira aberta, meus irmãos e primos, tal e qual o MST no Pontal do Paranapanema, tomaram o local combinado e minutos depois chegamos com a tralha para ser montada: ripas, arames, parafusos, ferramentas e uma lona de brim cru, super fashion. Neguinho olhando e a gente montando; depois de uns 20 minutos o camarote coberto para cerca de 15 pessoas e três isopor estava pronto, coloquei meus óculos escuros peguei meus dois cronômetros coloquei-os no pescoço e fiquei aguardando aquelas 4 horas tranquilão tomando umas cervejas, porque ao sol um sujeito normal chegava um siri daqueles bem branquinhos e saia depois da corrida um camarão ou lagosta na brasa, vermelhão.

Aí chegou a hora, carros indo para o alinhamento, arquibancada nervosa, todo mundo de olho naquele carrinho amarelo limão e torcendo pra uma largada pelo menos sem perda de posições, aliás, uma das características do Emerson e seu aluno, depois chamado de Professor, Alain Prost.





Dada a largada, alívio, o amarelinho não tinha perdido posições e na primeira passagem pelo retão vinha colado numa McLaren, Uma volta depois já não era mais 7º e sim 6º, veio crescendo e a arquibancada parecendo a Torcida do Flu (jamais colocaria outra torcida que não a do meu clube) veio junto e só não cantávamos “A benção João de Deus” porque o Cardeal Karol Wojtyla ainda não era Papa.

Hunt, Andretti e Emerson
Emerson veio vindo no seu estilo, fazendo suas voltas como um relógio e o momento maior foi quando “jantou” a Lotus de Mario Andretti para delírio geral e nessa hora senti meu Hospitality Center dar uma tremida e pensei em abandoná-lo. Tirando o Peterson, ninguém tinha quebrado e o “Copersucar” vinha firme em segundo e eu com meus cronômetros ficava verificando se a Ferrari andava melhor que o F5A. Na realidade e falando a verdade, eu e mais 60 mil pessoas no autódromo, queríamos era uma reunião urgente de todos os Pai-de-Santo para um “Dispatch Delivery”, no bom português, um Despacho Expresso, que fizesse aquela Ferrari ter só um pneuzinho dechapado, logo depois de passar pelos boxes, só isso bastava, mas o Reutemann era um cara largo em corridas no Brasil e venceu o GP do Brasil de 1978 e o F5A recebeu a bandeirada parecendo que estávamos numa Le Mans nos Trópicos, devido ao número de pessoas na linha de chegada.







Emerson, Wilson, Divila, Darci e outros que não sei ou não me vêm os nomes à cabeça, venceram e participaram da maior vitória brasileira na Fórmula 1. Uma vitória que não valeu 9 pontos, o Emerson não esteve no degrau mais alto do pódio, mas foi o resultado mais importante do nosso automobilismo desde a primeira prova no início do século XX. Pena que mais uma vez, assim como tivemos a Maria Esther Bueno, Éder Jofre, Guga entre tantos, não tenhamos capitalizado esta vitória e a traduzido em resultados. Traduzimos apenas naquilo que fazemos melhor que qualquer outro povo no planeta: a crítica “desconstrutiva”, com e sem sátira.

Reutemann, vencedor da prova
Como escrevi logo no início, às vezes poucas voltas valem mais que uma vitória e acrescentaria que este segundo lugar do Copersucar F5A valeu muito mais que qualquer vitória de um piloto nosso nestes últimos 37 anos, pois poucos comentam ou sabem, que nos 57 anos da Fórmula 1, apenas QUATRO chassis de F1 foram construídos fora de Inglaterra, Itália, França, Alemanha e Suíça - nem mesmo os Eagle de Dan Gurney ou os F1 japoneses (desde a Honda nos anos 60). E estes chassis foram os do FD-01/02/03, FD-04, F5 e F6, feitos num galpãozinho em Interlagos menor que o de qualquer equipe da Stock Car de hoje (ao pessoal de SP, basta passar por lá e acreditar se puder), usando caixa de direção do Chevette e sendo lamentavelmente ridicularizados por parte de uma imprensa sem conhecimento e por formadores de (péssima) opinião.

Na minha opinião, esta foi a maior vitória brasileira na Fórmula 1, que completou 30 anos este ano. Graças a Deus, eu estava lá no meu H.C. no Setor D e vi!!!!!

Fico imaginando se fosse o Pescarolo de Matra MS-120... Uau!

Caíque Pereira

 Leia mais colunas de Help | Envie a coluna para um amigo | Voltar
anuncie | quem somos Apoio: Interactive Fan  |  Red Cube Tecnologia e Comunicação