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Monzanapolis – 2a parte 04.06.08
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Márcio Madeira da Cunha

(Leia a 1a parte deste clicando aqui)

A lista de participantes sofreu algumas alterações importantes, a partir do momento em que começaram os treinos classificatórios. Mike Hawthorn, futuro campeão daquela temporada, admitiu desde o início que não havia gostado da pista. Além disso, estava sofrendo com alguns problemas estomacais, de tal forma que a principal Ferrari passou a ser conduzida por Luigi Musso. Por sua vez, o carro do italiano passou para as mãos de outro futuro campeão, o norte-americano Phil Hill.

Com o carro de Hawthorn, Musso obteve a pole position à impressionante média de 281Km/h. Bob Veith conseguiu o melhor tempo entre os visitantes – e o segundo no geral - com uma média 3 km/h inferior. Atrás dele veio Fangio, liderando um pelotão com tempos muito próximos. Moss obteve o décimo primeiro tempo. Eis a tabela completa com as médias de velocidade:

Qualificação 

Pos

No

Piloto

Média

1

12

Luigi Musso

281.077 km/h

2

9

Bob Veith

278.857

3

19

Juan Manuel Fangio

275.841

4

35

Eddie Sachs

275.841

5

26

Don Freeland

275.180

6

1

Jimmy Bryan

275.014

7

5

Jim Rathmann

274.521

8

75

Johnny Thomson

268.682

9

8

Rodger Ward

268.635

10

98

Troy Ruttman

268.578

11

10

Stirling Moss

264.553

12

49

Ray Crawford

263.641

13

24

Jimmy Reece

263.188

14

14

Phil Hill

259.468

15

56

Maurice Trintignant

258.591

16

4

Masten Gregory

254.293

17

2

Jack Fairman

246.376

18

16

Harry Schell

245.586

19

6

Ivor Bueb

241.960



Monzanapolis, 1957 - Clique para ampliar
Havia-se convencionado que a corrida seria disputada em três baterias, com 63 voltas cada. Pouco antes que fosse dada a primeira largada, porém, houve uma espécie de anticlímax: descobriu-se que um dos pistões do carro de Fangio estava irremediavelmente danificado. O prestígio do piloto foi suficiente para atrasar a largada em alguns minutos, mas logo ficou claro que o reparo demandaria mais tempo do que a organização poderia esperar. Assim, a corrida teve de começar sem seu principal nome.

Os carros americanos usavam caixas de câmbio de apenas duas velocidades, e por isso mesmo perdiam muito tempo na aceleração inicial. A Ferrari havia equipado seu principal carro com uma caixa de cinco marchas, mas optou por retirar duas engrenagens para a corrida. Ainda assim, a marcha a mais dava a Luigi Musso uma bela vantagem no momento da largada em movimento. Valendo-se disso, o italiano completou a primeira volta com o tempo de 56s, sendo seguido de perto por Sachs, Bryan e Rathmann.

Na segunda volta Sachs assumiu a liderança, voltando a perdê-la para Musso após este ter virado uma volta na casa de 54,8s. Na quinta volta Eddie voltou a liderar, e duas voltas depois o italiano era superado também por Bryan. Ainda assim a torcida continuava empolgada pois Luigi estava num de seus melhores dias, guiando na inclinação como um verdadeiro veterano. O momento, na verdade, era mais importante do que se poderia supor. A habilidade de Musso, demonstrada através de perigosas derrapagens controladas a mais de 300 km/h, estava sendo vista pela última vez. Sete dias mais tarde o piloto viria a falecer, durante o GP da França válido para o campeonato mundial. A mesma prova que marcaria a aposentadoria de Fangio.

Na décima primeira passagem Rathmann assumiu a liderança, para não mais perder. Atrás dele, Musso e Sachs seguiam numa disputa vigorosa pela segunda colocação, até que na vigésima volta o motor do último literalmente se desfez. A tranqüilidade de Musso duraria pouco, no entanto, pois seis voltas mais tarde ele seria visto levando a Ferrari aos boxes. O motivo? Musso não estava mais suportando a intoxicação pela queima do metanol!

Não, por mais que tentemos, nenhum de nós jamais vai conseguir sequer imaginar o que se passava atrás daqueles volantes...

Diante da situação inusitada, novos pneus foram colocados no carro e Hawthorn assumiu o volante, retornando à pista na sétima colocação. Àquela altura, o incrivelmente versátil Stirling Moss já aparecia numa excelente terceira posição.

Ao final da volta 53, Bob Veith ultrapassou Moss. Logo em seguida Troy Ruttman fez uma bela manobra, aproveitando-se da presença de um retardatário para ultrapassar aos dois. O risco, no entanto, de nada valeu, pois Ruttman teve que reabastecer pouco depois. Eis o resultado da primeira bateria:

1ª Bateria - Prix Esso (63 voltas) 

Pos

No

Piloto

Tempo

1

5

Jim Rathmann

59m40.9s, 269.178km/h de média

2

1

Jimmy Bryan

1h00m04.1s

3

9

Bob Veith

1h00m26.4s

4

10

Stirling Moss

1h00m35.1s

5

75

Johnny Thomson

61 voltas

6

12

Luigi Musso/Mike Hawthorn

60 voltas

7

98

Troy Ruttman

60 voltas

8

24

Jimmy Reece

59 voltas

9

56

Maurice Trintignant

59 voltas

10

49

Ray Crawford

58 voltas

11

2

Jack Fairman

57 voltas

12

16

Harry Schell

56 voltas

13

4

Masten Gregory

55 voltas

14

6

Ivor Bueb

45 voltas

R

8

Rodger Ward

20 voltas

R

35

Eddie Sachs

20 voltas

R

14

Phil Hill

17 voltas

R

26

Don Freeland

17 voltas

DNS

19

Juan Manuel Fangio

Pistão quebrado



Fez-se necessário um intervalo de 90 minutos entre uma e outra prova, para que os mecânicos pudessem em alguma medida minimizar o desgaste imposto pela pista, que além de tudo era extremamente ondulada. Os pilotos iriam iniciar a corrida conforme as posições de chegada na bateria anterior, num exemplo que faria muito bem aos dias de hoje, diante das arbitrárias e infames inversões de grid que infestaram as pistas nos últimos anos. Entre os pilotos, Fangio mais uma vez não teria condições de largar. Já Maurice Trintignant seria substituído por um jovem e promissor talento estadunidense chamado Anthony Joseph Jr. Também conhecido como A. J. Foyt...

O Eldorado Maserati de Moss
Rathmann liderou esta bateria de ponta a ponta. Na primeira volta ele era seguido por Bryan, Musso, Moss e Veith, e enquanto o italiano parava na volta 19 novamente sofrendo com os efeitos do metanol - dessa vez passando o volante para Phill Hill -, os demais seguiam trocando posições. Ruttman logo se juntou a este grupo. Já Hill seria obrigado a fazer a troca de um pneu na quadragésima volta.

Moss, então o terceiro colocado, aproximava-se de Veith, e por sua vez era seguido de perto por Bryan e Ruttman. Começava assim uma batalha muito acirrada entre estes quatro pilotos, que iria durar da 31ª à 56ª passagem. Ao longo destas fantásticas 25 voltas, a forte sucção gerada pelos carros foi a senha para um sem-número de ultrapassagens. Infelizmente o motor de Moss apresentou uma acentuada perda de potência a partir da 57ª volta, limitando-o à quinta colocação. Eis o resultado da segunda bateria:

2ª Bateria - Prix Mobil (63 voltas) 

Pos

No

Piloto

Tempo

1

5

Jim Rathmann

1h00m18.5s, 266.388 km/h

2

9

Bob Veith

1h00m35.3s

3

1

Jimmy Bryan

1h01m00.9s

4

98

Troy Ruttman

1h01m02.2s

5

10

Stirling Moss

62 voltas

6

56

AJ Foyt

61 voltas

7

24

Jimmy Reece

60 voltas

8

49

Ray Crawford

60 voltas

9

12

Luigi Musso/Phil Hill

60 voltas

10

2

Jack Fairman

57 voltas

11

6

Ivor Bueb

51 voltas

R

8

Rodger Ward

31 voltas

R

4

Masten Gregory

(as fontes divergem quanto ao número de voltas)

R

16

Harry Schell

12 voltas

R

75

Johnny Thomson

1 volta

R

26

Don Freeland

?

DNS

19

Juan Manuel Fangio

Pistão quebrado

DNS

35

Eddie Sachs

 

DNS

14

Phil Hill

O carro usado na primeira bateria não largou na segunda



Fangio finalmente apareceu no grid para a terceira bateria, mas sua participação limitou-se a uma única volta, dessa vez por conta de problemas com a bomba de combustível. Rathmann novamente assumiu a liderança, seguido pelos dois Jaguares, enquanto Moss caía para último por não ter conseguido utilizar a primeira marcha no momento da largada. Estava pronto o cenário para uma impressionante recuperação.

Na 14ª volta Moss ultrapassava Hawthorn para assumir a sexta posição. Na 20ª era a vez de Ray Crawford ceder a quinta colocação. Moss começa então uma feroz perseguição ao Jovem A. J. Foyt, descontando 2s por volta. Na volta 29, Bob Veith subitamente perde uma roda (!), elevando Stirling ao quarto posto. Cinco voltas antes, os já famosos gases produzidos pela Ferrari levaram Hawthorn a desistir, passando a ‘batata quente’ para o pobre Phil Hill.

Na 41ª volta, porém, Moss desapareceu. O sistema de direção de sua Eldorado-Maserati falhou quando ele vinha em aceleração máxima na inclinação. Seu carro chocou-se contra os rails no topo, derrubando um punhado de pilares antes de parar na base da curva. O piloto teve muita sorte de sair ileso desse terrível acidente. Foi a última alteração no posicionamento dos principais pilotos.

3ª Bateria - Prix Shell (63 voltas) 

Pos

No

Piloto

Tempo

1

5

Jim Rathmann

59m37.9s, 269.404 km/h

2

1

Jimmy Bryan

1h00m04.6s

3

12

Mike Hawthorn/Phil Hill

60 voltas

4

49

Ray Crawford

60 voltas

5

24

Jimmy Reece

59 voltas

6

6

Ivor Bueb

52 voltas

R

56

AJ Foyt

54 voltas

R

4

Masten Gregory

44 voltas

R

10

Stirling Moss

40 voltas

R

9

Bob Veith

28 voltas

R

98

Troy Ruttman

12 voltas

R

19

Juan Manuel Fangio

1 volta



Os tempos foram então somados para que se obtivesse um resultado final, sendo Jim Rathmann proclamado vencedor.

Resultado Agregado (189 voltas) 

Pos

No

Piloto

Tempo / distância percorrida

1

5

Jim Rathmann

2h59m37.3, 189 voltas, 268,25 Km/h

2

1

Jimmy Bryan

3h01m09.6, 189 voltas

3

12

Mike Hawthorn/Luigi Musso/Phil Hill

3h01m00.0, 180 voltas

4

49

Ray Crawford

3h01m26.4, 178 voltas

5

24

Jimmy Reece

3h01m50.2, 178 voltas

6

56

AJ Foyt/Maurice Trintignant

2h55m58.8, 174 voltas

7

10

Stirling Moss

2h40m59.2, 164 voltas

8

9

Bob Veith

2h27m23.0, 153 voltas

9

6

Ivor Bueb

3h01m25.8, 148 voltas

10

98

Troy Ruttman

2h13m07.9, 135 voltas

11

2

Jack Fairman

2h00m13.7, 114 voltas

12

4

Masten Gregory

2h00m11.1, 99 voltas

13

16

Harry Schell

1h18m33.2, 71 voltas

14

75

Johnny Thomson

1h05m25.8, 65 voltas

15

8

Rodger Ward

51 voltas

16

35

Eddie Sachs

20 voltas

17

26

Don Freeland

17 voltas?

18

14

Phil Hill

17 voltas

19

19

Juan Manuel Fangio

1 volta



Infelizmente o automóvel Clube de Milão teve prejuízo com a organização da prova, e ela nunca mais voltou a ser realizada.





Passados cinqüenta anos desde sua última e mais famosa edição, Monzanapolis segue dando o testemunho de um período histórico no qual o esporte a motor ainda era movido a sonhos. Uma pista incrível, os melhores pilotos, os carros mais velozes... por que não? Nada de restrições contratuais, direitos de imagem, salários milionários, lastros, grids invertidos ou emoções de mentira. Apenas o homem, a máquina, a pista, alguns apertos de mão e a paixão pela competição.

Meio século após aquela bandeirada final em Monza, torna-se cômodo dizer que aqueles eram tempos ‘românticos’. Afinal, o que diriam eles sobre o nosso tempo? O contraste entre presente e passado gera desconforto, pois vivemos dias de grande ironia. Dispomos de tantos meios materiais, mas já não podemos sonhar como antigamente. Nos tornamos completamente reféns de nossa própria esterilização.

Ao relembrar a simplicidade por trás de sonhos como Monzanapolis, uma pergunta torna-se difícil de evitar: em qual curva da história nós vendemos nossa humanidade?





Ao encerrar essa narrativa eu aproveito para convidar os amigos do GPtotal a visitarem o site de notícias automobilísticas que estou criando ao lado de outro veterano do Gepeto, o também leitor e jornalista Lucas Giavoni. O endereço é www.ultimavolta.com e a previsão é que esteja funcionando a todo vapor dentro de duas semanas.

Forte abraço a todos, e até breve.

Márcio Madeira da Cunha

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