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Diferenças Sutis 31.05.10
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Márcio Madeira, do www.ultimavolta.com

Hamilton venceu na Turquia - Clique para ampliar
Domingo foi um prato cheio para quem curte automobilismo. Pela manhã, uma corridaça na F1, facilitada por uma das poucas pistas de verdade que ainda compõem o calendário da categoria. E à tarde, as sempre importantes 500 Milhas de Indianápolis, ainda que a edição 2010 da mais tradicional corrida de automóveis em todo o mundo não tenha sido exatamente uma prova empolgante.

Mais do que duas doses de alívio para nosso vício por velocidade, no entanto, a coincidência das datas acabou por ampliar a gama de oportunidades que o fim de semana nos deu para entender um pouco mais sobre este fascinante esporte a motor. E a forma como, em meio a tanta força bruta e velocidade, ele continua sendo decidido por pequenos detalhes que no fim fazem toda a diferença.





Para começar, a comparação direta entre um Grand Prix num seletivo circuito misto e uma corrida como Indianápolis nos leva a pensar se a ‘emoção’ de uma corrida se mede mesmo pela quantidade de ultrapassagens que ela proporciona. Afinal, cada uma das muitas relargadas da corrida estadunidense deve ter propiciado número igual ou superior ao de todas as manobras na Turquia somadas, e creio que nem por isso seja possível afirmar que nossa tarde tenha sido mais emocionante que a manhã.

Alonso - Clique para ampliar
Ao contrário, cada vez mais me convenço que o valor de uma ultrapassagem está umbilicalmente ligado à dificuldade de concretização do movimento. Qualidade e quantidade, neste sentido, seriam inversamente proporcionais, e isso explicaria o porquê de algumas das manobras mais emblemáticas da história terem sido realizadas em cima de pilotos igualmente consagrados.

Dito isso, cabe a cada um escolher o tipo de prova que prefere. De minha parte, ainda acho que uma única disputa como a protagonizada por Hamilton e Button nas voltas finais em Istambul acaba pesando mais que todo aquele sem-número de trocas de posições típicas da combinação circuito oval-bandeira amarela.

Mas é claro que está é uma questão completamente subjetiva.





Ainda pensando nas duas corridas do dia, elas também servem como exemplos perfeitos do que de melhor existe no automobilismo em termos de velocidade e rapidez.

De um lado, Indianápolis, com suas quatro curvas para a esquerda, pilotagem relativamente simples, acelerações perfeitamente suportáveis pela anatomia feminina e médias de velocidade superiores a 365 km/h em condições de treino. E de outro, carros de F1 numa pista com curvas de todas as espécies, gerando acelerações da ordem de 5g, andando a médias não superiores a 220km/h.

Duas manifestações radicais das mesmas grandezas que, em proporções muito menores, traduzem a diferença básica entre o desempenho dos carros de Red Bull e McLaren: o primeiro é o mais rápido do grid; o segundo o mais veloz. Perfis sutilmente diferentes, que ajudaram a tornar a corrida turca muito mais rica e interessante.

Vettel, depois do acidente - Clique para ampliar
Na largada, por exemplo, os dois pilotos da McLaren sentiram na pele os benefícios de se contar com uma velocidade final tão superior à de todos os demais. Afinal, tendo largado do lado sujo da pista, tanto Hamilton quanto Button perderam posições no mergulho para a curva 1. No entanto, antes que a primeira volta fosse completada, os dois já haviam recuperado seus postos com facilidade.

A velocidade das Mclarens, por conseguinte, tornava a pressão sobre as Red Bulls muito mais crível e obrigava Mark Webber a puxar um ritmo de prova nitidamente mais elevado do que aquele inicialmente planejado. Os computadores de bordo começavam a avisar que naquela toada nenhum dos carros teria combustível para chegar até o final, e ainda assim não havia muito o que ser feito. Até porque no início da prova, com os carros andando mais baixos graças ao peso do combustível, a McLaren parecia ser até mais forte que a Red Bull.

Veio então a rodada de pit stops e com ela a grande ironia do dia. Uma troca lenta da McLaren roubou a segunda posição de Hamilton, aparentemente privando-o da luta pela vitória. Contudo, o desenrolar da corrida iria mostrar que foi justamente este ‘prejuízo’ o fator que tornou possível a disputa interna da RBR, que por sua vez se traduziu na dobradinha da McLaren...





Schumacher - Clique para ampliar
Terminado o GP, uma pergunta praticamente ecoou sozinha entre jornalistas e espectadores ainda um tanto incrédulos com tudo o que haviam acabado de testemunhar: afinal, de quem foi a culpa na batida entre os pilotos da Red Bull?

Bom, mais uma vez eu considero a pergunta um tanto míope e mal formulada. Simplesmente me parece reducionista imaginar que o fogo amigo que afastou a RBR da liderança entre os construtores tenha sido consequência meramente de um exagero eventual de um ou outro piloto no calor de uma disputa.

Tecnicamente, alguém poderia argumentar que foi Vettel quem guinou seu carro bruscamente, ao que outros poderiam responder que o alemão já se encontrava à frente e no lado de dentro – sendo, portanto, o dono legítimo da posição. Webber, seguindo esta linha de raciocínio, é quem deveria ter se comportado de maneira mais flexível.

Os RBR segundos depois do acidente - Clique para ampliar
Haverá também quem lembre que Vettel havia poupado combustível ao andar toda a corrida atrás de outros carros, e que com isso havia conquistado o direito de utilizar o mapeamento máximo de seu motor por exatamente uma volta a mais que o australiano – justamente a 40ª volta. E que por isso, tinha justamente naquela fatídica curva sua única chance real de lutar pela vitória.

Tudo isso, no entanto, aborda apenas a ponta do iceberg. A realidade é que Mark Webber e Sebastian Vettel entraram em rota inevitável de colisão no exato momento em que o australiano começou a andar na frente do companheiro de equipe.

Durante 21 provas, nas quais Vettel gozou de uma pequena porém constante soberania interna, a dupla da Red Bull foi apontada como exemplo de bom convívio dentro de um ambiente competitivo. A situação, no entanto, mudou completamente a partir do momento em que Webber emendou duas poles e duas vitórias de ponta a ponta no intervalo de apenas oito dias. De repente, e a um só tempo, o australiano passava a sentir o viciante gosto da vitória, enquanto Vettel descobria da pior maneira que um piloto será sempre tão bom (ou ruim) quanto sua última corrida.

Nos 15 dias que separaram Mônaco da Turquia a RBR declarou ter descoberto um problema no chassi que vinha sendo utilizado por Vettel, gerando assim uma expectativa extra acerca do desempenho de ambos os pilotos em Istambul. Afinal, seriam os resultados de Espanha e Mônaco apenas tributários de problemas com o alemão, ou estaria Webber, de fato, vivendo um momento melhor?

É claro que cada um deles gostaria de dar sua própria resposta a esta pergunta, tornando assim o resultado da corrida algo especialmente estratégico – se não na matemática fria do campeonato, ao menos no que tange às não menos importantes reputações. Tanto mais em época de especulações contratuais.

Button e Hamilton
Assim, quando Lewis Hamilton foi tirado do caminho pela própria equipe, e o contexto técnico deu a Vettel uma única chance real de lutar pela vitória, o choque entre os dois pilotos da Red Bull se tornou uma certeza matemática. Simplesmente nenhum deles iria recuar um milímetro que fosse...

Em meio a tantas declarações orientadas e posturas tão assépticas, simplesmente não consigo condenar os pilotos da Red Bull pelo ocorrido. É claro que ambos protagonizaram um momento pastelão, mas se é na pista que as verdades se manifestam, então eu fico feliz ao ver que as disputas cruas ainda possuem muito mais consistência do que os releases politicamente corretos.

Já a gesticulação de Vettel, essa sim merece minha condenação. Tal qual o arremesso do volante protagonizado por Barrichello em Monte Carlo, o gesto do jovem alemão trai um flagrante despreparo para lidar com as complexidades inerentes à posição de piloto na F1 na atualidade. A bronca que certamente ouviu no motorhome da equipe – e que o fez ir rapidamente de encontro à mesma imprensa que havia rejeitado instantes antes – foi plenamente merecida.





Por fim, impossível não dedicar umas palavras à belíssima disputa protagonizada por Lewis Hamilton e Jenson Button nos instantes finais do GP.

Sem o peso dos questionamentos que caíam sobre os ombros de Webber e Vettel, e obviamente escaldados pelo exemplo que tinham acabado de ter, os dois últimos campeões mundiais deram uma verdadeira aula sobre como dosar vontade e responsabilidade, arrojo e autocontrole.

Palmas para Lewis Hamilton, que mereceu a vitória desde os primeiros testes na sexta-feira, e que recuperou a liderança com muita classe quando tudo já parecia perdido.

Bruno Senna - Clique para ampliar
E palmas para este surpreendente Jenson Button, cada vez mais professoral na forma como lê e administra suas corridas, seu posicionamento e seu equipamento. Suas atuações em 2010 são a prova maior do quanto a autoconfiança pode influenciar positivamente o desempenho humano, seja ele em qual área for.

Márcio Madeira

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