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Júlio Oliveira
Músico profissional e professor de bateria, acompanha Fórmula 1 desde o GP da Áustria de 87. Sua grande paixão é a história da categoria.

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28/01/2015 Reputação abaixo do talento

 

Quando, no começo da temporada de 2014, ao ficar claro que o domínio da Mercedes seria praticamente absoluto, ouvi comentários que Nico Rosberg seria devorado por seu companheiro de equipe Lewis Hamilton. Me coloquei a refletir em como o modo de exposição pela atual mídia (principalmente a brasileira) dos pilotos e suas performances influencia a visão do grande público. Tais comentários pareciam querer confirmar um massacre de Hamilton sobre Rosberg na temporada anterior, de 2013, algo que obviamente não aconteceu: Rosberg seria então, de antemão, o grande derrotado do ano.

Não se pretende aqui rebaixar a qualidade de Hamilton, sem dúvida um piloto mais completo e que acumulou mais experiência em situações de disputas reais por títulos mundiais, mas sim tentar repensar a baixa avaliação dada a Rosberg.

Nico Rosberg, 29 anos, alemão, filho do grande campeão Keke Rosberg (apesar de Keke ser finlandês, Nico tem a nacionalidade da mãe Sina) começou no kart aos 10 anos. O talento do jovem alemão logo ficou claro. Ao mesmo tempo, a comparação com o famoso pai ia aumentando na mesma medida de seu sucesso nas pistas. Não que isso fosse um grave problema, pois é algo que muitos outros pilotos, como Damon Hill, Michael Andretti ou Jacques Villeneuve já passaram, e venceram.

Ao mesmo tempo, exemplos paralelos (como o de Nelsinho Piquet) nos mostram que tais comparações podem ser duras e afetar diretamente o desempenho dos pilotos na pista. Ter pilotado para a equipe do seu próprio pai, na F3 em 2003 e 2004, não ajudou em nada nessa questão, mas seus resultados, por si só, já seriam suficientes para provar que Nico era muito mais do que “apenas o filho de um ex-campeão do mundo”. Um título na Formula BMW em 2002 e o título da GP2 (no ano de estreia da categoria) em 2005, foram suas maiores realizações no automobilismo até sua chegada a F1 em 2006, pela equipe Williams, equipe pela qual seu pai se sagrou campeão mundial em 1982 e conseguiu suas cinco vitórias na categoria.

Logo em sua estréia, no GP da Bahrein, Nico levou sua Williams à sétima posição e surpreendeu ao marcar a volta mais rápida da corrida, sendo naquele momento o piloto mais jovem da história a conseguir tal feito. Porém, após esse belo começo de ano e carreira na F1, muitos problemas permearam sua temporada, que terminou bem abaixo do esperado. As temporadas seguintes 2007, 2008 e 2009 foram de luta e muitos problemas para a Williams e Rosberg, que pelo menos ficou à frente dos seus respectivos companheiros de equipe Alexander Wurz (2007) e Kazuki Nakajima (2008 e 2009).

Em 2010, graças a um muito bom 2009, quando marcou todos os pontos da equipe Williams no campeonato e terminou o ano na sétima posição, foi contratado pela nova equipe Mercedes, que havia comprado a então campeã Brawn GP. Seu companheiro de equipe seria ninguém menos do que Michael Schumacher, em sua volta à F1 após uma ausência de três temporadas.

O prognóstico de um massacre pró-Schumacher, mesmo com a longa abstinência do heptacampeão, era grande. Mas o que se viu, durante as três temporadas em que os dois disputaram a liderança na equipe Mercedes, foi exatamente o contrário. Rosberg foi mais rápido que Schumacher 41 vezes em qualificações, enquanto o heptacampeão apenas por 17 vezes ficou à frente do companheiro.  No mesmo período, Nico marcou uma pole-position e venceu sua primeira corrida – China 2012. Michael passou seu retorno na F1 em branco em seus pontos mais fortes. No final, mais do que os 324 pontos conquistados por Nico, contra os 197 de Michael, se pôde ver um piloto extremamente veloz e técnico. Obviamente Schumacher teve sérios problemas de adaptação aos novos pneus e ao novo controle do carro em geral, fatores que tomaram grande parte da atenção da imprensa, ficando o desempenho de Nico, de certa forma, em segundo plano.

Chegamos então a 2013, quando Nico teria que disputar o seio da equipe com o novo leão e já campeão mundial Lewis Hamilton. Amplamente considerado como um dos três maiores e melhores pilotos da atualidade (ao lado de Fernando Alonso e Sebastian Vettel), Hamilton chegou com grande moral na equipe, mas Nico dessa vez também tinha suas armas e uma grande força conquistada pelos três anos ao lado de Schumacher. O campeonato de 2013 foi bastante equilibrado entre os dois, mas Hamilton acabou por ser o mais veloz nos treinos, ganhando de 11 a 8, e por também marcar mais pontos no campeonato, terminando em 189 a 171.

O equilíbrio entre os dois foi marcante e suas virtudes se sobressaíam quando o circuito era mais adequado ao estilo de pilotagem de cada piloto. Rosberg, com sua tocada mais suave, foi melhor em pistas com curvas de raio longo, superando Hamilton em qualificações de pistas como Barcelona, Mônaco, Bahrain ou Interlagos. A maioria dos circuitos atuais, porém, favorece o estilo mais agressivo de Hamilton, o que não se consistiu em surpresa o melhor aproveitamento do inglês, ainda que de maneira apertada.

Então, com tudo o que foi mostrado, ainda esperavam um massacre do inglês em 2014? Muito do talento de Rosberg só pode ser visto pelo apreciador mais atento e detalhista do esporte, enquanto as exibições sempre exuberantes e agressivas de Hamilton são o que há de mais espetacular, empolgante e vendável na F1.

Em 2014 o suposto massacre de Hamilton sobre Rosberg, claro, não aconteceu. Mas, ao mesmo tempo, o ainda jovem alemão perdeu uma grande chance na carreira de ganhar seu primeiro título e se estabelecer como uma força vencedora. Sua velocidade jamais foi colocada em questão. Sua técnica apurada o fez derrotar Hamilton por 12 a 7 nas qualificações, conseguindo 11 poles, contra 7 de Hamilton – a Mercedes perdeu apenas a qualificação do GP da Áustria para Felipe Massa e uma Williams muito bem adaptada àquele circuito.

Rosberg, porém, sofreu ligeiramente em ritmo de corrida durante o ano, e conseguiu liderar por muito tempo a tabela de pontos por vários infortúnios de Hamilton. Os incidentes do GP da Bélgica, quando ambos colidiram, e dos treinos para o GP de Mônaco, quando Rosberg forçou demais sua última volta rápida, saiu da pista e provocou bandeira amarela, atrapalhando Hamilton, mostram que para ser um piloto completo e campeão do mundo, Rosberg precisa também de mais maturidade em pontos importantes.

A luta de 2014 nos mostrou dois pilotos muito talentosos. Mas Nico só pôde lutar pela primeira vez para ser campeão nesta oportunidade. Sua inexperiência em tal situação se deixou aflorar por várias vezes. Some isso a um ritmo de corrida inferior e a azares em momentos cruciais do campeonato (como o abandono no GP de Singapura) e veremos que, enquanto Rosberg surpreendeu aos mais desavisados por não ter sido massacrado por Hamilton, na realidade, ele decepcionou os que sabem de seu real potencial e que muito esperam dele. Vide suas baixas avaliações em muitas das listas anuais dos “dez melhores pilotos do ano”.

Por estes fatores, 2014 não foi o ano de Nico Rosberg e ele terá que esperar por mais uma ou mais temporadas até conquistar o prestígio e a reputação que sua velocidade já deveriam ter lhe dado. Situação semelhante à de um Mika Häkkinen antes do seu bicampeonato.

Abraços,
Júlio

  • Fabiano Bastos das Neves

    Parabéns pela coluna Júlio!
    Concordo contigo que o talento de Rosberg é subestimado.
    Mas ainda lhe falta algo. Se perdeu quando viu que a equipe tomou partido do Hamilton após o acidente da Bélgica, coisa que grandes campeões como Piquet e Senna souberam lidar melhor.
    Mas outros pilotos bem cotados também não souberam lidar com essa situação. É só lembrar de Alonso e Hamilton na McLaren.
    Espero que ele tenha amadurecido e tenha um ano melhor ainda.

  • Lucas dos Santos

    Bem-vindo ao time, Júlio!

    Acho que aquela frase do Galvão Bueno, comparando Vettel e Webber na Red Bull em 2010, serve perfeitamente para comparar Hamilton e Rosberg na Mercedes em 2014: “Rosberg é mais constante; Hamilton é mais brilhante”!

  • Fernando Marques

    Julio,

    parabens pela primeira coluna no GEPETO e belo bom tema.
    A meu ver o Nico Rosberg provou em 2014 que é um top driver.Ele é muito bom. Para ele subir mais alguns degraus no conceito ele precisa superar não só o Alonso e o Vettel, como fez em 2014. Precisa superar principalmente o Hamilton, que tem uma maquina de outro mundo igual ao dele.
    Se ele não conseguiu isso em 2014 a meu ver não foi por pecar em momentos decisivos e sim por não ter sabido ser um “dick vigarista” como foi o Schumacher por exemplo. Aquela manobra em Monaco já abriu hipoteses duvidosas a seu respeito, que ficaram mais duvidosas ainda com o toque que ele deu em Hamilton na Belgica.
    A partir daí, principalmente depois do esporro que levou da alta cupula da Mercedes, ele foi a meu ver mais desastroso ainda ao tentar compensar o seu erro com aquela duas “freadas” erradas em Monza. Resumo ele não soube ser um “dick vigarista”. Foi aí que ele perdeu o titulo para Hamilton. Até por que a sua regularidade nas corridas pareciam ser mais eficiente que o ritmo mais veloz que Hamilton tinha nas corridas. Hamilton se arriscava mais, que por tabela tinha mais chances de cometer mais erros ou ter mais quebras.
    Em 2015 creio que será isto que veremos. Não velo como Nico ser mais rápido que o Hamilton nas corridas mas ele tem mais regularidade. Chegar em 2ª lugar por 3 ou 4 corridas seguidas é bem melhor que uma quebra. [E por ai que ele deve descontar a sua menor velocidade em corridas.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  • Ronaldo

    Bela reflexão.
    Rosberg sempre demonstrou extrema competência em guiar seus bólidos próximo ao limite. Com o melhor carro está na mesma categoria que, por exemplo, Sheckter, Reutmann, Jones e até mesmo o pai. Mas falta aquele testículo extra que os grandes carregam, que os fazem, por alguns momentos em uma prova ou classificação, superar o limite da máquina. Na minha modesta opinião, ele sempre foi tão bom quanto as máquinas que pilotou, nem um décimo a mais.
    Mas soube como poucos administrar a pressão que sofreu em momentos decisivos – exceto em Monza – e ainda, pressionar em doses cavalares seus companheiros de equipe, e merece todos os méritos por isso.
    Talvez mereça ser campeão, mas o cara do outro carro merece mais.

    • Marcelo C.Souza

      Olá Ronaldo!

      Concordo contigo,rapaz! O Nico Rosberg pode até ser um piloto extremamente regular durante as corridas e segurar muito bem a pressão psicológica,mas também acho que o Lewis Hamilton tem um “testículo a mais”,e isto é algo indispensável a qualquer piloto campeão,seja na F-1 ou em qualquer outra categoria.

      Marcelo C.Souza
      Amargosa-BA

  • Guilherme Guizi

    Muito bom texto Júlio.
    Realmente este seu ponto de vista é bem interessante. No começo do campeonato eu até que estava torcendo mais para o Rosberg que para o Hamilton, mas no decorrer do campeonato acabei observando exatamente isso que você disse: Nico acabou pecando em momentos decisivos, mostrando que a falta de experiência numa disputa por título mas sim falta. O Hamilton foi mais capaz nessa parte.
    E o Mika é meu ídolo!o seu arrojo e velocidade me impressiona até hoje (aquela pole em San Marino, minha nossa rs).Se o Nico vier ser como ele, grandes disputas virão!

    Abraços!

    Guilherme Guizi
    Valinhos-SP

  • Mauro Santana

    Belo texto Júlio!

    É, vamos ver o que os novos carros nos reservam, pois estão todos falando que a Mercedes vai continuar com seu domínio, e se isso realmente acontecer, Rosberg terá mais uma chance de vencer o campeonato, mas desta vez, vai ter que mostrar ainda mais que realmente merece conquistar tal feito.

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

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