Interlagos, 1972

Na véspera* desse que será o 39º GP Brasil de F1, passo meu atestado de senilidade à vocês revelando que… sim, eu estava em Interlagos no dia do primeiro GP Brasil, na empoeirada data de 30 de março de 1972, uma quinta-feira. Empoeirada no calendário, mas não na minha memória.

É engraçado como nessas colunas que escrevo aqui para o Gepeto já desenterrei defuntos bem antigos, como a Copa Brasil de 1970, as temporadas de F-Ford e F2, anteriores a esse GP de F1 de 1972, mas em nenhum momento relatei a estréia do santo Interlagos no “grand monde” da F1, estréia essa meio capenga, com míseros 12 carros inscritos numa prova disputada no meio da semana e sem valer pontos para o calendário da F1 daquele ano – daí não ser considerada nas contas.

A explicação para a corrida ser numa quinta-feira? Permitir aos pilotos estar de volta a Inglaterra para disputar uma etapa do torneio de F2 em Thruxton, um expediente duplo normal esse de disputar a F1 e a F2 naqueles tempos. Mas não vou, como previsível, fazer o clássico relato da corrida, pois isso vocês, maníacos da F1, já leram por aí. E se não leram, basta uma “googlada” para que o blábláblá todo caia no seu colo, ou na sua tela, no caso.

Vou, ou ao menos espero, passar algo do clima do paleozóico superior da F1 no Brasil, vigente naquele dia, tão diferente do próximo domingo em tudo, de A a Z.

Primeira grande diferença: chegar de carro até o portão do autódromo. Meu querido pai me defenestrou da Kombi muito cedo, lá pelas 7 horas da manhã, e como vocês sabem (sabem?) hoje, de carro, você não chega nem perto desse lugar em dia de corrida. No caminho me avisou que eu ficaria sozinho, já que ele tinha que trabalhar. Tal notícia foi uma surpresa para mim, mas nada de excepcional. Pergunto: será que algum garoto de 13 anos vai sozinho assistir o GP? Essa é outra grande diferença daqueles tempos, a liberdade dada a crianças e adolescentes. E sem celular para controlar! Com 13 anos, eu já era um habituée de Interlagos, onde chegava tomando três ônibus.

Entrei no autódromo carregando uma mocilha que estava na moda naquela época, de plástico branco com estampa relacionada ao automobilismo: “Gold Leaf Team Lotus”, “Yardley-BRM”, “STP”. Dentro dela, uma garrafa térmica com suco de laranja (!!!), sanduíches de presunto e queijo no pão Pulmann, um boné e jaqueta impermeável. Mesmo chegando cedo, as arquibancadas estavam já lotadas. Sobravam apenas os lugares baixos, sem vista para o miolo do circuito. Me acomodei no cimentão duro para esperar as horas que faltavam para o histórico momento da primeira largada dos F1 no Brasil. Estava meio puto porque queria sentar lá no alto, no meu point favorito, a caixa d’água. Mas quem estava lá onde eu queria ficar chegara na quarta, ou quem sabe na terça, já que era possível dormir no autódromo de um dia para o outro – outra grande diferença…

Primeiríssima atitude, uma vez acomodado: tomar suco de laranja. Abro a garrafa, despejo o líquido na caneca e – surpresa – o suco brilha. Brilha? Sim, o vidro interno da garrafa quebrara e o revestimento espelhado da garrafa boiava no líquido amarelo. Para mim aquela foi a segunda quebra mais triste da jornada. A primeira, viria horas depois quando meu grande ídolo Emerson Fittipaldi, ponteiro da corrida com grande vantagem sobre aquele que seria vencedor, Carlos Reutemann, rodaria bem debaixo do meu nariz por causa de um componente de suspensão bem mais caro que minha garrafa térmica.

A sede de Emerson Fittipaldi por aquela grande vitória na estréia da F1 no Brasil seria recompensada, meses depois, pelo título mundial daquele ano, conquistado seis meses depois no GP da Itália em Monza. Já a minha recompensa pela sede de suco de laranja foi não ter perdido meu lugar, uma vez que não tive que ir ao banheiro nenhuma vez e cruzar a maré de bárbaros que fariam tremer Átila e seus Hunos. Sim, essa é outra grande diferença daqueles tempos para hoje: a educação do público.

As estimadas 60 mil pessoas presentes a Interlagos naquela quente quinta-feira de março de 1972 estavam ali para se divertir. A Fórmula 1 era apenas uma parte de “diversão”. Naquela era, automobilismo e motociclismo enchiam as arquibancadas de Interlagos e não era necessário um GP de F1 para isso, pois qualquer corridinha do Paulista já dava bom público. Porém, Emerson ainda não havia sido campeão e não havia cultura sobre F1 com temos hoje. Resumindo, F1 não era assunto de boteco.

Mas a atitude “de boteco” tivemos, ou melhor, tiveram, pois eu me comportei e não joguei latinha nenhuma na pista. A cada passagem de um carro de bombeiros, da organização ou do que fosse, uma saraivada de latinhas voava da arquibancada rumo ao infeliz passante. A cena da pista forrada de latinhas e outras porcarias deve ter sido algo que fez mais de um gringo visitante refletir sobre que tipo de povo era aquele que se divertia tentando estragar o palco do espetáculo.

Paradoxal.

Mas veio a corrida, a largada e o urro dos motores de onze (um não conseguiu largar) F1 daquela época marcou a memória de quem esteve lá, como eu. E depois daquele dia, nunca mais fomos os mesmos.

Ano após ano, seja aqui em Interlagos ou no Rio de Janeiro, o Brasil sediou uma etapa do Mundial de F1. A importância disso para o automobilismo brasileiro é relevante, e criamos um clã de campeões que poucos países no mundo têm.

httpv://youtu.be/T3y5ZFgidBU

Daquela manhã calorenta, lembro menos de minha sede e mais da certeza de que aquilo tudo era muito lindo. A partir daquele GP minha presença em Interlagos para ver a F1 virou uma tradição até o dia, na metade dos anos 80, em que da arquibancada passei para a pista, e como Glauber, com uma câmera na mão e uma idéia na cabeça, mais isso é outra história…

Bom GP Brasil para todos.

Abraços!

*Coluna publicada originalmente em 16 de outubro de 2009.