10% de Neymar, 5% de Justin Bieber

No canto esquerdo da foto, com um figurino semelhante ao do personagem central (camiseta branca e boné preto), ele fazia careta para a câmera. Estava na arquibancada de um jogo de futebol, mas poderia ser um espetáculo de música ou a estreia de um blockbuster, programas habituais em sua agenda. Assistir, no caso, é menos importante do que ser visto, por isso ninguém se preocupou em perguntar a Lewis Hamilton se ele estava gostando do jogo da seleção brasileira na preparação pela Copa América.

Aliás, ninguém se preocupou em perguntar nada para Hamilton, na ocasião. Ele estava em um jogo de futebol, nos Estados Unidos: o cenário e o país não são o habitat onde o piloto inglês passa e atrai olhares. A foto que ganhou cliques no mundo inteiro e parecia ter Hamilton de contrapeso destacava o jogador Neymar, em férias do Barcelona, e o cantor Justin Bieber. Alguns portais noticiosos locais e de outros países destacaram a presença do jogador e do astro pop sem mencionar o nome de Hamilton, como pode ser visto aqui, em uma notícia da Fox Sports.

É possível que um tricampeão de Fórmula 1 passe como um espectro ao lado de um jogador de futebol e de um cantor? Como é sempre difícil brigar com números, vamos responder com a ajuda deles. Neymar não foi atrás de Justin Bieber à toa. A tática do jogador, fora do gramado, é nitidamente focada em alçar sua figura ao Olimpo das celebridades. Pois foi logo colar no sexto perfil mais seguido do Instagram. O cantor tem mais de 64 milhões de seguidores na rede social e, naturalmente, aparecer em sua página é garantia de visualizações e, mais importante, perspectiva de engrossar a própria lista de fãs.

Não que Neymar esteja exatamente suplicando por cliques. Sua página no Instagram tem mais de 38 milhões de seguidores e é a mais vista entre as celebridades brasileiras. No mundo do futebol, Neymar só perde para Cristiano Ronaldo, mas, na comparação com astros internacionais, a distância dos esportistas para os artistas ainda é grande. E Hamilton, como se situa nesse universo? O atual campeão de Fórmula 1 tem cerca de 3 milhões de seguidores, ou seja, menos de 10% da massa que acompanha Neymar e menos de 5% dos que se interessam por ver as fotos de Justin Bieber. E Hamilton é o único dos pilotos da Fórmula 1 atual que tem mais de um milhão de seguidores. O mais próximo dele, Felipe Massa, está na casa dos 780 mil.

Se o futebol, esporte mais popular do planeta, ainda apanha de lavada do show business, não é de se estranhar que a Fórmula 1 rasteje lá atrás nessa disputa pela atenção do público. Alguns fatores somados mostram que a popularidade da maior categoria do automobilismo mundial está, de fato, sendo corroída nos últimos tempos. Ou, em uma análise menos pessimista, ela está migrando para outras plataformas. E, ao final dessa análise, vamos concluir que Hamilton, visto como um bon vivant por alguns críticos atuais, talvez seja a cabeça mais lúcida da categoria, neste momento.

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Não respeitem meus cabelos brancos

Os primeiros fios brancos começaram a aparecer há poucos anos, mas não me incomodavam. Talvez porque eu clareasse artificialmente os cabelos e, desta forma, os brancos não se destacavam. Voltei à cor natural recentemente e comecei a implicar com eles. Fui à cabeleireira e pedi uma sugestão. Filosofando, Gladys me disse que essa reação é muito comum nos salões: a mulher passa a vida pintando o cabelo com toda a paleta de cores mas, ao sinal dos primeiros brancos, quer voltar ao tom original. “Como se isso resgatasse a própria juventude?”, arrisquei. Discreta e ética, ela só sorriu.

O paralelo me lembrou de um tipo de discussão muito recorrente no esporte: o confronto entre passado e presente. Veteranos tendem a supervalorizar os fatos do passado, enaltecendo as conquistas como se elas fossem heroicas simplesmente por serem desprovidas dos recursos atuais. Como se esses recursos fossem muletas que transformam esportistas medianos do presente em supercampeões e que estes seriam triturados se pudessem duelar com os ídolos de décadas atrás. Muitas vezes – na maioria delas, eu me arrisco – o apego ao passado tem pouco a ver com os atletas e com seus equipamentos. O passado simplesmente era melhor porque nos tinha jovens, vigorosos, sem cabelos brancos.

A comparação entre Nico Rosberg e seu pai Keke, por exemplo. Começando pelo pai. Quem olhar os números da carreira do sueco naturalizado finlandês na Fórmula 1 contabilizará cinco vitórias, cinco pole positions, 17 pódios e um título mundial, em 1982. A carreira de Nico, até agora, aponta 17 vitórias, 23 pole positions e dois vice-campeonatos. Na frieza dos números, apressadamente, seria lógico afirmar que Nico já é melhor do que foi seu pai. Not so fast, colegas.

Voltando no tempo, a 1982, temporada cercada de algumas tragédias. A mais lembrada delas, a morte de Gilles Villeneuve em maio. Pilotando uma Ferrari extremamente competitiva, o canadense Villeneuve parecia sair da vida para deixar o título nas mãos do companheiro Didier Pironi, mas o francês sofreu um acidente grave no GP da Alemanha e não participou das quatro corridas seguintes. A bordo de uma Williams com motor Ford Cosworth, Rosberg, que fez sua estreia na Fórmula 1 aos 29 anos, terminaria o ano como campeão mesmo tendo vencido apenas uma corrida na temporada, o GP da Suíça, disputado no circuito francês de Dijon-Prenois.

Olhando assim, de longe, dá até a impressão de que o título de Rosberg veio como obra do acaso. Não é bem assim. O ano de 1982 teve 16 corridas e onze vencedores diferentes: Rosberg, Pironi, John Watson, Alain Prost, Niki Lauda, René Arnoux, Patrick Tambay, Michele Alboreto, Elio De Angelis, Riccardo Patrese e Nelson Piquet. Rosberg foi campeão graças à maior regularidade, pontuando em dez ocasiões, sendo três em segundo lugar e mais duas em terceiro. “Só” uma vitória não é uma forma justa de analisar o ano do título de Rosberg. Dos onze vencedores de GPs naquele ano, apenas Pironi, Watson, Prost, Lauda e Arnoux conseguiram dois primeiros lugares.

Vamos dar um salto no tempo e chegar a 2006, ano da estreia de Nico Rosberg na categoria. Aos 20 anos, filho de piloto campeão do mundo, Nico trilhou uma carreira sólida nas categorias de base da Europa, foi campeão da GP2 em 2005 e entrou na Fórmula 1 pela porta da Williams, a mesma com que seu pai foi campeão. No entanto, chegou a um time cuja competitividade estava bem distante da que costumava ter no passado. Foram quatro temporadas discretas no time de Grove. No ano de estreia, 17º lugar no campeonato. No ano seguinte, nono. Em 2008, 13º, melhorando para sétimo em seu último ano pela equipe de Frank.

Em 2010, parecia que o jogo ia virar para Nico, quando a Mercedes, voltando à Fórmula 1 depois de comprar a equipe Brawn, campeã em 2009, anunciou o jovem alemão para o ano seguinte. Ainda no final daquele ano, a ducha gelada. A Mercedes resolve completar sua esquadra, fazendo um anúncio bombástico: o retorno do heptacampeão Michael Schumacher. Na previsão dos analistas, o filho de Keke passou de potencial campeão, sem escalas, a nova vítima de Schumacher. Nem uma coisa, nem outra. A Mercedes não sustentou o domínio da Brawn e seus pilotos foram apenas sétimo e nono colocados. Mas, com Nico à frente de Schumacher. E, mais significativo, com quase o dobro de pontos. O novo engoliu o velho. E enquanto Schumacher permaneceu na categoria, até o final de 2012, foi assim. Coube a Nico, inclusive, dar a primeira vitória dessa nova fase à Mercedes, no GP da China dessa temporada.

Embora os estilos de Keke e Nico pareçam muito diferentes, considero que suas carreiras têm mais pontos em comum do que os números possam aparentar. Ambos começaram em equipes pouco competitivas e cumpriram seus primeiros campeonatos sem resultados expressivos. Em suas quatro primeiras temporadas, o pai só conseguiu marcar pontos em uma, a de 1980. Nico teve a vida um pouco mais facilitada, pontuando no ano de estreia, mas sem a mínima chance de encostar nos líderes. No entanto, o arrojado Keke e o cerebral Nico conseguiram, cada um a seu modo, chamar a atenção de times vencedores.

Outra característica: tanto Keke quanto Nico desafiaram e venceram colegas veteranos. Não apenas isso: campeões na categoria. O que Nico fez com Schumacher lembra muito o que o pai fez com Emerson Fittipaldi, que o contratou para a equipe já batizada com o nome da família, em 1980, e viu o colega mais jovem obter resultados mais expressivos, embora ambos sem chances de ameaçar os primeiros colocados.

Talvez a maior diferença entre Nico e Keke esteja no momento em que ascendem para equipes vitoriosas. Nico cumpriu outras quatro temporadas na Mercedes frequentando zonas intermediárias na tabela de classificação. Quando a equipe evoluiu a ponto de ter um carro vencedor, as vitórias e pole positions vieram. O problema é que vieram em maior proporção para o companheiro de equipe, Lewis Hamilton, vencedor das duas temporadas que renderam a Nico seus vice-campeonatos. Keke correu cinco temporadas em times com potencial para vitórias e títulos. Na primeira delas, garantiu o seu. Depois, o melhor que conseguiu foi um terceiro lugar, em 1985.

O que isso significa? De novo, apressadamente, alguém poderia dizer que Keke é melhor que Nico, pois o primeiro conseguiu o título e o segundo (ainda) não. Calma, gente, devagar. Lembra, lá no começo, quando comentei que Keke ganhou um campeonato com onze vencedores diferentes de GP? Quantos vencedores tivemos em 2015? Três. Em 2014? Três. As possibilidades de vitória, em 1982, eram muito mais pulverizadas no grid. Hoje, e há muitos anos, na verdade, as chances de alguém ganhar quase sempre dividem-se entre duas equipes.

Por um lado, os detratores de Nico poderiam apontar o dedo e dizer: se ele fosse bom mesmo, quem tinha vencido os dois últimos campeonatos seria ele, não Hamilton. Eu não tenho dúvidas de que Hamilton é melhor piloto que Nico, mas a comparação, aqui, é entre Nico e seu pai.

Por outro, também se poderia lembrar que, hoje, o funil da Fórmula 1 é muito mais estreito – especialmente quando se analisam as chances de vitórias e títulos. E Nico, no final das contas, está se mantendo em uma equipe vencedora, o lugar onde qualquer piloto gostaria de estar, venceu seis provas na sequência, entre o final de 2015 e o início de 2016, e já é o piloto “sem título” mais vencedor da história, tendo ultrapassado o inglês Stirling Moss na última corrida.

Há quem cogite, aqui e ali, que Rosberg está batendo Hamilton porque a equipe estaria sabotando o inglês. Bitch, please… Hamilton fez as pole positions na Austrália e no Bahrein, largou mal e porcamente e se complicou sozinho nas duas ocasiões. Rosberg, enquanto isso, aproveitou-se da flagrante superioridade da Mercedes e venceu as três primeiras corridas. O jogo vai virar para Hamilton, em algum momento? Eu até acho que vai, porque o campeonato é longuíssimo e o inglês é aparelhado o suficiente para isso. Mas não acho impossível que Rosberg consiga administrar sua vantagem e igualar-se ao pai como campeão mundial. Um cerebral, um arrojado, cada um de um jeito.

Se o fizer, terá feito em sua décima-primeira temporada. O pai, na quinta. O que não prova que o pai seja melhor. Nico já tem mais do triplo de vitórias do pai. O que não prova que o filho seja melhor. Na moral da história, sem dar uma de isentona, continuo achando inócuo comparar maçãs com laranjas, 1982 com 2016. Eu preferia não ter cabelos brancos, mas apegar-me ao passado não fará com que eles nasçam castanhos novamente.

O salvador

Estima-se que a idade do planeta Terra gire em torno de 4 bilhões de anos. O ser humano, em sua fase evolutiva, conhecida como homo sapiens, surgiu no planeta entre 250 mil e 400 mil anos atrás. Na comparação com o ambiente que habitamos, somos muito, muito crianças, e talvez isso explique por que ainda temos, socialmente, atitudes tão infantis. A necessidade de escolher, enaltecer e depositar esperanças em figuras messiânicas persiste e, em grande medida, é louvada como solução para problemas estruturais muito complexos. Continuamos buscando heróis, na vida e no esporte, e a Fórmula 1 parece ter escolhido o seu messias para a temporada de 2016: o alemão Sebastian Vettel.

O tetracampeão pela Red Bull inicia seu segundo ano como piloto da Ferrari reconhecido como a principal, senão única, ameaça ao domínio da Mercedes. Ainda que o alemão Nico Rosberg tenha vencido as últimas três corridas de 2015, parece mais lógico apostar em Vettel como oponente ao tricampeão Lewis Hamilton que em seu companheiro de equipe. Em primeiro lugar, porque Hamilton deu mostras de ter desativado o modo “ultracompetitivo” da sua mente depois de garantir o título no GP dos Estados Unidos. Sua motivação para conquistar o tetra deve modificar bastante sua conduta no início da atual temporada.

E segundo, e mais importante, porque Nico não parece dispor de mais prestígio dentro da equipe do que Hamilton. Divulgada no início do ano, uma estimativa de salários na Fórmula 1 aponta que Hamilton fatura em torno de 28,5 milhões de euros por temporada, contra 16,8 milhões do companheiro. Claramente, um é primeiro piloto, o outro, escudeiro. A Mercedes, em que pese o discurso de isonomia, trabalha unida em torno de um deles e, a menos que Hamilton tenha um início de campeonato desastroso, deve ser em torno do inglês a aposta para mais um Mundial de Pilotos, com Rosberg garantindo pontos que levem o time a mais um Mundial de Construtores.

Assim, repousam em Vettel todas as esperanças de um Mundial mais competitivo que o de 2015. Não parece ser exagerada a perspectiva Vettel. Os testes de pré-temporada, em Barcelona, demonstraram uma aproximação real entre a Ferrari e a Mercedes. A análise do desempenho dos quatro carros das duas equipes sugere que a vantagem da Mercedes sobre a Ferrari hoje seja de dois a três décimos de segundo, em ritmo de classificação. Sinais de que a Ferrari possa alcançar a Mercedes foram ainda mais evidentes quando comparados os dados obtidos em ritmo de prova.

Claro que nem todas as informações foram postas à mesa. O paddock afirma quase em uníssono que a Mercedes não demonstrou toda a força do seu motor e provavelmente só fará isso na classificação, agora em formato de “resta um”, na tarde do próximo sábado (madrugada no horário de Brasília). Considerando que Vettel já foi a sombra mais próxima da Mercedes em 2015, conquistando inclusive três vitórias (as únicas de um piloto de fora da Mercedes), é natural colocá-lo como oponente natural de Hamilton. E por que Vettel e não o companheiro Kimi Raikkonen? Basicamente, pelos menos motivos que colocam Hamilton à frente de Rosberg. Além das vitórias, Vettel subiu ao pódio mais dez vezes em 2015. Kimi, três. Vettel ganha 27,5 milhões, contra 6,4 milhões de Kimi. Vettel claramente tem a Ferrari nas mãos, e se há um time que privilegia o primeiro piloto, historicamente, é a Ferrari.

Ainda com base nos testes de inverno, atrás de Mercedes e Ferrari surge a Williams, exatamente como em 2015. Perspectivas para Felipe Massa? Além de voltar a vencer um GP, poucas, inclusive porque o bom desempenho da Williams parece restrito ao ritmo de classificação, perdendo rendimento ao longo da corrida.

Na sequência, Red Bull, Force India e Toro Rosso. No caso da Red Bull, a performance de Daniel Ricciardo chamou atenção não apenas em ritmo de prova, mas principalmente pelo menor desgaste de pneus, característica que pode ser vital em determinadas pistas.

Bem atrás desse segundo bloco, surgem Sauber, McLaren e Renault. A Sauber, do brasileiro Felipe Nasr, segue patinando em problemas financeiros, e não deve oferecer grandes perspectivas ao piloto de Brasília. O quinto lugar na corrida de Melbourne de 2015 (melhor estreia de um brasileiro na categoria) não se repetiu ao longo do ano, pela baixa competitividade do carro. Ainda assim, Nasr conquistou 27 pontos no campeonato (três vezes mais que o companheiro Marcus Ericsson) e conseguiu um sexto lugar na corrida da Rússia. O ano de 2016 será decisivo para que ele, ao mesmo tempo, confirme amadurecimento nas pistas e trabalhe politicamente no paddock, para se credenciar a uma equipe de melhores possibilidades em 2017.

A nanica Manor não deve fazer muito mais que figuração, e a discreta evolução da McLaren sugere que Fernando Alonso e Jenson Button estarão um pouco mais distantes do fim do pelotão que em 2015, deixando a lanterna para a equipe agora representada pelo alemão Pascal Wehrlein e pelo indonésio Rio Haryanto. A estreante Haas não parece fadada ao vexame, pelo contrário. Com pneus macios, a nova equipe conquistou em Barcelona um tempo capaz de colocá-la em quinto lugar no grid do GP da Espanha do ano passado. Nada mal, mas também nenhuma sombra a Mercedes e Ferrari.

Desta forma, a expectativa – ou antes, a torcida – por um campeonato mais emocionante passa por Vettel. Na verdade, não passa. Estaciona nele, pois dificilmente uma opção fora desses quatro pilotos, com Hamilton e Vettel à frente, terá chance de desafiar a hegemonia atual. E então voltamos ao início deste texto.

Por que em vez de eleger um messias, um salvador, um herói, a Fórmula 1 não ataca a estrutura que a tem enfraquecido nos últimos anos? Por que não organizar as equipes de maneira a que as diferenças de orçamento entre as gigantes e as nanicas seja menor, a ponto de não haver gigantes e nanicas? Por que não aumentar a competitividade na pista dando mais autonomia aos pilotos e menos punições para atitudes supostamente antiesportivas? Por que não olhar mais para categorias do esporte a motor que trilharam esses caminhos (MotoGP, WEC, por exemplo) e fazer aquilo que, no ambiente corporativo, se chamam “boas práticas” em vez de se fechar na arrogância de “maior categoria do mundo”? Por quê?

Em meio a mais indagações que certezas, desejo a todos uma excelente temporada de Fórmula 1.