A volta esquecida

Por mais de 60 anos, a Formula 1 tem proporcionado momentos históricos que permanecem gravados na memória dos aficionados. Momentos marcantes como a vitória de Fangio em Nurburgring 57, a ultrapassagem de Piquet sobre Senna em Hungaroring 86 e o penta consecutivo de Schumacher sempre são bons exemplos citados em qualquer mesa de bar. No entanto, muitos feitos extraordinários acabam se perdendo com o tempo, o que não significa que sejam menores do que aqueles normalmente lembrados.

Um destes episódios aconteceu em 5 de Outubro de 1985, durante os treinos classificatórios do Grande Prêmio da Europa. Inicialmente planejada para acontecer em um traçado de rua na cidade de Roma, a prova foi transferida de última hora para o circuito inglês de Brands Hatch, conhecido por seu relevo característico e elevada velocidade média.

Em termos históricos, pelo menos três fatos são dignos de nota neste GP. Um deles foi protagonizado por Prost, que se sagrou campeão mundial pela primeira vez, batendo a Ferrari de Alboreto com duas provas de antecedência. O segundo por Nigel Mansell, que conquistou a primeira vitória de sua carreira, 76 GPs após sua estreia. E o terceiro por John Watson, que, após quase dois anos sem participar de um GP, foi chamado pela McLaren para substituir Niki Lauda, impedido de correr por uma lesão no punho: seria a última corrida de F1 disputada pelo célebre piloto inglês.

Outra nota de interesse é que este foi o primeiro GP desde a morte de Stefan Belloff em que a Tyrrell alinhou com dois carros no grid. O piloto escolhido foi o então estreante Ivan Capelli.

Apesar destas notas marcantes, o grande momento do fim de semana aconteceu na disputa pela pole position. Na sessão de sexta-feira, Senna iniciou os trabalhos fazendo a pole provisória, rapidamente superada pela Brabham de Nelson Piquet e pela Williams de Keke Rosberg. Com o tempo de 1:09.204, Piquet praticamente encaminhava sua classificação em primeiro lugar, três décimos mais rápido do que o recorde da pista assinalado por Rosberg três anos antes. Porém, nos minutos derradeiros da sessão, Senna encontra um novo limite e pulveriza o tempo do compatriota: 1:08.020.

A sessão de treinos classificatórios do sábado parecia ser mera formalidade. As Williams melhoraram seus tempos, se valendo da maior velocidade de reta e utilizando a mesma prática adotada pela Lotus no dia anterior: aquecer os pneus antes de sair dos boxes. Ainda assim, o melhor tempo de Mansell estava três centésimos acima da pole provisória de Senna.

Logo depois o brasileiro foi à pista e registrou um giro ainda mais rápido do que o do dia anterior: com 1:07.525, Ayrton já era de longe o homem mais rápido da história de Brands Hatch, quase dois segundos abaixo do que qualquer um antes daquele fim de semana.

Mas as Williams não eram os únicos carros perseguindo a pole position. Nelson Piquet foi à luta com a Brabham-BMW e, numa volta magnífica, registrou 1:07.482, deixando todo o grid e os espectadores presentes incrédulos. Um golpe psicológico muito forte para Senna, que ainda estava em sua segunda temporada na F1. Ayrton havia feito uma volta perfeita e mesmo assim tinha sido batido pela experiência e velocidade de Piquet.

Faltando poucos minutos para o fim da sessão, Senna decidiu tentar mais uma vez. Pneus novos, combustível suficiente para uma volta rápida, e um plano na cabeça: conquistar a pole, no que seria a primeira dobradinha brasileira em treinos oficiais da Fórmula 1.

O Lotus-Renault abre sua volta rápida, e o público acompanha ansiosamente os movimentos na pista. Ao fim da primeira parcial o cronômetro registra o impossível: Senna estava em um ritmo melhor do que a pole provisória de Piquet! O carro preto rasga a reta oposta e, ao se aproximar da tomada para a curva Hawthorn, uma McLaren aparece lenta à sua frente. Era Prost, em volta de desaceleração.

Diante de uma situação em que muitos teriam aliviado o pé, Senna não o fez, contornando a curva a cerca de 200km/h. Ao cruzar a linha de chegada, o risco havia valido a pena. A pole era de Senna com impossíveis 1:07.169. Se no dia anterior Senna havia passado o trator sobre a concorrência, o sábado veio como um rolo compressor. Detalhe: na opinião do próprio piloto, era possível tirar mais do carro.

Vale dizer que, mesmo sendo apenas sua segunda temporada, Senna já era considerado em 1985 um ás das voltas rápidas. Brands Hatch foi sua sexta pole position no ano, corroborando a força do motor Renault de classificação, que tinha potência estimada de 1200HP. No entanto, não se pode atribuir tal domínio somente ao foguete francês: como efeito de comparação, o companheiro de equipe de Senna, Elio de Angelis, registrou meros 1:10 em Brands Hatch.

O depoimento de John Watson mostra quão inspirado o piloto brasileiro estava naquele dia:

“Aproximando-me da curva Dingle Dell, noto um carro muito rápido vindo atrás de mim. Era Ayrton, que logo me passou pela parte interna da pista – deixei espaço para isso. Ali, testemunhei de maneira visual e sonora algo que nunca tinha visto alguém fazer em um carro de corrida.

Era como se ele tivesse quatro braços e quatro pernas. Freando, reduzindo marchas, esterçando, bombeando o acelerador, enquanto o carro parecia estar no fio da navalha em termos de controle. Ele fez a curva da maneira que havia programado, pilotando o carro com tanta superioridade que me abriu os olhos. Então, pé no fundo novamente e aquele carro passou pela curva.

Nunca tinha visto um carro turbo ser pilotado daquela maneira – para mim foi uma experiência digna de nota, um privilégio ter visto.”

Feliz ano novo a todos.

Cassio Yared

12 thoughts on “A volta esquecida

  1. Gostei bastante da coluna. Já sabia da história do Watson, mas os detalhes do f.d.s., não. Também não lembrada da tremenda fechada e depois do “troco” do Rosberg. Aliás como era a época: é possível que se Rosberg tivesse deslanchado ao invés de travar o Senna e facilitar para o Mansell, poderia até ter vencido a prova, por que não? Já o brasileiro aprendeu mais algumas coisas naquele dia, com certeza… 🙂 Mais do que pilotos, resta a saudade de carros espetacularmente potentes e analógicos, da pista com subidas e descidas, fora as curvas cegas, que ainda apanho no GT-6 (ao menos na paddock hill bend) e do clima.

    1. Olá Allan, tenho comigo que Rosberg tentou a ultrapassagem no ponto errado da pista. Note que a curva em que o enrosco ocorreu (Surtees) tem uma tangência um tanto incomum. A melhor maneira de fazer esta curva é percorrê-la sem se aproximar da zebra interna, ou seja, é uma curva que se faz “por fora”. Desta forma, passar por dentro somente seria possível se Senna abdicasse de fazer a curva de forma competitiva – o que sabemos nunca iria acontecer.

      Rosberg vinha num ritmo de prova melhor e eventualmente conseguiria a ultrapassagem dentro de algumas voltas, principalmente com o nível de consumo bizarro do motor Renault.

      Quanto aos carros da época, podemos resumir dizendo que eram como foguetes entre uma curva e outra. E fazer a paddock hill bend no GT6 de maneira competitiva é um desafio para poucos! Me adicione na PSN para tirarmos uns rachas (ballistaBR).

      Abraços

      Cassio

  2. Caro Cassio,

    parabéns pelo texto de estreia.
    Acho que vale ressaltar alguns pontos importantes da temporada de 1985.
    Com relação ao Piquet e a Brabham vale dizer que a Pirelli era a fornecedora de pneus. Somente em uma corrida da temporada os pneus Pirelli tiveram um bom rendimento em corrida. Foi no GP da França e o Piquet venceu. Piquet em 85 tinha um bom carro e um excelente motor. Só não teve bons pneus. Corrija se estiver errado.
    Alem da 1ª vitoria de Mansell, a temporada de 1985 valeu também pelo inicio do domínio da Willlians/Honda.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

    1. Fernando, obrigado pelo comentário. E sim, Piquet teve como principal problema os pneus Pirelli, enquanto a parceria Williams-Honda começou a se mostrar competitiva já em 85.

      Abraços

      Cassio

  3. Bom dia a todos!
    Eu li direito? Diante da descrição dada por Watson daquela volta inacreditável que só podia ser comparada à pole em Mônaco/88 ( “…Senna desafiou a credulidade e fez 1’23″998…” palavras de Christopher Hilton) Senna disse que ainda podia tirar mais do Lotus 97T. Pois era um carro cujo chassi rendia 80 a 85% do ideal e equipado com o motor Renault biturbo que mesmo com 8 anos de uso contínuo ainda era um foguete. Eu pergunto: O que Senna faria com o BMW M12/13 nas mãos? E já que começamos oficialmente 2015 no gptotal reitero o pedido para análise de Monza/1978 relativo ao acidente de Ronnie Peterson e a perseguição contra Riccardo Patrese, segundo algumas fontes iniciada por James Hunt e seguida por outros veteranos como Niki Lauda e Emerson Fittipaldi, que abalou a competitividade do italiano nos anos seguintes. Apesar de Patrese ter sido defendido por Jody Scheckter que foi o único que abriu os olhos e viu que outros fatores contribuíram para o acidente: o diretor de prova confuso sobre o uso de nova tecnologia para largada e Peterson ser obrigado a pilotar um Lotus 78 do ano passado (bateu com o Lotus 79 nos treinos) que estava parado há meses! Peço ao Lucas que use seu talento de garimpeiro de textos para abrir o leque sobre essa questão, mas Marcel Pilatti, Flaviz Guerra, Alessandra Alves e Marcio Madeira também são mais do que bem vindos com quaisquer contribuições para o tema. Obrigado!

  4. Outro detalhe interessante deste GP, é o Keke Rosberg( depois da sua corrida fantástica de recuperação) mandando ver ainda no pódio um Marlborão.

    Eram outros tempos…

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

  5. Belo texto Cassio, Parabéns!!

    Interessante pra mim ler este texto, pois aproveitando minha ultima semana de férias, aproveitei para assistir a este GP novamente semana passada, e que foi uma baita corrida.

    Só uma coisa que até hoje não consigo entender, é por que o Piquet alinhou sua Brabham na posição errada do grid, e largou muito mal.

    Até hoje,me pergunto o por que a RG foi transmitir os treinos classificatórios somente a partir de 1991, pois em 92 e 93 o Senna não teve carro para disputar as poles, e em 94 todos sabemos a história.

    Ou seja, o melhor, já tinha passado, e a raspa do tacho, digamos assim, foi 1991.

    Uma pena, pois teríamos assistido a cada espetáculo fantástico, como fora também a volta da pole do Keke Rosberg em Silverstone 1985.

    Outro detalhe interessante também de nota, era como o Piquet era rápido nos treinos quando queria ser, o quanto a presença do Senna na Lotus já o incomodava, e o quanto aquele acidente em Imola lhe fez mal.

    Bom, eu sou suspeito pra falar, pois a F1 dos anos 80 é a minha fase predileta, e também um privilégio de poder ter acompanhado.

    Mais uma vez, parabéns pelo texto!!

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

    1. Olá Mauro;

      Concordo com você, a corrida em si também foi muito interessante. Praticamente o resumo de uma década: pole mágica de Senna, com insights de sua rivalidade com Piquet; o arrojo de Rosberg na tentativa de ultrapassagem sobre Senna – que fechou a porta – seguida de uma excelente corrida de recuperação; Prost correndo pro gasto, chegando na posição exata para se tornar campeão mundial; Watson largando no fim do pelotão pra chegar em 7º; primeira vitória do Mansell…

      E de fato, Piquet poderia ser muito rápido quando queria. Bastava que houvesse a motivação correta, seja através das rivalidades ou do lado financeiro. E depois do acidente em Ímola ele nunca mais foi o mesmo.

      Abraço.

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