O difusor da discórdia

A temporada de 2009 da F1 é tida como a de maior número de mudanças no regulamento técnico da categoria. Ainda em 2008 foi criado o “Overtaking Working Group” ou “Grupo de Trabalho para Ultrapassagens”, que reformulou diversos pontos no conceito dos carros tendo como objetivo aumentar o número de ultrapassagens nas pistas. Retorno dos pneus slick, introdução do KERS, geometrias pouco ortodoxas de asas traseiras e dianteiras foram algumas destas mudanças, que deveriam reduzir a carga aerodinâmica dos carros em até 50%, e aumentar o grip mecânico em cerca de 20%, diminuindo assim a dependência aerodinâmica dos bólidos. Tudo em nome de um melhor “espetáculo”.

No entanto, a mudança de regra que mais causou polêmica foi a restrição imposta aos difusores de ar. Para 2009, os difusores foram reduzidos em seu tamanho e deslocados em direção à parte traseira do carro. Com isso, pretendia-se tanto reduzir o downforce dos carros quanto a turbulência do ar na traseira do veículo. Esta turbulência excessiva era tida como vilã das ultrapassagens uma vez que impedia a aproximação do veículo de trás.

Durante o inverno, a equipe Honda estava se retirando oficialmente das pistas da F1. Após algumas temporadas no fundo do pelotão, e com uma crise financeira global acontecendo, os japoneses julgaram ser melhor vender a equipe do que continuar passando vergonha em transmissões via satélite.

httpv://youtu.be/f5oDu6nSgBg

Ross Brawn e Nick Fry, líderes da equipe, passaram os meses de dezembro e janeiro buscando um eventual comprador para os espólios do time. Após idas e vindas de supostos compradores (inclusive um bilionário mexicano), a Honda percebeu que deixar a equipe simplesmente morrer não seria um bom negócio à sua imagem, e um acordo foi costurado: Brawn compraria a equipe por um valor simbólico e a Honda lhe daria o dinheiro para sobreviver por uma temporada. Faltavam apenas 3 semanas para a estreia da temporada quando o Brawn GP 001 andou pela primeira vez, e apesar de ter um chassi remendado para receber o novo motor Mercedes, o resultado foi assombroso: a aplicação do difusor duplo trouxe mais de meio segundo de vantagem em relação à concorrência!

O resto da história todos já sabem: entre acusações, recursos, apelações e julgamentos, os difusores duplos foram declarados em conformidade com o regulamento, e as equipes que não tinham tal dispositivo tiveram de adaptar seus carros enquanto Button e a Brawn venciam 6 corridas seguidas e praticamente garantiram o título mundial.

A grande questão é: como uma peça aparentemente simples pode ter tornado uma cadeira elétrica em um campeão mundial do dia pra noite?

Para entendermos, precisamos lembrar alguns conceitos básicos de aerodinâmica, bem como o funcionamento do difusor.

O diagrama abaixo mostra o fluxo de ar que passa através de um apêndice aerodinâmico qualquer. Ao encontrar peça, o fluxo é dividido e passa tanto por cima quanto por baixo da mesma. Devido à geometria da peça, o ar que passa acima perde velocidade, aumentando a pressão do ar na região. Por outro lado, também devido à geometria da peça, o ar que passa por baixo é acelerado, causando uma queda de pressão na região. Assim, havendo uma diferença de pressão entre a parte superior e a parte inferior da peça, ela é empurrada para baixo pela região de mais alta pressão, gerando o efeito conhecido como downforce.

Na prática, quanto mais downforce existir, maior será a aderência do veículo em relação ao solo, o que permite atacar as curvas em velocidades maiores.

Em um carro de corrida, o difusor fica localizado região posterior do chassi, entre as duas rodas traseiras e abaixo da asa traseira. Sua função primária é fazer acelerar o fluxo de ar abaixo do carro. Com isso, é criada uma zona de baixa pressão sob o veículo, aumentando por consequência o downforce aerodinâmico. De maneira mais simples, o difusor atua “expulsando” o ar de debaixo do veículo, fazendo com que este seja sugado em direção ao solo, aumentando sua aderência com a pista.

E qual a vantagem trazida pelos difusores duplos ou “double deck” utilizados pela Brawn e outras equipes em 2009? Simplesmente, os difusores duplos permitiam um maior volume de ar a ser admitido do que os difusores simples, aumentando, portanto, a quantidade de ar a ser expulso de baixo do veículo e aumentando os níveis de downforce. E isto só foi possível devido a uma interpretação inteligente do regulamento por parte da Brawn, Williams e Toyota.

Ao se valer de uma regra ambígua que permitia a existência de mais de uma superfície na área dos difusores, estas equipes passaram a utilizar os difusores duplos enquanto as outras continuraram usando o difusor simples. Desta forma, o difusor inferior possuía as dimensões mandatórias em regulamento, enquanto que um segundo canal de passagem do ar foi criado sobre o difusor inferior, aumentando significativamente o volume de ar a ser acelerado, aumentando assim o downforce gerado pelo sistema.

11 thoughts on “O difusor da discórdia

  1. Pra mim, o Rubens perdeu o título quando perdeu a pole pro GP da Austrália. A cabeça dele enfraqueceu ali.

  2. Colegas do Gepeto

    Barrichelo é um excelente piloto, tanto que demonstrou isso em todas as categorias menores pela qual passou, mas na F1 a guerra é maior e só se consagram quem tem sangue nos olhos.
    O ano de 2009 veio para comprovar que nosso brasileiro não foi prejudicado na Ferrari e sim tem sérias limitações de competir pesado para ganhar um título, ainda mais dentro da mesma equipe.
    Vejo o piloto semelhante a Berger, Fisichela, Patrese, Alboreto e Cevert, ou seja, um bom escudeiro que prefere viver na sua zona de conforto a se expor a agressividade de uma guerra para o título.
    Claro que se o brasileiro tivesse começado melhor a temporada talvez tivesse uma chance melhor, mas penso que o campeonato foi decidido em detalhes que não se discutem como o acidente de Vettel e Kubica na Austrália e a imaturidade deste alemãzinho futuro tetra campeão, pois com um foco maior até o último GP talvez este teria sido o primeiro de uma série de títulos.

    Boa semana a todos!

  3. Excelente coluna Cassio!

    A respeito do Barrichello em 2009, não duvido e nem discordo que ele tenha penado um pouco com o sistema de freios, mas, na boa, Ross Brawn não iria deixar um inglês perder o título, iria!?

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

    1. Concordo contigo Mauro,
      Ross já estava acostumado a ferrar com o Barrichello desde os tempos de Ferrari, já sabia como. Cabia ao brasileirinho aprender também a se defender, o que não fez.
      Ele só teve carro em condições de brigar quando a Brawn já não dominava e precisava dele para tirar pontos dos adversários do Button na briga pelo título. Milagrosamente ele conseguiu se adaptar ao sistema de freio que o inglês já utilizava desde o início do ano.
      “Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay …”

    2. Creio que a escolha tenha sido mais motivada pela necessidade de encontrar um futuro para a equipe do que pela nacionalidade do piloto. A Brawn começou a temporada com um orçamento muito limitado e perspectiva zero para o ano seguinte. Precisava apostar as fichas em um dos dois pilotos, e apostou naquele que iniciou melhor a temporada.

      Abraço

      1. A temporada de 2009 quando começou ninguém em sã consciência seria capaz de dizer que Brawn poderia ganhar corridas ou um campeonato … ainda mais ela sendo uma espécie de espólio da Honda que como equipe só comeu poeira na Formula 1 … os favoritos continuavam a ser a Ferrari e Mclaren que duelaram pelo campeonato em 2007 e 2008.
        Como ela venceu com folgas a primeira corrida, ficou claro desde já, que ela por incrível que pareça estava alguns degraus acima dos concorrentes.
        E aí eu pensei. Todos pensaram com certeza … de repente dá pro Rubinho ganhar o titulo que ele não ganhou na Ferrari. Tem carro vencedor e não é mais um piloto !B … E o que aconteceu? Nem vice ele foi.
        Quais foram os motivos e razões? … Sei lá … Que o Rubinho é um excelente piloto todos sabem que ele é … mas ele deixou seus fãs na saudade … a mim com certeza

        Fernando Marques…

        1. Já eu não acreditava na possibilidade do Barrichello ganhar o título. Desde a época da Honda, o Button sempre conseguiu resultados melhores que o brasileiro. Com um carro bom como o da Brawn não havia por que ser diferente.E, de fato, não foi.

  4. Realmente, se alguém tinha alguma duvida sobre isto, você resolveu. Quanto ao Rubens, a desculpa oficial foi o sistema de freios, com o qual ele se dava pior do que o colega britânico. Quando mudaram o sistema do carro dele, passou a obter melhores resultados. Penso que deve fazer sentido, sim. Salvo engano, quando ele mudou para a Honda, reclamou do sistema de freios, menos eficiente que o que ele usava na Ferrari. Como desde aquela época as diferenças de tempo são muito pequenas… o diabo mora nos detalhes, não é mesmo?

  5. Cassio,

    se ainda existe alguém que não entenda a função dos difusores é só ler a sua coluna.
    Eu penso que a temporada de 2009, mais que as mudanças do regulamento, me chamou a atenção em dois detalhes: nunca os carros da Formula 1 foram tão feios e quando pensei que o Rubinho poderia finalmente brigar de verdade por um titulo fiquei na saudade.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

    1. Olá Fernando, obrigado pelo retorno;

      Realmente, a mudança de regulamento aerodinâmico de 2009 deixou os carros com aspecto muito estranho (que perdura até hoje). A falta de proporcionalidade entre a asa dianteira e a traseira é uma aberração estética. E foram alterações em vão, já que a perseguição por mais ultrapassagens continuou até apelarem com o DRS.

      Abraço

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