O bicampeão subestimado, parte 2

Logo em sua estreia na F1, no GP dos EUA de 1991 com o raquítico Lotus-Judd 102B, Mika Häkkinen consegue um desempenho excepcional: décimo terceiro no Grid, enquanto seu companheiro de equipe, Julian Bayley sequer se qualifica para a corrida. Durante a corrida, teve uma rodada em plena reta, após ver o volante do seu carro se soltar em suas mãos. Conseguiu voltar e, enquanto se recuperava, marcou a décima terceira melhor volta da prova, até abandonar com problemas no motor.

Duas corridas depois, no problemático GP de San Marino, sob chuva, conseguiu seus primeiros pontos na F1, com um ótimo quinto lugar. O começo de ano animador não seguiria pelo resto da temporada. A fragilidade dos Lotus ficava exposta a cada corrida o que, de certa forma, realçava o quinto lugar de Imola, seus únicos pontos no ano. A seu favor teria o fato de ter conseguido terminar mais de um terço das corridas e de superar seus companheiros de equipe – Bayley ainda seria trocado por Johnny Herbert, que alternou o assento com Michael Bartels.

Enquanto era cotado ao posto de revelação do ano, Mika mais uma vez teve seu caminho atravessado pelo alemão Michael Schumacher, que chegou como um furacão no GP da Bélgica pela Jordan, e terminou o ano na Benetton, marcando 4 pontos nas últimas 4 corridas.

Em 1992, ainda pela Lotus, conseguiu elevar ainda mais sua cotação no seio técnico da F1. A Lotus introduziu nessa temporada o chassi 107 que foi uma das gratas surpresas do ano. Com um simples, mas efetivo sistema de suspensão ativa e o motor Ford HB V8, o Lotus de 1992 se destacava pela estabilidade em curvas de alta e média velocidade, justamente o ponto forte de Mika. Marcando 11 pontos, Häkkinen acabou conquistando o oitavo lugar na tabela final do campeonato, fazendo uma temporada segura e consistente, principalmente se compararmos os seus resultados finais com o companheiro Johnny Herbert, que terminou a temporada com apenas 2 pontos.

Suas grandes corridas foram o GP da Hungria onde disputou posições com pilotos de ponta que dispunham de carros muito superiores, como Berger e Brundle (fazendo uma bela ultrapassagem sobre esse por fora) e o GP do Japão, onde abandonou perto do final quando ocupava a terceira colocação. Sua cotação subiu como uma flecha durante essa temporada e ainda em 1992 Häkkinen foi disputado por Williams, Ligier e McLaren, acabando na última, como piloto de testes para a temporada de 1993, já que Michael Andretti seria o piloto titular e Ayrton Senna decidiu ficar mais uma temporada na equipe.

Vendo os fatos pela ótica atual e sabendo como foi a temporada de 1993, é realmente intrigante pensar o que Häkkinen teria feito naquele ano caso tivesse ido para a Williams, ao lado de Prost. Se considerarmos todos os problemas que Prost teve naquele ano e que no final da temporada Hill já estava a andar no mesmo ritmo (às vezes mais rápido), não é difícil imaginar que Häkkinen teria uma grande chance de se impor contra o Professor desde o começo da temporada. Infelizmente é algo que nunca iremos saber ao certo.

Em 1993, como piloto de testes da McLaren, Häkkinen pôde observar de fora a desastrosa participação de Michael Andretti até sua saída da equipe, após o GP da Itália. O finlandês fez a sua estréia no time no GP de Portugal. E que estréia: bateu Senna nos treinos de qualificação na disputa pela terceira posição. De se notar que tal fato só poderia mesmo ter acontecido em uma pista como Estoril, que destaca todas as qualidades de Häkkinen como piloto: linhas perfeitas em curvas de média e alta velocidade. Na corrida, disputou a liderança com Senna e Alesi de forma aguerrida até exagerar (após vários outros exageros) na saída da perigosa Parabólica e acertar violentamente o guard-rail.

httpv://www.youtube.com/watch?v=g8aGub_2QyQ

No GP seguinte, no Japão, conseguiu seu primeiro pódio na F1, com um terceiro lugar (após dar luta a Senna mais uma vez durante os treinos). Outro destaque de Häkkinen em 1993 foi a dupla vitória na Porsche Supercup nas preliminares do GP de Mônaco e da Hungria, em ambas saindo na pole position em um carro que nunca havia pilotado.

Seu desempenho no final de 1993 deu a Ron Dennis a confiança necessária para depositar em Mika a difícil tarefa de liderar a McLaren após a saída de Senna para a Williams.

Sua fase seguinte, entre 1994 e o final de 1995, consistiu em uma das mais difíceis de sua carreira. Enquanto conquistava cada vez mais o respeito dos companheiros de profissão e profissionais da imprensa especializada com sua cada vez maior velocidade, não conseguia as vitórias esperadas. Além disso, sua agressividade na pista começava a ultrapassar os limites do bom senso, como no episódio da largada do GP da Alemanha de 1994, onde um posicionamento totalmente inadequado para a primeira curva provocou um strike de grandes proporções.

httpv://www.youtube.com/watch?v=yjAZjspLB8I

Suas qualidades como piloto de teste e suas capacidades como acertador de carro também eram colocadas em dúvida, tendo em vista a lenta evolução da McLaren nas duas temporadas. Porém, independente dos problemas e da falta de vitórias, continuava acumulando uma sequência impressionante de pódios (especialmente terceiros lugares) e pontuações em geral. Continuava atropelando em performance e resultados seus companheiros de equipe Martin Brundle, Nigel Mansell e Mark Blundell. E em pequenos momentos, quando o equipamento permitia, nos mostrava vislumbres do que viria a seguir, como nos treinos para o GP de Mônaco de 1994 (único piloto no mesmo segundo de Schumacher), a sequência de pódios no final de 1994 ou o melhor tempo nos primeiros treinos para o GP de Portugal de 1995 (conquistados com pouco combustível, mas ainda impressionante vide a estreia da versão C do ainda problemático chassi MP4/10). Liderar uma equipe como a McLaren em um momento transitório, com 3 diferentes motores em 3 anos (Ford em 1993, Peugeot em 1994 e Mercedes em 1995) e ainda com pouca experiência na F1 não o ajudou, mas com certeza o fortaleceu para o que viria a seguir.

Nos treinos para o GP da Austrália, o último de 1995 (logo após uma excelente segunda colocação no GP do Japão), Häkkinen teve um acidente terrível: perdeu o controle de sua McLaren (devido ao furo do pneu traseiro esquerdo) e acabou batendo violentamente de frente na proteção de pneus. Häkkinen foi retirado inconsciente do carro e sua situação inicial era desesperadora. Com fraturas na arcada dentária, na base do crânio e sangramento interno, nos primeiros momentos se pensou o pior. Häkkinen ficou em coma induzido e teve uma melhora gradual com o passar dos dias. O doutor Sid Watkins recorda que as primeiras palavras de Mika após o acidente foram: “O erro foi meu?”

httpv://www.youtube.com/watch?v=F1gqpQBkDuU

Sua recuperação foi incrível. Se dedicou de forma contínua e persistente a sessões de fisioterapia, exercícios de coordenação motora e acompanhamento psicológico. Mika, para surpresa de todos, estava pronto para entrar no carro na primeira prova da temporada seguinte. Sem maiores dramas ou estardalhaço, lá estava ele na mesma Austrália, onde quase havia perdido a vida no final da temporada anterior. Dessa vez em Melbourne, ao invés de Adelaide, Mika marcou o quinto tempo nos treinos (atrás apenas de Williams e Ferrari, na frente dos dois Benetton-Renault e também do seu novo companheiro, David Coulthard), terminando a prova na mesma posição em uma problemática McLaren.

Por incrível que pareça, o acidente proporcionou a Mika Häkkinen uma nova serenidade e paciência, nunca alcançados em sua fase anterior. Ao mesmo tempo, em situações delicadas de decisão, sua confiança parecia titubear mais do que antes, o que é algo até natural para quem passou por uma provação tão extrema. Na verdade, o amadurecimento de Häkkinen se deu à força e foi causado pelo seu forte e traumático acidente. Muitos se perguntam como seria o Häkkinen em seus anos dourados de 98/99/00, caso não tivesse sofrido um trauma tão brutal.

Essa nova fase também representaria a primeira vez que Häkkinen teria um companheiro de equipe a sua altura em termos de desempenho (com exceção, é claro de Senna nas 3 últimas provas de 1993 e, de certa forma, Herbert em 1992). O também jovem David Coulthard tinha fome de vitórias e títulos tanto quanto Mika. Apesar da maior igualdade, era sempre Häkkinen quem conseguia um maior avanço na pista, extraindo o máximo de sua MP4/11 após qualquer tipo de melhora no equipamento, ao passo que Coulthard parecia lidar melhor com momentos complicados da equipe, tanto no que diz respeito à performance em pista quanto no campo fora dela. Essa máxima continuou a dominar a equipe McLaren por todas temporadas em que ambos estiveram juntos, entre 1996 e 2001.

Apesar de ter começado a temporada de 1996 com duas finalizações nos pontos, a McLaren (e especialmente Mika) teve uma fase difícil no campeonato. A partir do GP da Grã-Bretanha, onde conquistou um ótimo terceiro lugar, sua performance melhorou, conquistando por mais 3 vezes a terceira posição e chegando a liderar o GP da Bélgica.

Indo para o terceiro de uma parceria estável e evolutiva com a Mercedes, a McLaren prometia muito para 1997. Com um projeto totalmente novo, o MP4/12, uma nova versão do motor Mercedes V10 e a chegada do mago Adrian Newey (apesar da justiça inglesa só ter permitido que o ex-projetista da Williams começasse a trabalhar para sua nova equipe no começo de Agosto), para ajudar o veterano Neil Oatley no desenvolvimento do carro, a McLaren (agora com um livery completamente diferente, com o patrocínio principal da West e as cores prateadas) sabia que tinha um projeto ganhador em mãos.

Apesar de ter existido uma colaboração mútua entre Häkkinen e Coulthard no desenvolvimento do carro, era sabido que em algum momento (principalmente quando o time começasse a ganhar) um dos dois pilotos tomaria uma posição de liderança dentro do seio da equipe. Tal liderança poderia ser conquistada de várias formas, desde atitudes no dia a dia com os engenheiros da equipe, influência política, mas principalmente com o cronômetro, mostrando quem seria o mais veloz dentro da pista. Teoricamente, por tudo que mostrou em sua carreira ou mesmo pelo confronto direto com Coulthard em 1996, Häkkinen deveria estar tranquilo nesse sentido, mas nem sempre as coisas são tão simples como imaginamos…

Na próxima, e última parte do texto, descobriremos como Häkkinen emergiu de problemas, quebras e azares infindáveis em 1997, para o sensacional bicampeonato de 1998/1999.

Até a próxima!

3 thoughts on “O bicampeão subestimado, parte 2

  1. Um piloto que sofre um acidente e que sai bastante machucado, correndo sério risco de vida e consegue dar a volta por cima é algo que merece destaque .
    Com suas devidas proporções penso ser uma situação semelhante ao de Niki Lauda.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  2. Slayer, os textos estão fantásticos, Parabéns!!

    Que venha logo a terceira e última parte.

    Abraço!!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *