Castelo de areia

Poderia ter sido uma linda história e, o que se teve oportunidade de viver, de fato, o foi. O início cheio de desafios, as descobertas, o destemor de lutar contra todos os obstáculos. Depois, as conquistas se materializando, o reconhecimento público, o orgulho de olhar para trás e vislumbrar sua obra, como se fosse um castelo meticulosamente planejado e erguido com engenho e suor. Pareciam feitos um para o outro.

Alonso e a Fórmula 1.

Passaram-se doze anos entre a primeira vitória, na Hungria, e a situação vexatória que o bicampeão enfrenta com sua McLaren paquidérmica neste 2015. Em 2005, com o primeiro título, Fernando Alonso parecia inaugurar uma nova era na categoria. Após cinco anos de um domínio acachapante promovido pela dupla Schumacher-Ferrari, o espanhol surgia como o principal candidato a suceder o alemão.

Era lícito especular, naquele momento, se o próximo a dominar a cena da Fórmula 1 nos anos seguintes seria o espanhol ou o finlandês Kimi Raikkonen, os dois postulantes ao título daquele ano. Alonso largou na frente, nessa disputa particular, e parecia pulverizar a concorrência no ano seguinte, quando chegaria ao bicampeonato duelando não mais com Raikkonen, mas com o veterano Schumacher, em seu último suspiro de competitividade na categoria.

Nada faria supor que a nascente “era Alonso” fosse mero voo de galinha. A paella começou a azedar no ano seguinte, quando parecia ainda mais evidente que o espanhol consolidaria sua supremacia, agora a bordo da McLaren. A incompatibilidade de gênios arreganhou seus dentes, oferecendo sinais de que Alonso e a Fórmula 1 talvez não fosse um amor para sempre, mas uma paixão adolescente extemporânea.

O gênio, amigos, o gênio.

Depois de quinze temporadas na Fórmula 1, dificilmente alguém apontaria Alonso como um piloto ruim ou medíocre. É da cepa dos excelentes. Rápido, arrojado, inteligente. Alonso perdeu-se mesmo pelo temperamento. Macho alfa paradoxal, faz o que quer e exibe orgulho em se postar como rebelde em situações prosaicas. Quem não se lembra da queixa pública contra os motores Honda neste ano, chamando-os de “motores de GP2”? Ao mesmo tempo, precisa desesperadamente de guarida. Não se sente confortável se não tiver autêntica entourage a protegê-lo.

Não que a Fórmula 1 seja flor de candura. Impõe suas regras, pouco ou nada flexibiliza diante de descontentamentos ou apelos. É figura apaixonante, tanto quanto inatingível. Gosta de deixar clara sua independência, como se esfregasse na cara de quem dela se aproxima a certeza de que vai sobreviver à sua ausência. Sobreviveu ao fim de tantas eras – Fangio, Clark-Lotus, motores turbo, Senna, Senna x Prost, Williams-Renault, Schumacher.

Os últimos anos, com quatro títulos de Vettel e três de Hamilton, escaparam dos dedos de Alonso por sua evidente dificuldade em lidar com frustrações. Insurgiu-se contra Ron Dennis na primeira passagem pela McLaren por não se conformar em ter o espaço dividido com Hamilton. E, fala sério, Alonso… Ressentir-se contra Lewis naquele momento era o mesmo que arranjar treta com um adolescente. Faltou-lhe a capacidade de achegar-se ao garoto, ganhar sua simpatia, mostrar que poderia ser um tutor na nascente carreira.

Na Ferrari, foram cinco anos de um casamento que parecia impossível de falhar. De novo, o temperamento. A necessidade quase doentia de ter toda a atenção, de fechar a cara quando não se sentia atendido em 100% de suas necessidades ou manias. Parecia improvável, mas o macho alfa experiente continuava sendo um sonhador imaturo, idealizando a própria vida como se ela fosse página de romance, e não lambada no relho. Saiu com jeito de quem não era mais suportado por ninguém, deixando alívio com sua ausência.

Enquanto isso, Vettel e Hamilton foram construindo suas próprias eras de domínio. A supremacia da Mercedes nestes dois últimos anos e a permanência do regulamento técnico para 2016, com poucas mudanças, fazem supor que não deve haver grandes alterações no cenário da Fórmula 1 para a próxima temporada.

Não é fantasioso projetar um quarto título para Hamilton no ano que vem. Pode parecer delírio imaginar Lewis e Sebastian na mesma equipe vencedora em 2017, em um tira teima extraordinário pelo quinto título. Mas pareceria um delírio ainda maior, há dez anos, imaginar que a Fórmula 1 veria nascer uma nova era pós-Schumacher e que Alonso não estaria entre os candidatos a essa vaga.

Sentado na beira da pista, tomando sol durante a classificação para o GP do Brasil, ou subindo ao pódio com o companheiro Button, “brincando” de vencer o GP do Brasil, Alonso jogou a toalha. Se lesse essas mal traçadas linhas, talvez risse da minha empáfia. Talvez a honra e a glória que enxergávamos nos grandes campeões do passado hoje seja um capricho pálido. Especula-se que o espanhol fature 35 milhões de euros por ano na McLaren. Bem pago para fazer papel de palhaço, convenhamos.

A Fórmula 1 esperava mais de Alonso, mas ele certamente tem motivos para pensar que poderia ter recebido mais do que ela foi capaz de lhe oferecer. A diferença entre essa relação à beira do adeus e as outras, de mortais como nós, está na notoriedade e, sobretudo, nas cifras. É bem mais reconfortante bater a porta sem olhar para trás quando se tem um bolso tão recheado quanto o do espanhol. Não foi tempo perdido, claro. Não é qualquer um que conquista dois títulos mundiais na categoria. Mas é indisfarçável a frustração. O castelo não era miragem, mas era de areia.

4 thoughts on “Castelo de areia

  1. Eu diria que a “paixão de adolescente” de Alonso acabou naquele fim de semana de Monza 2006, após receber aquela punição absurda por, supostamente, ter “bloqueado” Felipe Massa na pista durante a volta rápida do brasileiro.

    Alonso reagiu muito mal a esse episódio, a ponto de declarar à imprensa que, à partir daquele momento, não consideraria mais a Fórmula 1 um esporte. E foi a partir daí que ele se tornou um piloto genioso e “vingativo”, passou a jogar pesado e nunca mais deixou ninguém lhe “pisar”. Se pudesse “tirar vantagem” de alguma brecha, ele não pensaria duas vezes em fazê-lo!

    Coincidência ou não, Alonso não mais conseguiu ganhar nenhum campeonato após adotar essa nova postura tomada a partir dessa punição – sem falar do episódio banimento dos amortecedores de massa da Renault em plena temporada, que também deve ter contribuído para que não visse mais a Fórmula 1 como um esporte. Tudo leva a crer que, enquanto o espanhol não “fizer as pazes” com a categoria, vai ser aposentar com “apenas” dois títulos mundiais na carreira – lembrando que o terceiro título sempre foi sua “meta pessoal”.

  2. Quem está vendo miragem são os autores desse novo regulamento, que resulta em audiências cada vez menores. Provas como a do Brasil deste ano são eficiente remédio para insónia. Tudo somado, injusto com um passado recheado de pilotos do calibre de Alonso e circuitos com a qualidade de Interlagos.

  3. Belo Texto Alessandra.

    Infelizmente com está F1 tão pífia, temos que ver dois campeões mundiais fazendo papel de bobo ao subirem no pódio do GP Brasil após serem eliminados do Q1.

    Fosse outro o regulamento, e teríamos uma turma maneira lutando pelo título.

    Mas, os tempos são outros, e talvez o castelo de areia atual, também seja para está F1 medíocre que temos no momento.

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-Pr

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