Outsiders

Há muitos anos, quando ainda trabalhava com assessoria de imprensa, recebi uma missão que exerci com o desejo de nunca mais fazer nada parecido. Chama-se “casting”, ou seja, a escolha de uma equipe (ou elenco) para algum tipo de produção. No meu caso, eu deveria escolher quatro grid girls para ficar ao lado de um carro patrocinado por uma empresa para quem eu trabalhava, durante uma prova de Stock Car.

Eu nunca tinha feito isso, mas não foi difícil descobrir a dinâmica. Bastou contatar uma agência de modelos, que me foi indicada por uma conhecida, marcar uma data e lá fui eu, escolher peças naquela espécie de mercado humano. Uma moça muito articulada e simpática me atendeu e se sentou ao meu lado em um mini auditório, que tinha um mini palco à frente.

Algumas mães acompanhavam as garotas e se sentaram próximas a nós. Antes do “desfile” começar, a moça da agência dirigiu-se a todas, explicando do que se tratava aquela produção (ou job, como se fala nesse meio). “Quatro de vocês serão escolhidas para segurar um guarda-sol na próxima corrida de Stock Car. Em resumo, vocês podem ser as novas Adriane Galisteu”, comparou, lembrando o início de carreira da modelo e apresentadora, tornada célebre pelo namoro com Ayrton Senna.

Ao comando dela, as modelos entravam, uma a uma, e ela ia fazendo observações para mim, sem a preocupação de falar em um tom que elas ou suas mães não pudessem ouvir: “Essa é linda. Loira sempre tem que ter”; “Essa morena é maravilhosa, mas não para o que você quer. Ela funciona mais para foto, porque não é muito alta e tem as pernas curtas. Você precisa de pernas”.

E foi tecendo comentários sobre outras partes do corpo de cada modelo – pernas, coxas, peitos, cabelos – cada vez mais reforçando em mim a ideia de que eu estava em uma espécie de abatedouro humano. Em determinado momento, entrou no palco uma modelo negra. A moça da agência se ouriçou toda: “Ah, uma negra! Negra é bem bacana colocar, sabe? Você deveria considerar. Dá uma miscigenada, pega bem, e essa é linda, né?”

Esse episódio aconteceu há mais de quinze anos e, honestamente, não me lembro como era o visual das moças que eu selecionei, nem se escolhi a negra, a pernalta ou a loira básica. Lembro mais da minha sensação naquele dia: uma mistura de tédio, pelo tempo que a coisa toda me tomou, com espanto, por me ver inserida em um contexto em que vários seres humanos eram avaliados pelas suas partes.

Mas ficou claro o papel da mulher negra naquele contexto: transmitir a imagem de que a empresa que a contratasse era “cool”, inclusiva, despida de preconceitos. Esse tipo de postura se reforçou com o tempo, tanto no ambiente de eventos quanto em outras esferas do mundo corporativo, o que não reflete necessariamente um amadurecimento da sociedade em relação ao racismo.

Acolher o negro em um ambiente tradicionalmente hostil à diversidade pode ser a tentativa de transmitir essa mensagem, que será recebida de forma positiva por alguns, indiferente por outros, negativa por outra parcela, que pode ou não se manifestar. Mas, justamente por ser uma quebra de paradigma, a ideia nasce com a difícil missão de se sustentar. Não seria tradicional incluir um negro em um ambiente dominado por brancos. Por isso mesmo, o negro que se inclui nesse contexto vai precisar cumprir estritamente o papel para o qual foi escalado. Um deslize desse modelo, e a rejeição mostra suas garras.

Lewis Hamilton, o primeiro piloto negro a: correr na Fórmula 1, vencer uma corrida na categoria, ser campeão. Sua estreia, em 2007, foi a consolidação de um projeto iniciado na adolescência, quando recebeu o apoio da McLaren, ainda no kart. Logo nos primeiros anos da carreira, demonstrou algumas das características que o notabilizaram: muito rápido e arrojado, um tanto afobado, ganhava corridas, mas também causava acidentes. Foi trilhando o plano traçado pela McLaren, vigiado sempre de perto pelo pai, que também fazia as vezes de empresário.

Ao chegar à Fórmula 1, exibia a postura de primeiro aluno da classe. Certinho, ereto, enquadrado. Uma breve observação do visual de Hamilton nos últimos anos revela sua transmutação. O cabelo comportado foi ganhando cortes e cores. Surgiram brincos, muitas tatuagens. Fora da pista, passou a alternar ternos alinhados com um visual francamente inspirado no universo rapper. Namorou mulheres famosas, mantendo durante alguns anos uma relação de vaivém com a cantora Nicole Scherzinger, passou férias com Rihanna e não faz questão de esconder a fama de passar o rodo geral nas baladas pós-corrida.

Bernie Ecclestone adora Hamilton. Chegou a dizer que a Fórmula 1 precisaria de mais gente como ele. Em uma comparação com o tetracampeão Sebastian Vettel, o chefão da Fórmula 1 chegou a dizer que Hamilton dava de dez. Não comparou o talento nas pistas, nem se valeu do fato de que Lewis, hoje, é o terceiro maior vencedor de corridas da história. Lembrou, apenas, o fato de que Hamilton sabe “causar”: os namoros, os carros, a cor do cabelo, tudo em Lewis vira notícia, e notícia carrega a marca da Fórmula 1 mundo afora. Para Bernie, Vettel e sua vidinha pacata (teve a segunda filha neste ano, sem que praticamente ninguém soubesse que sua namorada fantasma estivesse grávida novamente) não ajuda a imagem da Fórmula 1.

Depois de garantir o tricampeonato, Hamilton despirocou. Foi para a noite monegasca, entusiasmou-se na volta, estampou o muro do principado com sua Ferrari de muitos milhões. O negro bacana, que deu à Fórmula 1 o salvo-conduto da inclusão e da diversidade, está se achando. Está escapando do modelo a ele concedido.

Na ânsia de chamar a atenção, ou só para marcar posição mesmo, o ex-piloto Jacques Villeneuve, campeão de 1997, disparou contra Hamilton. Em entrevista à mídia alemã Motosport Magazin, Villeneuve opinou que o britânico não se comportou como alguém que alcançou o topo do esporte a motor depois de garantir a conquista no GP dos EUA. Chamou o comportamento de Hamilton de infantil, especialmente no relacionamento com o companheiro Nico Rosberg. Talvez o puxão de orelhas de Villeneuve tenha uma base de orientação e conselho, mas parece mais incômodo com a postura outsider que Hamilton, afinal, hoje pode ostentar.

O britânico não está sozinho nessa posição. Qualquer atleta ou artista negro que alcance uma posição de destaque e fique muito rico, como é seu caso, sempre tem suas atitudes potencialmente mais contestadas. A transgressão ao modelo que se espera de um negro é um crime. A ostentação – mera compensação por uma vida enfrentando preconceitos diretos ou velados – um pecado mortal.

Para uma parcela da audiência, a presença de Hamilton era uma concessão em um clube de elite, uma forma de mostrar como evoluímos em nossa civilidade. Não era para esfregar na nossa cara que, afinal, ele não é só uma peça decorativa no agora pluralista ambiente da Fórmula 1. Tarde demais. Como resumiu a cantora Pitty, pelo Twitter: a mulher não volta para a cozinha, o gay não volta para o armário, o negro não volta para a senzala. Acostume-se a isso.

Espero que todos tenham um excelente final de ano. Até 2016!

2 thoughts on “Outsiders

  1. Alessandra,

    os esportistas em geral quando atinge o seu ápice, hoje em dia adoram aparecer para as mídias, pois isso se reflete em grana no seu bolso vindo de patrocinadores pessoais.
    Cada um faz isso da sua forma. Senna fazia de seu modo. Hamilton faz da sua. O que importa é estar nas mídias, mesmo quando não está competindo. O negócio é sempre ser noticia.
    Eu não me importo, vou mais pelo pensamento do Mauro Santana. No caso da Formula 1, me interessa mais o que os caras fazem dentro das pistas. No futebol a mesma coisa. Romário sempre foi das noitadas mas sempre fazia bem a sua parte dentro de campo.
    Só que confesso que os estilos de cada um de ser dos pilotos da Formula 1 hoje em dia, são meios que falsos pois existe o “politicamente correto” na história.
    Original foi o James Hunt que fumava e bebia antes e depois das corridas, foi o garagista Nelson Piquet que nunca deu bola para mídia e nunca se permitiu a ser alvo de sensacionalismo ou fofocas na imprensa … o Hamilton para mim não tem nada de originalidade neste sentido …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  2. Bela coluna Alessandra!

    Eu como apaixonado que sou pela F1, pouco me interessa o que os pilotos fazem fora da pista, e o quanto de “manchetes” para a categoria isso irá causar.

    Eu quero que a F1 seja notícia pelas grandes corridas e batalhas incríveis dentro da pista, e não na vida particular de cada piloto.

    Pena que pra velha Raposa, o que interessa é justamente o contrário.

    Feliz 2016 a você Alessandra e toda sua família.

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

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