2015, o ano que não terminou

Olá, leitores do GPtotal! Faz um bocado de tempo que não escrevo por aqui, não é mesmo? A última coluna de MotoGP do ano passado ficou a cargo do meu amicíssimo Márcio Madeira, o que foi benéfico, tanto para mim (envolvido nas notícias dessa que foi uma  das decisões de título mais polêmicas da história) quanto para vocês que ganharam um dos textos mais brilhantes sobre o tema.

Em 1989, o escritor e jornalista brasileiro Zuenir Ventura lançou o livro “1968, O Ano Que Não Terminou”, na qual contava os acontecimentos daquela época marcada por um forte sentimento de revolta contra o status quo, tanto no Brasil como no exterior.  De certa forma, a mesma analogia pode ser encarada sobre a temporada 2015 de MotoGP. Os eventos do Grande Prêmio da Malásia e de Valência já podem ser definidos como um ponto de virada na história.

Lembram-se das primeiras colunas de MotoGP que escrevi no ano passado? Elas contavam sobre as espetaculares vitórias de Valentino Rossi nas duas primeiras corridas do ano, no Catar e na Argentina. A segunda, em Termas de Rio Hondo teve como clímax um acidente com Marc Márquez na penúltima volta da corrida, em um dos thrillers mais eletrizantes que já vi no esporte a motor.

Mas coluna que escrevi sobre aquela corrida agora parece um desenho da Disney enquanto que os eventos do final do ano tiveram uma atmosfera ainda mais carregada, como um filme de Quentin Tarantino. Mal sabíamos na época que um profundo ódio entre Rossi e Márquez estava nascendo e ainda receberia pitadas extras de amargura por parte de Jorge Lorenzo, este sim um inimigo declarado do italiano.

Como escrevi em outras oportunidades, o principal ponto de ruptura nem foi a disputa em si – já houve várias ao longo da história, como entre Giacomo Agostini e Mike Hailwood; Barry Sheene e Kenny Roberts; Wayne Rainey e Kevin Schwantz.  Entretanto, apesar das rivalidades, todos (incluindo seus respectivos fãs) sempre pareceram se respeitar sentimento amaciado pelo clima de descontração que sempre pairou no motociclismo.

O que Rossi e Márquez proporcionaram, no entanto, foi uma verdadeira guerra, com ataques ferozes de ambos os lados que chegou a respingar até nas torcidas dos dois pilotos, até então pacíficas. A situação esquentou a tal ponto que o GP de Valência (que decidiu o título) foi considerado um evento de alto risco na Espanha. Recentemente abriram-se dúvidas se o fã clube de Márquez iria até Mugello, notadamente “a casa” de Rossi, na toscana italiana.

A situação ficou ainda pior porque Valência foi a última etapa do ano e todos tiveram um inverno inteiro de ócio para pensar no  que  aconteceu.  Nem mesmo o campeão Lorenzo escapou. Nas redes sociais o espanhol recebeu uma verdadeira chuva de críticas respondendo, às vezes com bom humor – às vezes não – insistentes provocações.

Passado o inverno, chegou a hora de se preocupar com a temporada 2016. O clima, contudo continua soturno. Durante a apresentação da equipe Yamaha, na sede da Movistar em plena Espanha, um sério Valentino Rossi não quis saber de apaziguar a situação. Pelo contrário, não retirou nenhuma vírgula de sua posição, afirmando que faria tudo novamente.

Márquez também não está à vontade. Ele agora se vê na incômoda posição de vilão do momento, já que pelo menos metade da audiência ainda não acredita quando afirma (sempre que pode) que não prejudicou Rossi de propósito. Esse fogo recebeu ainda mais combustível com declarações de gente importante, como Phil Read (que chamou a Dorna de “máfia”) e – quem diria – de Casey Stoner, que chegou a insinuar que o espanhol não o queria na Honda.

Stoner, inclusive, merece um parágrafo a parte. O já lendário bicampeão continua dando o que falar mesmo afastado das pistas há quatro anos. Nesse meio tempo, rompeu com a Honda e voltou à Ducati, para exercer a função de piloto de testes e embaixador da marca. Mas, está ficando claro que o australiano não veio apenas para fazer figuração. Nas entrelinhas nota-se que seu desejo por disputar novamente freadas com os melhores está falando mais alto.

No dia em que escrevo isso (2 de fevereiro) Stoner está participando dos testes coletivos de Sepang direta e indiretamente, com acesso às mesmas motos e dados que os pilotos titulares, Andrea Iannone e Andrea Dovizioso dispõem. Hoje, inclusive, o australiano esteve na pista e anotou a nona melhor volta, menos de um décimo acima de Iannone e bem à frente de Dovizioso, apenas o 14º. Está ficando óbvio que um dos “Andreas” vai dançar em breve.

Falando em testes, o que nota-se até o momento é que a Yamaha está na frente, com uma Ducati cada vez mais sólida e a Honda ainda bastante perdida no acerto da RC213V. Para quem ainda não sabe, o regulamento técnico mudou bastante em dois pontos cruciais: os pneus (a Bridgestone se retirou para a entrada da Michelin) e a central eletrônica (que agora é padronizada para todos ao contrário de antes, onde cada marca tinha o seu próprio software).

Essas mudanças (entre outras) tem se mostrado mais benéficas à Yamaha, cujo modelo YZR-M1 sempre foi mais suave em termos de ciclística e aceleração. Já a Honda tem como característica uma pilotagem mais “quadrada”, na qual faz valer a enorme potência de seu motor V4. Só que essa brutalidade (que já havia se mostrado excessiva em 2015 quando ainda podia ser controlada pela própria eletrônica da Honda) está ainda mais difícil de acertar no modelo 2016. Tanto que Márquez – um piloto de estilo muito agressivo – tem se queixado bastante do comportamento da moto.

Os mesmos problemas parecem ter a Ducati, que apesar da boa temporada de 2015, ainda não conseguiu vencer uma corrida, o que não acontece desde o Grande Prêmio do Japão de 2010 com… Casey Stoner! O australiano parece ser o único a conseguir se entender completamente com as bestiais Desmosedici.

Mais do que sobre questões técnicas, a temporada 2016 tem tudo para começar com as feridas emocionais de 2015 ainda abertas. Aparentemente adaptado aos pneus Michelin, Lorenzo vai correr para mostrar definitivamente a todos que é o homem do momento, pelo menos na Yamaha. Apesar de ser o campeão reinante e claramente o piloto mais veloz da marca, a sombra (e o carisma) de Rossi continua claramente o incomodando.

Com quase 37 anos de idade, Rossi sabe que não tem mais muito tempo pela frente no Olimpo da velocidade. Ainda assim, o italiano bravamente insiste em disputar freadas com pilotos que eram apenas crianças enquanto vencia seu primeiro mundial. Embora não tenha absolutamente mais nada a provar, o eneacampeão comporta-se como se tivesse, entregando-se ao desafio com afinco obsessivo. Mais do que conquistar o décimo título, Rossi provavelmente quer deixar a MotoGP pela porta da frente e em um clima de festa, e não com a marcha fúnebre que acabou se tornando o encerramento da temporada 2015.

Para Marc Márquez, 2016 será decisivo. Além de aprender a ser campeão com uma moto problemática (o que não conseguiu em 2015), o jovem espanhol terá de trabalhar muito para reconquistar parte do público e se reafirmar como futuro mito das pistas à sua própria maneira. Todos ligados no circuito de Losail em 20 de março, quando começa a primeira batalha!

Até a Próxima!

2 thoughts on “2015, o ano que não terminou

  1. Belo texto Lucas!!!

    Pois é, bem isso, e só espero que estes loucos não se envolvam em algum grave acidente, por causa desta grande rivalidade.

    E eu também acho que o australiano vai tomar o lugar na Ducati de um dos Andrea, resta aguardar.

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

  2. Lucas Carioli,

    a minha expectativa para a temporada da Moto GP em 2016 é a mesma que a sua … o ano de 2015 certamente ainda não acabou.
    Para isso acontecer a meu ver a Honda tem que estar no mesmo patamar da Yamaha … e os testes na Malásia pelo menos demonstram que isso ainda não acontece … e neste caso veremos apenas uma briga entre Lorenzo e Rossi … que não deixa de ser interessante mas que certamente sentirá a falta do Marc Marquez neste bolo …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

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