Cenário apagado

No dia 14 de janeiro, quando a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas anunciou os indicados ao Oscar de 2016, parecia que a rotina se manteria como sempre. Figuras carimbadas como Leonardo DiCaprio e Jennifer Lawrence estavam entre os indicados; obras que haviam alcançado grandes bilheterias em vários países surgiam com poucas indicações, como “Perdido em Marte” ou “Star Wars: O despertar da Força”; uma história sobre o holocausto aparecia entre os favoritos à estatueta de filme em língua estrangeira e por aí afora.

No entanto, uma espécie de contramovimento se estabeleceu na sequência. A ausência de atores negros entre os indicados aos prêmios de atuação (ator, atriz e coadjuvantes) motivou protestos e anúncios de boicote à cerimônia. A atriz Jada Pinkett-Smith e o diretor Spike Lee anunciaram que não estarão na entrega, que acontece em 28 de fevereiro, e o próprio apresentador da cerimônia deste ano, Chris Rock, que é negro, fez piada, via redes sociais, sobre a lista 100% branca de concorrentes.

Não pode ser à toa que a cerimônia de entrega do Oscar tenha se tornado recentemente uma plataforma de discursos de protesto ou pelo menos inclusivos. No ano passado, quando recebeu o prêmio de melhor atriz coadjuvante, Patricia Arquette leu um discurso no qual clamava pela igualdade de salários entre homens e mulheres. A discussão ganhou corpo nos meses seguintes, com manifestações que reforçavam a necessidade de mudança, com a própria Jennifer Lawrence assinando um artigo sobre o tema e sendo, depois, apoiada por colegas como Bradley Cooper.

A razão principal para o Oscar ter se tornado o palco preferencial para esse tipo de manifestação é óbvia: este é um dos programas de maior audiência da TV em todo o mundo. No ano passado, estima-se que 36,6 milhões de espectadores acompanharam a transmissão de mais de três horas e meia. Há dois anos, na cerimônia de 2014, uma selfie tirada pela apresentadora Ellen DeGeneres com alguns dos indicados tornou-se a postagem mais retransmitida daquele ano no Twitter. Causou no Oscar, virou manchete.

O que isso tudo tem a ver com a Fórmula 1?

No início de fevereiro, o piloto dinamarquês Marco Sorensen revelou seu descontentamento por ser preterido pela espanhola Carmen Jordá. Em jogo, a vaga de piloto reserva da equipe Lotus, após sua venda para a Renault. Em uma entrevista a uma publicação de seu país, Sorensen revelou sua revolta pela escolha do time, afirmando que a colega era 12 segundos mais lenta que ele nos testes em simulador. Em que pese a referência ser algo meramente virtual, o simulador é o que se tem para comparar pilotos reserva nestes tempos, em que testes são praticamente proibidos para equipes, por alegada redução de custos.

Se a permanência de Jordá na equipe causou estranheza, sua chegada ao time não foi menos criticada. Ao ser anunciada como integrante da Lotus, no início de 2015, a espanhola de 26 anos foi alvejada por todos os lados, inclusive pelo lado de dentro do automobilismo, recebendo críticas de seus companheiros de profissão. O irlandês Rob Cregan esbravejou, em sua conta no Twitter: “Ela não consegue nem desenrolar um rolo de filme e vão deixá-la num carro híbrido de F1. F1 é talento, não dinheiro e chateação com posições falsas.” O neozelandês Mitch Evans escreveu apenas “ainda não é 1º de abril”, ironizando o anúncio da equipe como se fosse uma pegadinha do Dia da Mentira. Compatriota de Evans, Richie Stenanay foi mais discreto e lançou apenas um “LOL” (lots of laughs).

Carmen é filha de um ex-piloto, José Miguel Jordá, que esteve longe de alcançar resultados expressivos no automobilismo. Natural da cidade de Alcoi, ela começou a correr de kart aos dez anos e, em 2005, estreou em uma categoria para iniciantes, a Master Junior Formula, terminando a temporada na sétima colocação. Em 2006, estreou na Fórmula 3 da Espanha e foi a primeira mulher a subir no pódio da competição. Passou pela Fórmula 3 europeia, em 2009, tendo um nono lugar como melhor resultado. Cruzou o Atlântico para disputar a Indy Lights, em 2010, correndo cinco provas e terminando em 16º lugar no campeonato. Desempenhos discretos.

Como discretos foram, por exemplo, os desempenhos do inglês Max Chilton antes de chegar à Fórmula 1. Em seu ano de estreia na Fórmula 3 Inglesa, foi o décimo colocado no campeonato. Depois, ficou em 25º lugar em seu primeiro ano na GP2, melhorou para 20º no ano seguinte, até chegar ao quarto lugar na competição, em 2011. Chilton foi contratado como piloto titular da antiga equipe Marussia para a temporada de 2013. A Marussia esteva sempre entre as piores equipes do grid, entre os anos de 2012 e 2015. Chilton, no entanto, destacava-se pela resiliência. Raramente abandonava as provas, embora quase sempre as terminasse em último. Era o popular “devagar e sempre”.

Se é fato que Jordá ganhou força junto à Fórmula 1 pelo potencial de divulgação que sua bela figura representa, não é menos verdade que Chilton garantiu sua presença na categoria pelo fato de desembarcar com muito dinheiro. Seu pai, Grahame Chilton, é vice-presidente da Aon, uma das maiores seguradoras do mundo. Seja por um motivo ou por outro, não é exagero dizer que ambos chegaram à maior categoria do automobilismo mundial menos por suas habilidades ao volante que por apelos de outras naturezas.

A diferença fundamental entre ambos está na abordagem que se faz publicamente do fato. Chilton é o filhinho de papai afortunado, boa praça, um excêntrico que poderia estar curtindo o dolce far niente mas prefere arriscar o pescoço correndo de carro. Jordá é uma mulher bonita que ocupa um posto almejado por dezenas de pilotos, ainda que sua atuação se restrinja a pilotar no simulador. Ilações sobre como chegou lá são frequentes.

A discussão sobre mulheres na Fórmula 1 é um tema praticamente eterno e, aqui no GPTotal, eu mesma já escrevi várias vezes. Desta vez, me parece que a discussão mais relevante está menos em Jordá e mais na Fórmula 1. Ainda que Jordá fosse uma pilota com uma carreira consistente, como Simona de Silvestro, Danica Patrick ou Bia Figueiredo, para ficar apenas nas contemporâneas, chama a atenção o fato de que a representatividade de mulheres na Fórmula 1 hoje não é um fato relevante. O tema da inclusão de gênero e da sua justa remuneração está presente no tênis, no UFC, no futebol, mas passa ao largo do automobilismo. Por quê?

Em minha opinião, menos por uma eventual incompatibilidade da modalidade com as mulheres e muito – muito! – mais pela irrelevância do esporte a motor no mundo de hoje. No Reino Unido, um dos principais berços do automobilismo de competição e terra natal do atual campeão, Lewis Hamilton, a média de audiência das corridas foi de 2,1 milhões de espectadores. Na Alemanha, que dominou as últimas quinze temporadas com cinco títulos de Michael Schumacher e quatro de Sebastian Vettel, a média é de 4,2 milhões, contra 5,2 milhões de 2013. Muito longe dos quase 37 milhões de espectadores do Oscar.

Seria desafiador levantar, neste site que é praticamente um grande fórum, questões que refletissem sobre a inclusão de mulheres e negros na Fórmula 1. Mas a triste realidade desse esporte que nós, talvez de forma amaldiçoada, amamos como um prazer proibido, é que ele se tornou irrelevante para as grandes questões sociais dos nossos tempos. O racismo latente contra Lewis Hamilton, o machismo e a misoginia da categoria, nada disso ganha corpo nas discussões tendo como plataforma a Fórmula 1. Os temas, no entanto, povoam as polêmicas em outros palcos, sejam outras modalidades ou o cinema. Há uma luz discreta sobre o cenário da Fórmula 1 nestes tempos. Resta saber quem será o último a sair para apagá-la.

3 thoughts on “Cenário apagado

  1. Comparar Chilton com a Jordá foi lamentável e forçadissimo por parte da Feminazi vitimista. Texto fraquissimo

  2. Belo texto Alessandra, e um tema bastante polêmico este que você levantou.

    E concordo com o Fernando, pois acredito que se no automobilismo existisse uma categoria feminina, iria em fim, acabar com esta lenga lenga.

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

  3. Grande Alessandra Alves,

    sua primeira coluna do ano está para arrebentar e dando muito o que pensar.
    O automobilismo mundial deveria seguir a linha da maioria dos esportes com categorias distintas para homens e mulheres como é o futebol, o basquete e a maiorias dos esportes. Eu acho que o único que se mistura é o hipismo, pois o sexo de quem monta o cavalo não interfere no comando que se deve dar ao animal para pratica dos saltos e por ai vai …
    Me lembro de quando por causa do racionamento de combustível por causa da crise do petróleo, nos idos dos anos 70 e automobilismo aqui voltou a ativa incentivado pelo programa do Pró Alcool. Foi realizado um festival de corridas no autódromo do Rio, eu estava presente lá nas arquibancadas, com corridas das 8 da manha até as 8 da noite … todas as categorias do esporte a motor se faziam presentes … inclusive corridas de motos … e foi realizada uma corrida só para mulheres, todas usando um Fiat 147 da qual me lembro de ter sido muito divertido … teve até capotagem …
    Eu acho que a melhor solução seria esta de criar uma categoria feminina … e assim encerrar assuntos polêmicos como esta questão de preconceitos.
    Com relação aos negros, o Lewis Hamilton está quebrando uma barreira enorme … diferentemente de outros esportes, para ser piloto de corrida se faz ter muito dinheiro … mais até que talento … isso não ocorre em esportes como futebol e basquete (como principais exemplos) de inclusão social no esporte …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *