Por que vou prestar atenção na Haas

Em um certo lugar no céu do automobilismo…

– Gilles, a julgar pelos primeiros testes, parece que a partir da Austrália veremos mais do mesmo, apenas variando as respectivas distâncias para as Mercedes, as Ferrari liderando o resto da turma.

– Também acho, Bruce. Mesmo fontes internas da rossa admitem que a distancia em tempos por volta, que no passado variou de 3 a 5 décimos por volta, sendo ainda maior na classificação, provavelmente diminuirá, mas talvez não o suficiente.

A SF16 H já tem o mérito de ter agradado os pilotos e trazer várias inovações mas ainda apresenta problemas de confiabilidade, coisa que não ocorreu nas flechas de prata.
Só os tifosi mais fanáticos apostarão em um troféu de campeão na coleção da Scuderia em 2016.

– Como fundador de equipe, em busca de novas emoções decidi prestar atenção em algo que me parece realmente novo neste momento. Você observou que Gene Haas não está com pressa em conseguir patrocinador?

Ele joga com várias cartas, algumas talvez estivessem encobertas para a maioria dos jogadores.

Ele definiu um cacife anual, 100 milhões, muito inferior ao das equipes de ponta.
Renunciou totalmente a desenvolver partes do carro que são muito caras, como transmissão, por exemplo.

Prefere comprar de quem já tem bons produtos para vender.

Observe como é singular seu ponto de vista: ele defende que pouca gente na audiência está interessada em saber se uma equipe desenvolve sua própria transmissão ou se compra pronta. O que a maioria quer ver são os carros correndo e é isso que ele pretende oferecer.

Assim, comprou o que pode da Ferrari e encomendou o chassis à Dallara, que desapareceu da F1 mas tem sólida clientela em outras categorias.

A partir daí ele se preocupou em contratar profissionais de bom nível e dar a eles boas condições de trabalho.

– Bem observado, a Haas já é considerada a equipe estreante mais bem preparada da F1 desde a Toyota, há 15 anos.

Se você lembra, a Toyota tinha passado o ano anterior inteiro testando seu carro e treinando a equipe nos principais circuitos da F1, na suposição de ter pouco a evoluir para alcançar as líderes quando estreasse. A responsabilidade de ser a Toyota, uma montadora com resultados extraordinários baseados no seu sistema de controle de qualidade total, filosofia kaizen, a levou a gastar uma fortuna para chegar fazendo jus ao prestígio obtido nas ruas.

– Como o Gene não tem essa a preocupação, a abordagem dele é outra. Ele quer correr bem, tirando o máximo da plataforma que tem. Aliás nestes poucos dias de teste deu para ver que o carro é bom e que a equipe não aparenta o nervosismo habitual de quem precisa classificar e marcar pontos para sobreviver, como era o caso de Marussia, Caterham, HRT.

Parece que todos sabem o que estão fazendo e até onde podem ir, sem stress desnecessário.

– Acho que ele olha o esporte mas também olha o negócio.

Quer competir e fazer boa figura, mesmo sem chance de ganhar.

Estar na F1 já é um bom negócio.

A visibilidade que ele terá poderá se refletir em diversos outros segmentos. A F1 hoje tornou-se um negócio gigantesco, quer a gente goste ou não do Bernie. Embora as audiências estejam caindo ainda se atinge muita gente. Isso vai ser bom para a Haas Automotion. Talvez seja a melhor relação custo/benefício que ele pode encontrar para aparecer.

– Fazer muito com essa pouca verba pode ser um atrativo para outras pessoas. Não apenas como exemplo mas se tornando o underdog, aquele cara que brilha mesmo tendo menos chance que os outros. Os outros correm com a obrigação de brilhar, ele não tem esse peso.

E as pessoas tendem a torcer para o underdog. Hollywood nos acostumou a torcer para Bond, que mesmo fazendo parte do poderoso serviço secreto britânico precisava resolver tudo praticamente sozinho.

– Se a Haas der certo Gene passará a ser um player importante naquele jogo pesado que entre as montadoras e o Bernie.

A ideia de ter equipes clientes atrai as montadoras, porque gera receita e aliados. O voto da Haas pode ajudar a Ferrari nas discussões com o baixinho.

– Talvez ele já esteja gerando seguidores. Lawrence Stroll, fundador da marca Tommy Hillfiger, portanto com conta bancaria suficientemente polpuda, parece estar seguindo um caminho paralelo, por outras vias. Seu filho Lance compete na F3.

Ele já fez um acordo com a Williams para que o garoto ande inúmeras vezes, por sua conta, no FW2014, para já ir se acostumando. Isso é permitido pela FIA e se essa parceria vingar, há rumores de que Mr Stroll compraria a Williams, ao invés de montar sua própria equipe.

Parentesis: embora Vijay Mallia negue, há rumores de que a Diageo, mega-empresa de bebidas alcoólicas, estaria assumindo o controle da Force India. O rumor é que, se isso efetivamente acontecer, esta passará a agir como a Haas, virando equipe cliente da Mercedes.

– A única coisa que não gostei da Haas é que o livery ficou parecido com o da McLaren.

– Como era bonito aquele laranja que você escolheu no início da McLaren, hein Bruce.

– É, eu gostava muito.

Os dois fazem silêncio, certamente rememorando outros tempos, em que a F1 era mais heroica, mais divertida.

Abraços a todos

15 thoughts on “Por que vou prestar atenção na Haas

  1. Bom, parece que a idéia de que as grandes equipes colocassem tres carros na pista para compensar a falta de equipes esta sendo posta em pratica subrepticiamente com o eufemístico nome de “equipes clientes”. De fato, agora serao 4 carros !

    1. Como se diz no direito italiano, “fatta la legge fatta la burla”. Com a distancia das HRTs e congêneres para o pelotão do meio, alguma coisa precisa ser feita. Mr Haas examinou a questão como um todo, percebeu as brechas e tratou de aproveitar.

  2. Peterson é uma ótima lembrança. Pensei em chamar o Mark Donahue, que seria mais do que justo, mas temi que boa parte dos leitores nem saibam quem foi.

    1. Chiesa

      Mark Donahue fez história andando de Ferrari 512S e o Porsche 917/30, ambos com patrocínios da SUNOCO.

      Uma pena ele ter falecido naquele acidente no Warm Up para o GP da Áustria de 1975.

      Ele foi um grande piloto Americano.

      Abraço!!

  3. C. Chiesa,

    depois de ler este texto certamente vou ficar mais atento a HAAS, mas vamos ser realistas, creio que uma equipe nos moldes que o Gene montou pode no máximo virar um ótimo cliente para as grandes montadoras vender seus pacotes mas nunca chegar realmente a ameaçá-los na pista pois o suporte financeiro que as equipes oficiais das montadoras possuem nenhum cliente por melhor que seja conseguirá ter … e neste sentido acredito mais no potencial da Mclaren/Honda para acabar com a supremacia da Mercedes e da ferrari …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

    1. Fernando, de forma alguma acho que ele tem mais potencial que a McLaren/Honda, e creio que nem Mr Haas. A competitividade dele tem um limite e me parece que é o de se estabelecer logo atrás das principais forças. Seria extraordinário se conseguisse andar no meio delas, quanto mais na frente. Se a Haas andar encostada na Force India, por exemplo, logo no seu primeiro ano, estará ótimo.

  4. Belo texto Chiesa!

    Tomara que a Haas realmente surpreenda e consiga logo logo andar no pelotão do meio.

    Os caras não estão pra brincadeira!

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-Pr

    1. Foi isso que me chamou a atenção, Mauro. É uma atitude profissional, esportiva mas ao mesmo tempo empresarial. Parece ser mais consistente que outros colegas franco-atiradores.

  5. Acho que para o Gene Haas já virou modelo de negócio o “prefere comprar de quem já tem bons produtos para vender”, visto que na NASCAR sua equipe adquire até esse ano os motores Chevrolet preparados pela equipe Hendrick Motorsport (nada mais, nada menos que os melhores motores da Chevrolet).

    Tomara que se consolidem na F1, irão agregar muito a categoria.

    1. Mr Haas não tem o menor interesse em produção. Seu foco está em competir, e bem, com o que de melhor puder encontrar. É um outro campeonato. Convém lembrar que existem certos precedentes americanos. Lembro de uma Ferrari 512 azul, com patrocínio da Sunoco, nos tempos da categoria esporte protótipo, inscrita por uma equipe americana que surpreendeu pelo nível de preparação, ainda melhor que o da fabrica.

  6. Faltou o Peterson nesta conversa sensacional.

    Tomara que estejamos bem errados e 2016 guarde boas surpresas na turma da frente.

    Está chegando a largada! Ansiedade só aumenta.

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