Movido pela raiva

Após um angustiante inverno, recheado de expectativas altíssimas, a MotoGP finalmente realizou no último domingo (20) a sua primeira etapa de 2016 na escuridão de Losail, no Catar. Teremos um campeonato mais disputado do que imaginávamos de início, mais uma vez regido por uma rivalidade extremada, beirando o puro ódio.

O teor do ambiente já havia ficado evidente na quarta-feira (16) quando Jorge Lorenzo, Valentino Rossi e Marc Márquez foram os protagonistas da primeira entrevista coletiva do ano. Desde que o italiano “jogou merda no ventilador” em Sepang ao acusar os espanhóis estarem sabotando o seu campeonato, essas conferências de imprensa tem sido acompanhadas com atenção máxima. Alfinetadas e olhares sutis mostraram que o clima não havia arrefecido um grau sequer desde Valência 2015.

Rossi logo mostrou a que veio. Ao contrário dos últimos anos, o italiano estava mais sério do que de costume e logo evidenciou que não faria mais quaisquer tentativas de amizade com Márquez e também com seu companheiro de equipe, Lorenzo. O eneacampeão continuou sendo o centro das atenções durante o sábado, quando anunciou a renovação de seu contrato com a Yamaha por mais duas temporadas.

Ao ler no anúncio frases como “Rossi é parte da família” e “estamos orgulhosos de continuar essa colaboração”, Lorenzo deve ter sentido um imenso baque. À mídia de seu país, o espanhol disse ter recebido “o melhor contrato de todos os tempos”, declaração rapidamente desmentida por Lin Jarvis. O chefe da equipe garantiu ter mandado contratos idênticos a seus dois pilotos, mas apenas Rossi o aceitou de imediato.

A relação entre Rossi e Lorenzo nunca havia ficado tão tensa desde que Rossi voltaram a serem companheiros de equipe em 2013. De um lado temos o italiano, nitidamente mais prezado pelo seu time, mas ainda muito magoado com o desfecho da última temporada. Do outro, o veloz piloto espanhol, que não se conforma com a atenção especial do colega, mesmo sendo o campeão reinante. A resposta viria na pista.

No treino classificatório, Lorenzo não encontrou grandes dificuldades para marcar a pole position. O piloto de 28 anos já havia dado amostras do que poderia fazer nos testes pré-temporada, mas sua volta em 1min56s774 foi apenas 91 milésimos melhor que a de Marc Márquez. Pouco mais de dois décimos de segundo atrás ficou Rossi, o quinto colocado, que reclamou muito de ter sido atrapalhado em uma volta decisiva.
Rossi argumentava que havia sido punido pelo mesmo motivo no ano passado e exigia que Lorenzo recebesse o mesmo tratamento. Mas, como isso aconteceu apenas no TL4 (treino que não tem valor para a pole position), suas reclamações não foram levadas adiante por Mike Webb, o diretor de corridas.

De qualquer maneira, no que concerne a disputa em si, a qualificação havia sido melhor do que a encomenda, porque a superioridade da Yamaha demonstrada nos testes não se confirmou. Apenas 0s420 separaram os seis primeiros colocados no grid de largada, composto por Lorenzo, Márquez, Maverick Viñales, Andrea Iannone, Rossi e Andrea Dovizioso.

A força da Ducati ficou evidente na largada, quando Iannone e Dovizioso usaram toda a exorbitante potência de seus motores V4 para dispararem na ponta. Lorenzo caiu para terceiro, tendo Rossi na sua cola. Márquez e Viñales, por outro lado, realizaram uma péssima partida despencando para quinto e sexto, respectivamente.
Lorenzo correu com toda a classe de um campeão do mundo, ou seja, sem se afobar com a presença das Ducati à sua frente. O espanhol parecia ter certeza de que pelo menos uma delas acabaria saindo da disputa. Enquanto isso, Rossi andava visivelmente no limite e logo foi superado por Márquez.

O plano de Lorenzo deu certo: as Ducati acabaram duelando entre si. Fazendo uma prova como há muito tempo não se via, Dovizioso vislumbrou uma oportunidade de vencer e partiu para cima de Iannone. O italiano não se intimidou e acabou escorregando em seu próprio entusiasmo, abandonando a prova que mais tinha chances de vencer.
Isso deixou Dovizioso em primeiro, com Lorenzo logo atrás. Todos esperavam que o espanhol fosse ultrapassá-lo com facilidade e sumir na liderança, mas não foi o que se viu. “Dovi” ainda conseguiu revidar algumas vezes, mostrando que a GP16 está boa não apenas nas retas como nas curvas.

Próximo ao final da corrida, Márquez, que vinha na terceira posição tentou um ataque sobre Dovizioso, já em segundo lugar. O espanhol chegou conquistar a posição, antes de receber um surpreendente troco, voltas depois. O bicampeão tentaria novamente na última curva, mais uma vez levando um revide do italiano, que cruzou a linha de chegada apenas dois segundos atrás do vencedor.

Toda a classe demonstrada por Lorenzo na pista desapareceu em sua chegada aos boxes, quando fez gestos provocativos para a câmera, recebendo intensas vaias. O espanhol, no entanto parecia não se importar com isso, pelo contrário: era como se fosse movido por essa energia negativa, por uma raiva muito profunda e pessoal. Sem dúvida, uma cena muito estranha de se ver em qualquer esporte, especialmente no motociclismo.

A Yamaha é a moto que tem o melhor pacote nesse começo de temporada. Mesmo correndo com pneus macios na traseira (que se desgastam mais rapidamente), Lorenzo chegou à frente, mostrando que a M1 é a moto mais gentil no uso dos novos pneus Michelin, introduzidos para esse ano.

Por outro lado, a grande surpresa foi a Ducati, pelo simples fato de ter se mantido entre os primeiros até o final. Se Iannone, um piloto naturalmente mais rápido e agressivo não tivesse caído, o caminho de Lorenzo até a vitória teria sido ainda mais difícil. A marca italiana tem reais chances de vitória pelo menos nessa fase inicial.

Do lado da Honda, ainda há muito trabalho a ser feito para dosar a potência do motor e melhorar o chassi da RC213V. Entretanto, Márquez chegou ao final da prova em melhores condições do que no ano passado, quando ficou longe dos líderes, em quinto lugar. Isso significa que a marca japonesa não vai ser figurante por muito tempo.

Há, portanto uma disputa pelo título, sim.

Resta saber como serão os próximos capítulos dessa novela que já tem personagens bem definidos: Temos um “herói” (Rossi), um “vilão assumido” (Lorenzo) e um vilão que ainda quer mostrar que é “do bem” (Márquez). Para completar, Iannone e Dovizioso são os coadjuvantes que roubam a cena ocasionalmente. Com quem está a sua torcida?
Até a próxima!

4 thoughts on “Movido pela raiva

  1. Lucas,

    não pude assistir a corrida ainda … e gostei muito de seu relato …
    A Minha torcida é toda para o Doctore Valentino Rossi … o que fizeram com ele ano passado foi uma covardia …
    A minha antipatia é toda para o Lorenzoi
    Quanto ao Marquez, a minha admiração por ele está um pouco arranhada … cabe somente a ele reverter isso jogando limpo nas pistas … aliás torço pela reação da Honda … é bom para o campeonato,


    Uma nota importante hoje dia 23/03/201’6:
    Mike Hailwood – Trinta e cinco anos de saudades do maior piloto britânico já visto na motovelocidade … 152 largadas, 76 vitórias ( venceu metade das corridas em que largou) – 9 títulos mundiais sendo 3 nas 250cc, 2 nas 350cc e 4 nas 500cc … venceu 14 vezes o Troféu Turista da Ilha de Man … além de ter sido piloto da Formula 1 entre 1963 até 1974 …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  2. Lucas

    Gostei da corrida, e pra mim a melhor parte foi quando as duas Ducati engoliram a Yamaha do Lorenzo na abertura da segunda volta.

    Minha torcida é claro pelo VR46, e minha antipatia pelo Lorenzo e Marquez.

    Que venha a etapa argentina!

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

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