Não respeitem meus cabelos brancos

Os primeiros fios brancos começaram a aparecer há poucos anos, mas não me incomodavam. Talvez porque eu clareasse artificialmente os cabelos e, desta forma, os brancos não se destacavam. Voltei à cor natural recentemente e comecei a implicar com eles. Fui à cabeleireira e pedi uma sugestão. Filosofando, Gladys me disse que essa reação é muito comum nos salões: a mulher passa a vida pintando o cabelo com toda a paleta de cores mas, ao sinal dos primeiros brancos, quer voltar ao tom original. “Como se isso resgatasse a própria juventude?”, arrisquei. Discreta e ética, ela só sorriu.

O paralelo me lembrou de um tipo de discussão muito recorrente no esporte: o confronto entre passado e presente. Veteranos tendem a supervalorizar os fatos do passado, enaltecendo as conquistas como se elas fossem heroicas simplesmente por serem desprovidas dos recursos atuais. Como se esses recursos fossem muletas que transformam esportistas medianos do presente em supercampeões e que estes seriam triturados se pudessem duelar com os ídolos de décadas atrás. Muitas vezes – na maioria delas, eu me arrisco – o apego ao passado tem pouco a ver com os atletas e com seus equipamentos. O passado simplesmente era melhor porque nos tinha jovens, vigorosos, sem cabelos brancos.

A comparação entre Nico Rosberg e seu pai Keke, por exemplo. Começando pelo pai. Quem olhar os números da carreira do sueco naturalizado finlandês na Fórmula 1 contabilizará cinco vitórias, cinco pole positions, 17 pódios e um título mundial, em 1982. A carreira de Nico, até agora, aponta 17 vitórias, 23 pole positions e dois vice-campeonatos. Na frieza dos números, apressadamente, seria lógico afirmar que Nico já é melhor do que foi seu pai. Not so fast, colegas.

Voltando no tempo, a 1982, temporada cercada de algumas tragédias. A mais lembrada delas, a morte de Gilles Villeneuve em maio. Pilotando uma Ferrari extremamente competitiva, o canadense Villeneuve parecia sair da vida para deixar o título nas mãos do companheiro Didier Pironi, mas o francês sofreu um acidente grave no GP da Alemanha e não participou das quatro corridas seguintes. A bordo de uma Williams com motor Ford Cosworth, Rosberg, que fez sua estreia na Fórmula 1 aos 29 anos, terminaria o ano como campeão mesmo tendo vencido apenas uma corrida na temporada, o GP da Suíça, disputado no circuito francês de Dijon-Prenois.

Olhando assim, de longe, dá até a impressão de que o título de Rosberg veio como obra do acaso. Não é bem assim. O ano de 1982 teve 16 corridas e onze vencedores diferentes: Rosberg, Pironi, John Watson, Alain Prost, Niki Lauda, René Arnoux, Patrick Tambay, Michele Alboreto, Elio De Angelis, Riccardo Patrese e Nelson Piquet. Rosberg foi campeão graças à maior regularidade, pontuando em dez ocasiões, sendo três em segundo lugar e mais duas em terceiro. “Só” uma vitória não é uma forma justa de analisar o ano do título de Rosberg. Dos onze vencedores de GPs naquele ano, apenas Pironi, Watson, Prost, Lauda e Arnoux conseguiram dois primeiros lugares.

Vamos dar um salto no tempo e chegar a 2006, ano da estreia de Nico Rosberg na categoria. Aos 20 anos, filho de piloto campeão do mundo, Nico trilhou uma carreira sólida nas categorias de base da Europa, foi campeão da GP2 em 2005 e entrou na Fórmula 1 pela porta da Williams, a mesma com que seu pai foi campeão. No entanto, chegou a um time cuja competitividade estava bem distante da que costumava ter no passado. Foram quatro temporadas discretas no time de Grove. No ano de estreia, 17º lugar no campeonato. No ano seguinte, nono. Em 2008, 13º, melhorando para sétimo em seu último ano pela equipe de Frank.

Em 2010, parecia que o jogo ia virar para Nico, quando a Mercedes, voltando à Fórmula 1 depois de comprar a equipe Brawn, campeã em 2009, anunciou o jovem alemão para o ano seguinte. Ainda no final daquele ano, a ducha gelada. A Mercedes resolve completar sua esquadra, fazendo um anúncio bombástico: o retorno do heptacampeão Michael Schumacher. Na previsão dos analistas, o filho de Keke passou de potencial campeão, sem escalas, a nova vítima de Schumacher. Nem uma coisa, nem outra. A Mercedes não sustentou o domínio da Brawn e seus pilotos foram apenas sétimo e nono colocados. Mas, com Nico à frente de Schumacher. E, mais significativo, com quase o dobro de pontos. O novo engoliu o velho. E enquanto Schumacher permaneceu na categoria, até o final de 2012, foi assim. Coube a Nico, inclusive, dar a primeira vitória dessa nova fase à Mercedes, no GP da China dessa temporada.

Embora os estilos de Keke e Nico pareçam muito diferentes, considero que suas carreiras têm mais pontos em comum do que os números possam aparentar. Ambos começaram em equipes pouco competitivas e cumpriram seus primeiros campeonatos sem resultados expressivos. Em suas quatro primeiras temporadas, o pai só conseguiu marcar pontos em uma, a de 1980. Nico teve a vida um pouco mais facilitada, pontuando no ano de estreia, mas sem a mínima chance de encostar nos líderes. No entanto, o arrojado Keke e o cerebral Nico conseguiram, cada um a seu modo, chamar a atenção de times vencedores.

Outra característica: tanto Keke quanto Nico desafiaram e venceram colegas veteranos. Não apenas isso: campeões na categoria. O que Nico fez com Schumacher lembra muito o que o pai fez com Emerson Fittipaldi, que o contratou para a equipe já batizada com o nome da família, em 1980, e viu o colega mais jovem obter resultados mais expressivos, embora ambos sem chances de ameaçar os primeiros colocados.

Talvez a maior diferença entre Nico e Keke esteja no momento em que ascendem para equipes vitoriosas. Nico cumpriu outras quatro temporadas na Mercedes frequentando zonas intermediárias na tabela de classificação. Quando a equipe evoluiu a ponto de ter um carro vencedor, as vitórias e pole positions vieram. O problema é que vieram em maior proporção para o companheiro de equipe, Lewis Hamilton, vencedor das duas temporadas que renderam a Nico seus vice-campeonatos. Keke correu cinco temporadas em times com potencial para vitórias e títulos. Na primeira delas, garantiu o seu. Depois, o melhor que conseguiu foi um terceiro lugar, em 1985.

O que isso significa? De novo, apressadamente, alguém poderia dizer que Keke é melhor que Nico, pois o primeiro conseguiu o título e o segundo (ainda) não. Calma, gente, devagar. Lembra, lá no começo, quando comentei que Keke ganhou um campeonato com onze vencedores diferentes de GP? Quantos vencedores tivemos em 2015? Três. Em 2014? Três. As possibilidades de vitória, em 1982, eram muito mais pulverizadas no grid. Hoje, e há muitos anos, na verdade, as chances de alguém ganhar quase sempre dividem-se entre duas equipes.

Por um lado, os detratores de Nico poderiam apontar o dedo e dizer: se ele fosse bom mesmo, quem tinha vencido os dois últimos campeonatos seria ele, não Hamilton. Eu não tenho dúvidas de que Hamilton é melhor piloto que Nico, mas a comparação, aqui, é entre Nico e seu pai.

Por outro, também se poderia lembrar que, hoje, o funil da Fórmula 1 é muito mais estreito – especialmente quando se analisam as chances de vitórias e títulos. E Nico, no final das contas, está se mantendo em uma equipe vencedora, o lugar onde qualquer piloto gostaria de estar, venceu seis provas na sequência, entre o final de 2015 e o início de 2016, e já é o piloto “sem título” mais vencedor da história, tendo ultrapassado o inglês Stirling Moss na última corrida.

Há quem cogite, aqui e ali, que Rosberg está batendo Hamilton porque a equipe estaria sabotando o inglês. Bitch, please… Hamilton fez as pole positions na Austrália e no Bahrein, largou mal e porcamente e se complicou sozinho nas duas ocasiões. Rosberg, enquanto isso, aproveitou-se da flagrante superioridade da Mercedes e venceu as três primeiras corridas. O jogo vai virar para Hamilton, em algum momento? Eu até acho que vai, porque o campeonato é longuíssimo e o inglês é aparelhado o suficiente para isso. Mas não acho impossível que Rosberg consiga administrar sua vantagem e igualar-se ao pai como campeão mundial. Um cerebral, um arrojado, cada um de um jeito.

Se o fizer, terá feito em sua décima-primeira temporada. O pai, na quinta. O que não prova que o pai seja melhor. Nico já tem mais do triplo de vitórias do pai. O que não prova que o filho seja melhor. Na moral da história, sem dar uma de isentona, continuo achando inócuo comparar maçãs com laranjas, 1982 com 2016. Eu preferia não ter cabelos brancos, mas apegar-me ao passado não fará com que eles nasçam castanhos novamente.

6 thoughts on “Não respeitem meus cabelos brancos

  1. Olá, pessoal.
    Como Formula 1 gira em torno do dinheiro e de interesses, vejo que teorias da conspiração são verdeiras práticas, principalmente nos dias de hoje, quando carros não quebram e há um controle maior sobre o comportamento deles, fazendo com que certos objetivos sejam alcançados.
    Já em 82, com a fragilidade dos mesmos, isso não era tão possível de ser feito, e portanto era uma época de resultados mais honestos.
    Digo isso porque estamos vendo uma temporada totalmente ditada pela Mercedes em termos de opção por quem sera seu protagonista.
    Sabemos que na pista o Hamilton consegue dominar o Rosberg, e partiria para seu terceiro titulo consecutive de maneira fácil.
    Ficou demonstrado com suas 2 poles desta temporada, e talvez tivesse feito a terceira, caso não tivesse problemas.
    Rosberg está em sua sétima temporada pela equipe, que ajudou a desenvolver, mas em seu ultimo ano de contrato, que provavelmente não sera renovado pela longevidade e por haver a necessidade de alternância de pilotos em carros de ponta.
    Por querer demonstrar esta gratidão ao seu piloto, tudo indica que deverá ele se despedir com um título, e nós presenciaremos exibições inesperadas do Hamilton, que continuará seguindo o roteiro definido pelos patrões.

  2. Alessandra

    Eu vejo da seguinte maneira:

    Em 1982, os carros quebravam com muito mais frequência, e tantos outros problemas que podiam surgir, numa temporada que só tinha 16 etapas, com certeza deram um peso a mais para o título de Keke.

    Já nos tempos atuais, os carros quase não quebram mais, e fato, o piloto que estiver no melhor carro, tem 50% de chances de ser campeão, os outros 50% fica distribuído ao companheiro e um ou dois adversários de outra equipe.

    Sempre gosto de citar como exemplo o título do Button.

    Então, por essas e outras que a F1 de hoje esta deste jeito, cheia de botox pra tentar mante-la ainda atraente.

    Vermos um piloto do calibre do Alonso tendo a sua carreira limada numa Mclaren/Honda por causa de um regulamento de merda, é um pecado.

    Obs: E quase que o Keke não vence em Dijon, pois a equipe Renault estava ao lado do placar que marcavam as voltas, pressionando o rapaz a pular os números, e assim fazer com que a prova terminasse antes em favor de Prost.

    E neste fds tem MotoGP.

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

  3. Cara Alessandra,

    Texto interessante, legal a comparação de maçãs com laranjas,é muito difícil a comparação de pilotos do passado e do presente. Contextos diferentes, carros diferentes, sistemas de pontuação diferentes, papel das equipes diferentes e por ai vai.

    Apesar do arrojo de Keke Rosberg, considero-o um dos mais fracos campeões, por que apesar de ter feito mais pontos não se viu um domínio claro dele sobre seus oponentes em nenhum aspecto. Além dos 5 citados que tiveram 2 vitórias temos Tambay ,Alboreto De Angelis, Patrese e Piquet com uma cada.Em 82 ele só fez uma pole e nenhuma volta mais rápida. A sua proporção de vitorias também é baixa com 1/16 na temporada de 82 e 5/128 na carreira. Sem duvidas foi uma temporada bem equilibrada, quem dera tivéssemos outra assim.

    Com relação ao Nico considerei um erro aquela “jogada de boné” do Hamilton, este tipo de atitude pode ter efeito contrário ao desejado,mexendo com o lado psicológico.A sequencia de vitórias começando com 3 ano passado e 3 este ano também fortaleceu o lado psicológico de Nico, ao lado de um aparente “relaxamento” de Hamilton.Não tivemos ainda a oportunidade de ver neste ano um embate direto dos 2 para podermos tirar melhores conclusões.
    Espero que a Ferrari e a RedBull reajam para não termos um campeonato de uma equipe só. Vi declarações de Arrivabene falando de uma diferença de 0,1s.

    Abraços,
    Márcio

    1. Colegas, desde o título do ano passado ando comparando Hamilton a Hunt, porém este já me parece Lauda de 1985. Ambos tiveram uma grande lacuna entre os títulos, tiverem que se reinventar e adaptar a um novo momento e este momento de relaxamento é compreensível. Nosso Moco mesmo disse uma vez que o dia que vencesse um campeonato parava. Stewart fez isso com o tri, mesmo que muito motivado pelo falecimento de Cevert.
      Talvez fosse interessante corridas extra campeonato, em circuitos exóticos ou históricos esquecidos, sem pontuação mas com o sorteio de cada piloto em um carro ou algo semelhante, só para ter alguma dança nas cadeiras. Poderia ser oferecido um troféu simbólico como em 1987 na Copa Jim Clark.
      Só pensando alto………..

  4. Colegas do GPto

    Algumas considerações:

    Keke tirou leite de pedra em todos os bolidos pilotados e 1982 foi a maior demonstração disto.
    Nico é um bom piloto porém sem carisma, assim como a maioria em qualquer outro esporte.
    Os carros de 1982 eram lindos, sendo o último ano com as mini saias que permitiam o efeito solo, considero a Ferrari deste ano (126C2) como umas das 3 mais belas, atrás da 158 de 1964 e a 312b2 de 1972.
    Os carros de 2016 são horríveis, ao menos a red bul tentou algo com a pintura fosca…………a a pior tentativa é das Ferrari tentando remeter o modelo 312T de 1975………ledo engano.
    Rosberg será campeão com 3 ou 4 corridas de antecipação pois Hamilton está com a cabeça em outras realidades.
    Ano que vem a chance da Mercedes peder a liderança na categoria surge, este ano esquece!

    Que venha o próximo GP.

    Bom final de semana a todos.

  5. Alessandra,

    até o momento o Nico Rosberg vem contrariando todas as nossas previsões de quem poderia ser campeão este ano. Todos apostavam no Hamilton e que somente Vettel dependendo da evolução da sua Ferrari poderia impedir mais uma conquista do ingles. Nico era carta quase fora do baralho.
    Sei que ainda temos muitas corridas pela frente, que há tempo para uma reação do Hamilton assim como o Nico já possui uma boa vantagem para administrar, mas não podemos negar que até o momento Nico Rosberg está bem melhor que todo o resto do grid. Ele está perfeito e surpreende a todos pelo seu desempenho.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

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