Memória seletiva

Quando temos tempo para relaxar e podemos ouvir uma boa música, normalmente vem à mente um sentimento especial de alguma boa lembrança do passado relacionado a essa canção.

Alguma namorada, algum evento especial que está ligada a uma música faz com que nós tenhamos um especial apreço por ela, mesmo que para os demais ouvidos a música não seja muito boa, ou que não gostemos de outras músicas de determinado cantor ou banda. Selecionamos apenas o que nos traz boas lembranças.

Na F1 e sua rica história de 67 temporadas, tendemos a gostar mais de determinados períodos de sua história por vários motivos. Por exemplo, gosto muito da segunda metade dos anos 1980, pois foi quando descobri a F1 e havia uma ampla cobertura na mídia. Tudo que se relacionasse à F1 naquela época, eu ainda criança consumia, mesmo não entendo tanta coisa.

Por outro lado, detesto o ano de 2002. Não pelo domínio da Ferrari e de Schumacher, mas pelo fato de uma ex-namorada que me deixou e por ter tido um problema de saúde que fez um padre ter entrado no meu quarto no hospital falando ‘em se aproximar de Deus’…

Seja no lado bom ou ruim da história desses dois períodos, havia pontos interessantes a se destacar. Para quem viveu aqueles momentos, sabe que nem tudo era um mar de rosas e também nem tudo era horrível. Todo fã de F1 tem rasgos de nostalgia e sempre preferem outros anos do que o atual, muitas vezes se esquece de curtir o presente em que, não raro, há momentos melhores do que o seu período preferido.

Em 2016, a F1 entrou em seu terceiro ano do motor híbrido V6 e ainda há um clamor pela volta dos motores V10 ou V8. Nas redes sociais, não faltam vídeos on-board da época dos V10 e nos comentários há frases do tipo: isso é F1.

Tirando o som, que no caso dos V8 e V10 é infinitamente mais bonito do que o atual V6 híbrido, pouco se comentou que nas duas primeiras corridas do ano, recordes de 2004 (motor V10 aspirado) foram batidos pelos motores atuais.

Sim, amigos, pelo menos em ritmo de classificação, os motores V6 híbrido estão mais rápidos do que os V10 aspirados. Sem contar que há doze anos havia guerra de pneus, fazendo com que Michelin e Bridgestone fabricassem pneus muito mais aderentes dos que os atuais pneus da Pirelli.

Por causa da restrição de apenas 100 litros de combustível por carro hoje em dia e do fato de haver reabastecimento em 2004, o ritmo de corrida ainda é muito mais lento do que doze anos atrás. Mas só agora que o ritmo lento de corrida é um problema na F1?

“O sistema atual, que limita o consumo de gasolina, é castrante. Acho que um piloto de GP não deve se preocupar com o tanque de combustível, mas, sim, em acelerar o máximo possível”. Essa frase poderia ter sido cunhada por Fernando Alonso, que vive reclamando da suposta lentidão da F1 atual, mas foi dita por Alain Prost após vencer o famoso Grande Prêmio de San Marino de 1986, em que recebeu a bandeirada sem gasolina. Alguém se atreve a dizer que a mítica temporada de 1986 tinha carros lentos?

Uma mudança de regulamento trinta anos atrás fazia com que os pilotos tivessem que andar num ritmo bem mais lento na corrida em comparação à classificação. Bem parecido com o que ocorre agora…

Outro elemento criticado veementemente pelos fãs da F1 é o DRS, a asa traseira móvel. Elemento trazido para aumentar as ultrapassagens (algo que os fãs da categoria imploravam quando o DRS foi introduzido em 2011), o dispositivo é bastante questionado por trazer um quê de artificialismo à F1 atual. Porém, o DRS ou algo parecido, é inédito na história da F1?

Nos decantados anos 1980, no cockpit dos carros havia a alavanca de pressão do turbo, que aumentava ou diminuía a cavalaria e o consumo nos potentes carros de então. Resumindo, se um piloto precisasse ultrapassar alguém, seja um retardatário ou um rival na pista, ou precisasse melhorar seu tempo, bastava aumentar a pressão do turbo. Se o caso fosse poupar o carro ou combustível, bastava diminuir a pressão do turbo nessa alavanca mágica. Ou seja, para se ultrapassar 30 anos atrás, algumas vezes os grandes pilotos da época se valiam de um botão para ajuda-los.

Alguém chamava isso de artificialismo?A diferença é que nos anos 1980, quem gerenciava o aumento ou diminuição da pressão do turbo dentro do cockpit era o próprio piloto, usando o seu feeling, pois se corressem com a pressão do turbo muito alta a corrida inteira, uma hora a conta chegaria na forma do turbo estourado e abandono na certa.

Hoje, a forma de se utilizar o DRS, somente numa parte da pista e com o piloto menos de 1s atrás do outro, dá um quê de artificialismo, mas dando um número X de oportunidades de uso do DRS (como é feito na Indy, que inspirou essa ideia com o push-to-pass) para o piloto, deixando-o utilizar quando quiser, proibindo qualquer intervenção via rádio, seria muito mais interessante. E parecido com trinta anos atrás.

Há uma espécie de memória seletiva dos fãs da F1 hoje em dia. Existe um vídeo no YouTube datado de 1993, onde Nelson Piquet dá uma entrevista a Jô Soares falando dos seus ‘bons tempos’, onde os carros quebravam mais, as corridas eram mais emocionantes e não havia um domínio tão forte de uma equipe. Sim, estou falando de 1993. Não 2003 ou 2013.

Vinte e três anos atrás se reclamava de que as corridas estavam chatas e do domínio avassalador da Williams de Alain Prost. Algo parecido com hoje. Porém, todos gostam de lembrar-se de 1993 como um grande ano, de Prost conquistando o seu último título, de Senna fazendo, talvez, seu melhor ano na carreira, de Michael Schumacher surgindo como um futuro campeão e até mesmo Damon Hill conseguindo três vitórias consecutivas praticamente como novato, além de grandes corridas e onde tudo era bom na F1.

Quem viveu aqueles anos, sabe que não era totalmente verdade, que havia a sensação de que Prost só vencia porque tinha disparado o melhor carro e se cobrava os dirigentes para uma F1 menos chata. Um ano antes, Ayrton Senna resmungava numa entrevista, mostrado no seu ótimo documentário, que a F1 estava se tornando uma competição entre engenheiros e a máquina estava se tornando mais importante do que os pilotos. Lemyr Martins dizia praticamente a mesma coisa numa reportagem sobre os grandes pilotos da F1 numa matéria de… 1978, na Revista Placar!

Basta assistir uma corrida nos últimos trinta e cinco anos para lembrarmos o que havia de bom e ruim na F1. Assim como acontece hoje. A F1 vive uma crise de gestão preocupante e parece não saber quem desate os nós criados pelos contratos feitos entre Bernie Ecclestone e as equipes. A Sauber está quebrando e o dono da Force India, Vijay Mallya, nem pode voltar ao seu país de origem, pois pode ser preso por causa das enormes dívidas.

Porém, apesar do domínio da Mercedes, a F1 começou 2016 com ótimas corridas. Quando nos lembrarmos dos ‘bons tempos’ de trinta, vinte e cinco anos atrás, nos esquecemos de que em 2007, 2008, 2010 e 2012, houve finais de campeonato eletrizantes, decididos na corrida final e de forma surpreendente.

Sim, a F1 de hoje pode nos trazer tanta emoção quanto nos anos 1980 e 1990. Assim como mostrar os problemas que afligia essa mesma época da F1. Somos realmente chatos e é bem provável que daqui a quinze anos, em 2031, nos lembraremos com saudades dos tempos de Hamilton, Vettel, Alonso, Button, Rosberg, Massa…

Um abraço,

JC Viana

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