Indianápolis 1992 – Um verdadeiro filme de guerra

Se as 500 Milhas de Indianápolis de 1973 foi a mais mortífera, a 76º edição realizada no dia 24 de maio de 1992, foi a mais acidentada. Nada menos que 13 batidas aconteceram no domingo e outros ainda mais sérios nos treinos, mostrando que algo estava muito errado naquele ano.

Ah, os anos 90! Se a economia brasileira já estava um caco (foi o ano do impeachment de Collor) o automobilismo estava no auge, com uma combinação fantástica de tecnologia, liberdade e competitividade. A Fórmula Indy, então, vivia a sua melhor fase. Tínhamos Ayrton Senna campeão na Europa e Emerson Fittipaldi como um dos favoritos na América. Não havia como não gostar de corridas naquela época.

Apesar disso, o clima não estava quente e sim muito frio naquele mês de maio no Indianápolis Motor Speedway. Não chovia, mas a temperatura ambiente não passava dos 15 graus, o que estava dificultando o aquecimento dos pneus. Para complicar ainda mais, a Goodyear havia preparado pneus duros demais para a lendária prova, o que dificultava a aderência. O resultado dessa combinação não demorou a aparecer.

Ainda na primeira semana de treinamentos, Jim Crawfort e Roberto Guerrero se estabeleceram como os mais velozes. Ambos tinham chassis Lola com poderosos motores Buick V6. Logo no primeiro dia, Crawfort quebrou o recorde ao fazer uma volta em 229.609 mph. Os estreantes eram Paul Tracy, Jimmy Vasser, Lyn St. James e o tricampeão de Fórmula 1, Nelson Piquet.

Apesar de falar mal do automobilismo estadunidense durante toda sua carreira, Piquet estava a fim de novos desafios naquele começo de década e topou o convite de John Menard para participar da Indy 500. E o tricampeão vinha se saindo bem, ficando cada vez mais a vontade no carro. Enquanto a velocidade aumentava gradativamente (Guerrero foi o primeiro a bater a marca de 230 mph) Piquet era o melhor rookie, em sexto lugar.

A essa altura, Fabricio Barbazza, Scott Brayton, Buddy Lazier e Paul Tracy já haviam sentido de perto a “dureza” do muro de Indianápolis, felizmente sem grande gravidade. No entanto, na quarta-feira, 6 de maio, o mundo estremeceu com a porrada aterrorizante de Rick Mears.

O americano da Penske, que defendia sua coroa de campeão foi traído por um vazamento de radiador, que espirrou líquido de arrefecimento por cima da roda traseira. Descontrolado, o carro foi direto para a parede, capotando graciosamente no meio da pista.

Apesar do grande susto, Mears sofreu apenas uma pequena fratura no pé e uma lesão no pulso. Entretanto, isso não o impediu de continuar treinando. As coisas não seriam tão felizes para Nelson Piquet, no dia seguinte, 7 de maio.

Enquanto saia da curva quatro, o Lola-Buick do brasileiro girou violentamente a 360°, ângulo que o colocou de cara contra o muro de concreto a mais de 300 km/h. A energia despejada foi tão intensa que arrastou o carro por mais 500 metros e foi sentida por Emerson Fittipaldi que estava dentro de seu carro, nos boxes. Piquet teve as duas pernas seriamente esmagadas, sendo levado imediatamente para o hospital metodista de Indianápolis.

“Estava dentro do cockpit do meu carro e escutei o Nelson batendo. Estava do lado de Roger Penske e perguntei: ‘Quem bateu?’ E ele me respondeu: ‘Nelson’. Aí me deu um gelado porque, para eu escutar a pancada, estando de capacete, logo pensei: ‘Nossa, foi muito forte’. Saí correndo e fui até o Nelson, que estava em uma dificuldade muito grande, com ambulância e tudo. Fui uma experiência de muita aflição, tanto para mim, quanto para ele e para a família.” (Emerson Fittipaldi)

Piquet levaria mais de um ano para se recuperar totalmente desse acidente, que acabou se tornando o mais sério de sua carreira. Seu lugar na equipe Menards foi ocupado pelo lendário Al Unser, que ainda conseguiu se classificar em 22º lugar no grid de largada.

O drama, no entanto, ainda estava longe de terminar. No final da segunda semana de treinos, em 15 de maio, foi a vez de o novato Jovy Marcelo escorregar na saída da curva 1. A batida no muro não pareceu muito forte, mas o filipino sofreu um grave traumatismo craniano, o que impossibilitou a equipe de resgate de tentar qualquer coisa. O piloto foi declarado oficialmente morto, logo depois. Foi a primeira morte no desde Gordon Smiley em 1982.

httpv://youtu.be/YLV-selI4zY

Não era só com acidentes fatais que os pilotos se preocupavam. Scott Goodyear, por exemplo, não conseguia fazer o Lola-Chevrolet correr como deveria. Com problemas na pressão de óleo, o canadense estava fora da corrida e via seu companheiro de equipe, Mike Groff (que usava um defasado chassi de 1991) se classificar sem problemas.

Mas, como se sabe, Indianápolis tem (ou tinha) todo um regulamento próprio. Quem se classifica, na verdade, é o carro e não o piloto. Usando essa regra, o chefe da equipe, Derrick Walker não pestanejou em mandar Groff para casa e colocou o mais experiente (e primeiro piloto) Goodyear em seu carro. Mas, como consequência, o canadense teria que largar do 33º e último lugar. A pole position ficou mesmo com Roberto Guerrero, que fez uma média de 232.482 mph.

Fazia apenas 10 graus centígrados no dia da corrida, 24 de maio de 1992. Isso, contudo, não importava para Guerrero. Depois de comer o pão e o diabo amassou na Fórmula 1 e ficar 17 dias em coma após um sério acidente em 1987, finalmente o colombiano vivia seu grande dia de glória ao liderar o pelotão nas voltas de aquecimento da Indy 500. Talvez tomado pela emoção, o piloto esqueceu-se de que os pneus ainda estavam frios e, ao acelerar mandou seu carro direto para fora da pista, antes mesmo da largada!

httpv://youtu.be/bgEOjxzrR10

A cena na foi digna de um filme pastelão. Guerrero rodou para o lado interno, batendo de leve no muro. Ele ainda conseguiu voltar desajeitadamente para os boxes apenas para constatar que não dava para continuar. Quase que para amenizar sua vergonha, o rookie Phillipe Gache também rodopiou na volta de apresentação, evidenciando o perigo dos pneus duros em uma pista tão fria.

A liderança acabou com o popularíssimo Eddie Cheever, mas quando as bandeiras verdes foram agitadas, quem disparou na ponta foi Michael Andretti. O norte-americano estava atrás de seu pai Mario na segunda fila, mas assaltou a primeira posição e foi embora, ditando o ritmo por muitas voltas.

O vencedor de 1983, Tom Sneva foi o responsável por inaugurar o festival de porradas que seria aquela corrida. Na volta 68, Gache rodou de novo, dessa vez para bater forte. O carro deslizou no caminho de Stan Fox que não conseguiu evitá-lo. Na volta 75, Jim Crawford perdeu o controle, levando junto Rick Mears e Emerson Fittipaldi.

httpv://youtu.be/YKrzzkm76rk

Na 84º passagem, a bandeira verde foi acionada novamente, mas apenas por poucos segundos. A próxima vítima dos pneus frios foi o campeão de 1969, Mario Andretti, que rodou e bateu de frente no muro. Depois dos acidentes de Jimmy Vasser e Brian Bonner, foi a vez de seu filho, Jeff Andretti dar uma volta na ambulância, sem dúvida o veículo mais frequentado do mês.

Com um cubo de roda quebrado, o acidente de Jeff foi muito semelhante ao de Nelson Piquet. O piloto sofreu uma concussão e multiplas fraturas nas pernas e pés, que praticamente encerrariam sua carreira. Na esteira do acidente, o lendário Gary Bettenhausen também ficou de fora, sem conseguir evitar os destroços. Emerson Fittipaldi recorda em seu livro “Uma Vida Em Alta Velocidade”:

“Tive que ir para o hospital na mesma ambulância de Mario Andretti. No hospital, havia tantos pilotos sendo atendidos que mais parecia um filme de guerra, com os feridos deitados em macas, aguardando atendimento. Devia haver uma dúzia de pilotos à minha volta. Depois de liberado, assisti ao final da corrida no quarto de Nelson Piquet.”

Depois de tantos acidentes, apenas 15 carros continuavam na prova, somente cinco na mesma volta. Eram eles, Michael Andretti, Al Unser Jr, seu pai Al Unser, Eddie Cheever e Scott Goodyear que escapara incólume dos destroços e agora vinha em quinto, com seu carro rendendo muito bem.

Por direito, essa corrida pertencia a Michael Andretti. O campeão de 1991 havia liderado 160 das 200 voltas e era indiscutivelmente o piloto mais rápido da pista. No entanto, com problemas na bomba de combustível, o norte-americano precisou encostar o seu Lola-Chevrolet (da saudosa equipe Newman-Haas) quando restavam apenas 12 voltas para o final. Al Unser Jr assumiu a ponta.

O pilotando o Galmer-Chevrolet G92 da equipe Galles, “Little Al” vinha fazendo uma prova discreta e eficiente, mas sua tranquilidade acabou quando começou a sentir a presença de Scott Goodyear cada vez maior em seus retrovisores. O canadense agora voava miraculosamente na pista, apesar de quase ter ficado de fora da prova. Depois de superar Cheever e Al Unser sênior com facilidade, o piloto partiu em busca da liderança.

As últimas voltas foram frenéticas. De repente, Al Unser Jr precisou usar tudo o que aprendera em 10 anos de Fórmula Indy para conter Goodyear. O canadense tinha um carro mais veloz nas curvas enquanto Little Al se segurava nas retas. E assim os dois levantaram o público nas voltas finais.

Ao abrirem a última volta, Goodyear tentou uma última cartada, caprichando no contorno das curvas para conseguir pegar o vácuo de Al Unser Jr na reta de chegada. Quando eles já avistavam a bandeirada quadriculada, o canadense tirou para ultrapassar, mas não havia mais tempo. A diferença que os separou ainda é a menor de todas as chegadas da Indy 500: míseros 0.043!

httpv://youtu.be/mtiGra-pj5c

Após vencer sua primeira Indy 500, Al Unser Jr não conseguia disfarçar a emoção quando foi entrevistado pelo repórter da ABC, Jack Arute. Quando este apontou lágrimas na voz, Little Al respondeu: “Bem, você simplesmente não sabe o que significa Indy!” A frase virou tema de abertura da emissora nos anos seguintes. Mais do que isso, definiu o que significava a Fórmula Indy nos anos 90.

Até a próxima!

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