Síndrome de zebra

Diz aí, caro leitor, você conseguiu ver ao vivo o GP do Canadá?

A pergunta se justifica, não apenas pelo fato da corrida não ter sido transmitida em tevê aberta aqui no Brasil, mas principalmente por ser esta uma tendência para o futuro, que diversas vezes já antecipamos aqui mesmo, no bom e velho GPtotal. A rigor, já faz tempo que a audiência entregue pela categoria não mais justifica sua transmissão pela Globo, nem mesmo num horário “morto”, como são as manhãs de domingo. Comercialmente, no entanto, a categoria ainda se sustenta na grade graças aos polpudos pacotes publicitários fechados anualmente, com inserções previstas em noticiários de horários mais nobres. A F1, portanto, tornou-se – quem diria! – uma espécie de mal necessário, um pretexto para a continuidade de parcerias comerciais que envolvem enormes interesses, tanto de quem compra quanto de quem vende.

Ocorre que, mais recentemente, o próprio mercado de tevê por assinatura viu crescer sobre si a inevitável sombra dos serviços oficiais de streaming e das páginas de vídeos na internet, a ponto de tentarem, através de poderoso lobby, limitar a circulação de dados na rede. Uma briga que, aliás, ainda não terminou. Eis, portanto, que o próprio futuro da tevê por assinatura como a conhecemos é cheio de incertezas, gerando a perspectiva de eventuais limitações estruturais no caminho da já enfraquecida relação entre o evento F1 e o público brasileiro.

Por fim, há que se observar com certa frustração que a pontual migração para a tevê por assinatura não significou, ao menos neste episódio, uma transmissão mais aprofundada e abrangente, como seria de se esperar. Mas não é o momento de nos aprofundarmos nesse assunto.

Para quem não viu, Lewis Hamilton conquistou sua segunda vitória consecutiva (a quinta em Montreal em dez participações), e de quebra reduziu a desvantagem em relação a Nico Rosberg para apenas nove pontos, dando a impressão de que uma inversão de posições entre os pilotos da Mercedes é questão de pouco tempo.

O 45º triunfo do inglês começou a ser construído ainda na classificação, com uma pole position (a 54ª de sua carreira) aparentemente superestimada pela crítica, ao fim de uma volta que não conseguiu empolgar o próprio piloto. Nico Rosberg e Sebastian Vettel ficaram logo atrás, separados por menos de 0,2s, e desde o início parecia muito claro que, mais uma vez, a briga pela vitória ficaria restrita a esses três nomes.

A Ferrari de Vettel ter saltado melhor do que as Mercedes ao apagar das luzes vermelhas não chegou a ser uma surpresa, mas sim a intensidade com que esta vantagem se manifestou nos poucos metros que separam o grid da Curva 1 em Montreal. Sem dar a menor chance de defesa aos adversários o tetracampeão posicionou-se na liderança, e ainda tirou proveito de nova disputa fratricida entre os prateados, que terminou em toque de rodas e com Rosberg – que largou ligeiramente melhor que Hamilton – saindo da pista e caindo para a décima posição.

Com pista livre à frente Vettel imprimiu um ritmo fortíssimo na tentativa de sair da zona do DRS, apenas para perder a freada na última chicane e jogar fora toda a vantagem que havia construído. Não seria seu único erro neste ponto do circuito, numa reincidência que pode ter custado suas chances de vitória.

Apesar do erro na primeira passagem, Vettel ainda teve forças para se manter na liderança até a 11ª volta, quando o abandono de Jenson Button proporcionou a intervenção do safety car virtual e a Ferrari optou por chamar seus dois pilotos aos boxes – não para utilizar os obrigatórios pneus macios, mas sim para arriscar um stint de puro ataque com borracha super macia, numa opção por fazer duas paradas.

Olhando em retrospectiva, a decisão traiu toda a síndrome de zebra que contaminou os italianos, após tanto tempo sem entregar um desempenho que pudesse lhes render algum favoritismo. Mesmo na liderança e com ritmo virtualmente idêntico ao de Hamilton, o time assumiu a condição de azarão, apostando todas as suas fichas numa estratégia diferente do adversário, como que aceitando que bastaria ao inglês antecipar sua parada para recuperar numa volta de pista livre a liderança de maneira definitiva.

Errou a Ferrari? Impossível saber ao certo. De fato, uma troca em Montreal durante período de safety car virtual representa prejuízo pequeno demais para ser desconsiderado – basta observar que Vettel retornou à pista na quarta posição, pouco mais de 11 segundos atrás de Hamilton, com a vantagem de ter um jogo de pneus a mais para gastar numa prova em que este sabidamente seria um fator crítico. Por outro lado, partir para uma tática alternativa quando se desfruta de uma liderança sólida é assumir riscos que só se justificam a quem não tem – ou não acredita ter – condições de vencer sob condições normais.

Ainda assim, não dá para dizer que a cabisbaixa tática ferrarista foi, sozinha, responsável pela definição do vencedor. A 14 voltas da bandeirada Vettel encontrava-se a apenas 4,2s do líder, com 13 voltas a menos em seu jogo de pneus, descontando a vantagem lenta, mas paulatinamente… Até voltar a errar na chicane final, perdendo quase três segundos no processo. Livre de pressão, Hamilton fazia nesta altura suas melhores voltas na corrida, enquanto Vettel, já guiando muito acima do limite, voltaria a errar uma terceira vez no mesmo ponto, enterrando de vez suas chances de vitória.

Sem chances de acompanhar os dois líderes, Bottas conquistou a terceira posição ao ser rápido o bastante para capitalizar as paradas extras de Verstappen, Ricciardo e Räikkönen, e veloz o bastante nas retas para não ser ultrapassado nem mesmo por Nico Rosberg, enquanto fazia funcionar uma estratégia de apenas uma troca de pneus. Massa, por outro lado, penou ao volante de um carro privado da mais recente especificação aerodinâmica desde que se acidentou na primeira sessão livre, e acabou abandonando na 37ª volta por determinação da equipe, logo após superar a Force India de Nico Hülkenberg. O motivo? Preservar o motor, que vinha superaquecendo. O tipo de economia que sempre me soará inadmissível numa categoria como a F1.

A quarta colocação de Verstappen foi tributária do lento furo no pneu traseiro direito que obrigou Rosberg a uma segunda parada, mas não apenas isso. Afinal, a sete voltas do fim, o líder do campeonato alcançou novamente o vencedor mais jovem da categoria, e mesmo com toda a cavalaria da Mercedes não foi capaz de concretizar a ultrapassagem. No momento decisivo, ao fim da penúltima volta, Nico chegou ao extremo de rodar pela área de escape quando tentava uma manobra por fora. Mais 12 pontos para o jovem Max, que ainda no início da corrida novamente ignorou um pedido pelo rádio para que deixasse seu companheiro de equipe passar.

Tendo descontado 34 pontos nas duas últimas etapas, Hamilton precisou de menos de 600Km para pulverizar todo o momentum que Rosberg havia acumulado ao fim de sete vitórias consecutivas. A vice-liderança no mundial parece agora uma condição não mais que temporária, deixando em aberto a grande questão que pode muito bem ditar os rumos deste estranho campeonato de 2016: o que, afinal, aconteceu dentro dos boxes da Mercedes entre os GPs da Espanha e de Mônaco, que possa explicar a passividade de Rosberg ao entregar a posição no Principado ao seu maior adversário, no ano em que reuniu as melhores (únicas?) chances de se sagrar campeão?

Como entender tamanha subserviência no momento em que deveria proteger o sonho de uma vida? Conseguirá Nico se tornar o primeiro piloto a perder um mundial, tendo vencido as quatro primeiras corridas do ano? E a decepção, claro, não se restringe a Rosberg, uma vez que Lewis permitiu – entre problemas, erros e atuações desmotivadas – que o companheiro de equipe emendasse a terceira maior sequência de triunfos em toda a história. Algo que dificilmente outro tricampeão teria permitido, com equipamento idêntico.

Vencido o primeiro terço do mundial, a situação é mais ou menos essa: ou Rosberg entrará para a história como um dos maiores bananas na história da categoria, ou teremos novas brigas fratricidas muito em breve.

Uma ótima semana a todos.

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