Suzana não há mais

Suzana Herculano-Houzel não reside e trabalha mais no Brasil. Cansada de lutar contra as adversidades, nossa cientista mais reconhecida internacionalmente cedeu ao convite de uma universidade americana e para lá mudou-se com a família. É um desfalque incalculável para o time da ciência brasileira, já bastante habituado a perder de 7 a 1.

A contribuição mais notável até o momento de Suzana ao conhecimento humano é de um brilho e simplicidade de que só uma mulher seria capaz: interessada em saber com precisão quantos neurônios compõem o cérebro, ela criou um método de fatiamento do órgão e sucessiva liquefação do material, preservando os núcleos celulares, depois contados em amostras com auxílio de microscópios comparativamente baratos. O método desenvolvido por ela é tão simples que, em uns quinze minutos, é capaz de afirmar com elevada precisão quantos neurônios têm um cérebro.

Ocupando um espaço físico minguado na UFRJ e consumindo um orçamento risivelmente pequeno, em dez anos de trabalho, Suzana e seus parças no Naco – Laboratório de Neuroanatomia Comparada – mapearam os neurônios de mais de cem espécies e deram uma contribuição gigante num dos campos mais nobres do conhecimento e onde éramos assustadoramente ignorantes.

Além de cientista de gênio, Suzana é escritora inspirada e registrou a sua decisão de emigrar em texto para a revista Piauí de maio. Lá, conta a seguinte história: estava ela discutindo com colegas de departamento da UFRJ os resultados de uma avaliação de desempenho encomendada a colegas de outras instituições de pesquisa. “A intenção”, escreveu Suzana, “era a melhor possível: identificar maneiras de fazer nosso Instituto crescer em qualidade e se tornar uma referência nacional”.

A maioria dos pesquisadores do departamento foi mal avaliada, ainda que alguns tenham merecido distinção de excelência. Na discussão com os colegas, Suzana opinou onde o departamento deveria concentrar seus investimentos. “Como entendia que o intuito era melhorarmos a qualidade da produção científica do Instituto, comentei que seria ótimo que se investisse naqueles pesquisadores considerados excelentes, por exemplo, perguntando a eles o que poderia ser feito para lhes garantir condições melhores de trabalho”. Mas ouviu prontamente como resposta de uma colega: “pelo contrário, devemos investir nos fracos e medíocres”.

Em poucas palavras Suzana resumiu um drama que, mais do que a ciência brasileira, perpassa o país e o mundo: vamos andar no passo dos mais rápidos ou, como Ló fugindo de Sodoma na velocidade do passo dos seus gansos, no dos mais lentos?

No esporte, esta dúvida foi ultrapassada sem sutilezas: citius, altius, fortius, os lentos, inferiores e fracos que mordam o pó. Já imaginaram se, na F1, as equipes tivessem de nivelar seu desempenho pela Manor e por Rio Haryanto e não pelo da Mercedes e por Nico Rosberg?

Pois é bom imaginar. Durante o GP da Espanha, a FIA comunicou que deve adotar a partir de 2017 medidas de “convergência de desempenho” dos motores se, após os três primeiros GPs do ano, identificar que um deles supera a oposição em três décimos de segundo ou mais por volta.

A entidade não detalhou que medidas seriam estas mas informou que, como detém controle total sobre o desempenho dos motores, graças às centrais eletrônicas homologadas por ela, terá segurança para verificar a superioridade de um motor. A partir daí, pode adotar medidas técnicas (como limitação de consumo de combustível, giros etc.) ou esportivas (imposição de um lastro para o carro).

Não tive notícias, depois disso, de novos avanços nas conversas e, pela gangorra de decisões na categoria, pode ser que o assunto não vá à frente, como tantos outros discutidos nos últimos anos.

Se a medida for adotada como já o foi em várias outras categorias do automobilismo, será um duro revés para o fundamento número 1 da F1, a premiação do máximo mérito técnico e esportivo (vejam minha coluna de 13/8/12). Tal fundamento vem sendo vulnerado nos últimos anos, mas nunca de forma tão flagrante. Suzana perderá, de novo, sua queda de braço em prol dos melhores.

O que vale para a ciência e para o esporte não vale para a vida. A crueza desta opção é evidente quando transborda para a sociedade: a prevalência dos mais fortes significa fome, sofrimento e iniquidade para muitos.

Suzana tem toda a razão em defender recursos para os pesquisadores mais capazes. Não se constrói excelência, progresso, desenvolvimento esperando pelos mais fracos, pelo menos não neste universo. Precisamos de Suzana, de Nico e de outros fortes mas esperar pelos mais fracos é a distinção maior da civilização, distinção que merece ser cultivada com todo a atenção.

O esporte pode contribuir na busca deste equilíbrio ainda tão tênue (numa visão otimista). Há quem compara o esporte a uma guerra sem ou com pouco sangue, um teatro que, com suas regras e campo definidos contribui para mitigar o instituto violento do homem, propondo um comportamento mais civilizado fora dos campos, quadras, pistas etc. Esporte deve ser sinônimo de fraternidade, a melhor forma encontrada até hoje para equilibrar liberdade e igualdade, fortes e fracos.

Nossa única certeza na matéria é que o equilíbrio demorará muito ainda a ser encontrada por esta pobre humanidade mas vale a pena lembrar disso enquanto pensamos na próxima corrida, partida ou disputa por medalhas. Talvez valorizemos tanto o esporte exatamente porque ele nos reserva um espaço civilizado para que honremos os mais fortes sem oprimir os mais fracos.

O fato de Suzana desistir do Brasil (ao menos no momento) acrescenta um toque triste a uma situação geral bastante desanimadora e remete a outro texto de Piauí de maio, este assinado pelo cientista político César Benjamim, do qual transcrevo trecho:

“A dimensão de longo prazo da crise atual é ainda mais grave: o sonho do Brasil-nação, que floresceu no século XX, pode estar terminado ou, pelo menos, sendo colocado em suspenso por um longo tempo. Presos em nosso labirinto de mediocridade, incapazes de realizar um esforço endógeno minimamente coerente, desprovidos de forças nacionais inovadoras, caminhamos para estacionar em nosso lugar natural no sistema mundo, a da mais extrema periferia”.

César até vai à frente, atribuindo as parcelas de culpa aos atores políticos nesta tragédia. Prefiro não enveredar por aí, por considerar que a democracia começa e termina em cada cidadão e que os problemas brasileiros são, não da classe política – por mais que ela se esforce para tanto –, mas de todos nós, sociedade, e nossa crônica incapacidade de convergir para um caminho menos penoso, que produza uma cidade, um país e mundo menos difícil para minha neta, para meus sobrinhos, para todas as crianças e jovens deste mundo.

Eduardo Correa

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