O sombra

Metade de campeonato, dois pilotos brigando ponto a ponto pela liderança com direito a toques em 30% das corridas disputadas, a qualidade de ambos atestada pelo fato de um deles ser o terceiro maior vencedor na história da F1. No papel, a temporada 2016 é um sucesso.

Na prática, no entanto, a história é diferente, e muitos aspectos têm sido apontados como culpados pela incapacidade da atual F1 empolgar novos e antigos fãs. Pistas pasteurizadas; regulamento esdrúxulo; carros pesados, mudos e insípidos; pilotos sem carisma, e por aí vai. A esses tópicos acrescento outro, que parece ser decisivo para o descrédito da atual corrida pelo título junto ao público: a absoluta (e contagiosa) opacidade de Nico Rosberg.

Completamente desprovido de brilho, da mínima centelha que seja, o grande problema de Rosberg é que ele é melhor do que parece. Rápido, consistente e de poucos erros, Nico é certamente mais eficiente do que seu velho pai já foi, numa análise mais abrangente. Ainda assim, a comparação direta com seu genitor apenas reforça a personalidade que lhe falta ao volante, e que Keke esbanjava desde o bigode a manobras como a apavorante derrapagem controlada na Eau Rouge em 1983, o vigoroso 360º na primeira volta em Long Beach no mesmo ano, as brigas com Senna em Brands Hatch e Adelaide 1985, e a linda ultrapassagem dupla sobre Berger e Senna em Hockenheim 1986, entre tantas outras.

Assim, da mesma forma como o talento pulsante de Keke sempre mascarou suas imperfeições profissionais e valorizou sobremaneira o domínio que Alain Prost lhe impôs em 1986, a eficiência discreta e insossa de Nico lançou uma inegável sombra sobre os três anos da segunda passagem de Michael Schumacher pela F1, e faz o mesmo sobre os melhores anos da carreira de Lewis Hamilton.

A partir do momento em que pilotos são – e serão sempre – referências para análises, comparações e cruzamentos de dados entre si, poder-se-ia dizer que a performance fosca de Nico é um grande desserviço prestado à sua geração. Um célere e faminto buraco negro a engolir o brilho de seus pares e a distorcer nossa compreensão sobre seus suados e competitivos tempos de volta.

Apesar de todas as mudanças de traçado (e nos carros) que nos privaram, por exemplo, de ver máquinas e pilotos vergando os limites da coragem e da Física enquanto controlavam derrapagens na Woodcote a duzentos e tantos quilômetros por hora (busquem, por exemplo, imagens do GP de 1973 na internet), Silverstone continua a ser aquilo que poderíamos chamar de um autódromo de catálogo.

Pista larga, plana, repleta de curvas de média e alta. Fácil apenas na aparência, ela exige características fundamentais ao automobilismo antes de escolher a quem entregará tempos competitivos. Sobretudo ousadia e técnica, especialmente no que diz respeito à capacidade de encontrar o melhor equilíbrio dinâmico, que permita carregar o máximo de velocidade às curvas sem perder demais nas diversas retas.

Justamente por representar a essência do que deveria ser o automobilismo – a regra, e não a exceção – nenhum piloto pode almejar ser campeão do mundo se não for capaz de virar bons tempos em Silverstone. As três vitórias seguidas de Hamilton em seu GP caseiro, portanto, só podem ser compreendidas como um considerável lastro de legitimidade aos títulos que conquistou no mesmo período.

O mesmo, claro, pode ser dito a respeito da volta que lhe valeu a pole position, ainda que aqui sejam inevitáveis os questionamentos a respeito do papel desempenhado pelas generosas áreas de escape atuais. Coisa mais ridícula essa ideia de uma pista delimitada por linhas brancas que podem ser desrespeitadas por duas das quatro rodas, e não mais do que isso, sob pena da anulação do tempo obtido.

Saudades do tempo em que os limites do traçado deveriam ser respeitados pelo simples fato de que, em caso de exagero, o piloto iria abandonar ou se acidentar, e a ousadia que citei acima tinha relação direta com o destemor. São esses exageros, enfim, que tornam desnecessariamente impopular a tão importante busca por segurança.

O caso das linhas brancas, contudo, torna-se brando se comparado à repugnante largada sob a chancela do carro de segurança. Uma prática que, conforme bem lembrou meu irmão Lucas Giavoni, se fosse mais antiga teria eliminado da história episódios como Donington 93 ou Hungria 06, entre tantos outros.

A situação nitidamente incomoda os próprios pilotos, a ponto de Lewis Hamilton quase – quase mesmo – ter entrado com bola e tudo na traseira do Pace Car. Sobre o episódio, peço licença para reproduzir, em tradução livre, as palavras publicadas pelo ex-piloto Vic Elford. “Meu deus, e eu que pensava que correr na chuva ajudava a separar os homens dos meninos… Agora Já não é mais assim. A pista estava tão seca quando o carro de segurança se foi, que todos os pilotos tiveram que ir aos boxes para se livrar dos pneus de chuva! Pelo que eu vi, existem apenas dois corredores em todo aquele grupo de fingidos: Hamilton e Verstappen. Acho que vou começar a assistir partidas de badminton. Lá existe sempre a chance dos jogadores serem atingidos pela peteca. Isso sim é assumir riscos dramáticos!”

Mas enfim, após as cinco voltas perdidas atrás do carro de segurança, todos os pilotos rumaram aos boxes divididos em três levas distintas, em cada uma das três primeiras voltas da corrida de fato.

As posições não sofreram grandes alterações no processo, apesar da ligeira vantagem obtida pelos últimos a parar (Hamilton, Rosberg e Verstappen incluídos), graças ao safety car virtual motivado pelo abandono de Pascal Wehrlein.

Quando os pelotões se estabilizaram, a ordem era: Hamilton, Rosberg, Verstappen, Pérez, Ricciardo, Räikkönen, Sainz, Massa, Bottas, Hülkemberg, Alonso, Vettel, Kvyat, Button, Nasr, Grosjean, Palmer, Magnussen, Ericsson, Haryanto e Gutiérrez.

A primeira posição de Hamilton jamais foi ameaçada de fato, dando a impressão de que teve sempre a corrida sob controle. Ainda nas voltas iniciais seu ritmo foi forte o bastante para permitir que as duas Mercedes trocassem os pneus na mesma volta, sem que Rosberg tivesse que esperar pela troca do companheiro.

A grande disputa, a rigor, foi entre Nico e Verstappen pela segunda posição, e durou até quatro horas depois da bandeirada. Entregando desempenhos parecidos ao longo de toda a prova, Verstappen mostrou-se mais forte no molhado, a ponto de concretizar uma linda ultrapassagem por fora sobre o rival, ao passo que Nico era ligeiramente mais rápido no seco e fez bom uso da trágica asa móvel para recuperar o segundo posto.

O resultado, todavia, seria alterado após a prova, graças ao (correto) entendimento de que a Mercedes teria passado ao piloto informações proibidas sobre gerenciamento do equipamento, quando o câmbio passou a travar na sétima marcha durante o processo de redução. Com a decisão de punir Rosberg em 10s ele caiu para a terceira posição, deixando Hamilton a apenas um ponto na corrida pelo título.

Outro aspecto de interesse na prova foi a curva Abbey, com uma traiçoeira poça d’água justamente localizada no ponto de frenagem, e um trilho bastante estreito para que os pilotos pudessem atacar em velocidade máxima. Não foram poucos os pilotos que se perderam por ali, fazendo uso na área de escape maternal que lhes era oferecida. Impossível não comentar também as atravessadas de Carlos Sainz, fazendo lembrar seu velho e genial pai em carros muito mais propícios às derrapagens controladas.

Quanto aos brasileiros, Massa até que fez uma corrida acima de sua média no piso molhado, tanto mais considerando as conhecidas deficiências da Williams para gerar downforce. Apesar de não ter feito nada de sensacional e ter terminado fora dos pontos, ao menos manteve um ritmo razoável e se manteve longe de erros grosseiros, fazendo muito melhor do que Bottas, por exemplo.

Nasr, por sua vez, teve atuação de muito mais destaque, chegando a figurar na quinta posição ao adiar sua primeira troca de pneus. O brasiliense, por sinal, parece político em época de campanha, e vem se esforçando nitidamente para mostrar serviços a chefes de equipe, pensando na continuidade da carreira.

Tenho evitado, sempre que possível, tecer comentários à transmissão que nos é oferecida, tanto em tevê aberta quanto no canal por assinatura. Bastaria dizer que minha postura seria diferente se tivesse elogios a fazer.

O áudio vazado pela repórter Mariana Becker, no entanto, é daqueles fatos que não pode passar batido. Apesar de que, depois de tanto fazer m… na transmissão, o xixi da loira pode até ser considerado algum avanço.

Forte abraço, e uma ótima semana a todos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *