1984, final

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Hockenheim, 5 de agosto

Se é que a terceira colocação em Brands Hatch ainda deixou margem para alguma dúvida quanto à enorme evolução do conjunto Toleman-Senna, o desempenho apresentado nas infinitas zonas de aceleração da antiga Hockenheim trataram de mostrar que algo de muito especial vinha acontecendo dentro daquela simpática garagem britânica.

Ayrton estreou o novo chassi 05 com o nono tempo nos treinos, a frente de conjuntos como a Ferrari de Arnoux, a Lotus de Mansell e a Williams de Rosberg. Um desempenho bastante decente, que iria melhorar para uma impressionante segunda colocação no warm up. Igualmente importante registrar que na medição de velocidade máxima o Toleman chegava a 337 km/h, ficando a apenas 5 km/h da McLaren de Lauda, o carro mais veloz do grid.

Na largada Senna pula bem e supera a Brabham de Fabi e a McLaren de Lauda antes mesmo da primeira curva. Logo em seguida, na freada para a primeira chicane, é a vez do Toleman deixar para trás a Ferrari de Alboreto. Era um daqueles inícios arrasadores do futuro tricampeão, que agora surpreendentemente partia à caça da Renault de Patrick Tambay, chegando a colocar duas rodas fora da pista na terceira chicane.

A manobra seria concretizada na segunda volta, demonstrando todo o valor do carro e do piloto. Carregando muito mais velocidade na 2ª chicane, Ayrton adotou uma abordagem mais fechada e de total ataque durante a Ostkurve, saiu do vácuo e mergulhou decididamente por fora na terceira chicane, coisa linda de se ver.

A julgar pelo desempenho que vinha entregando, Senna logo iria alcançar Warwick, com a mesma certeza com que seria ultrapassado por Lauda. Nada disso chegou a acontecer, contudo, pois o suporte do aerofólio não aguentou as vibrações causadas pelo excesso de giros do bravo motor Hart, conjugadas ao tremendo arrasto daqueles carros pós-efeito solo, e se rompeu ainda na quinta volta.

Zeltweg, 19 de agosto

Tendo sofrido nos treinos com um carro titular que era equilibrado mas perdia 300 rpm nas retas, e com um carro reserva que tinha o motor perfeito mas sofria nas curvas, Senna marcou apenas o décimo tempo nos treinos. Para a corrida, no entanto, as perspectivas eram bem melhores, uma vez que o time finalmente uniu o melhor motor ao melhor chassi.

Nem em seus melhores sonhos, contudo, Ayrton poderia ter imaginado uma largada tão boa. Tirando proveito dos problemas no carro de De Angelis que atrasaram todo o lado esquerdo do grid a partir da quinta posição, Ayrton saltou de 10º para 4º já na primeira chicane, muito à frente da Williams de Rosberg e colado na McLaren de Lauda. Tudo teria sido perfeito, não fosse pela bandeira vermelha que anulou todo o procedimento de partida, obrigando a novo alinhamento ao fim da 5ª fila.

Desta vez todos partiram bem, e Senna ainda levou uma tremenda espremida por parte de Mansell, que cortou todo seu (bom) avanço. Alboreto aproveitou o momento para superar o futuro tricampeão, que devolveu a manobra já na primeira freada da corrida. Ainda no primeiro giro Senna deixou Mansell para trás, e mais tarde faria o mesmo com De Angelis e Warwick, levando o troco por parte do piloto da Lotus.

O desempenho era competitivo, equivalente ao das JPS e das Renault, até o motor Hart abrir o bico na volta 35.

Zandvoort, 26 de agosto

As atividades da Toleman foram prejudicadas por um problema de ignição na sexta-feira e um motor estourado no sábado, de tal modo que Senna não conseguiu ir além da 13º posição no grid. Na corrida a situação melhorou um pouco, mas nada que pudesse repetir os desempenhos anteriores: andou em nono até ser traído pelo motor após 19 voltas.
De certa forma, o desempenho refletiu o péssimo clima na garagem da equipe. Tudo porque, de forma inesperada, a Lotus havia anunciado a contratação do brasileiro uma hora antes da corrida…

Interlúdio 4: Monza, 9 de setembro

Entendendo que Ayrton havia descumprido o 19º artigo de seu contrato, a Toleman o suspendeu no GP da Itália, em Monza, convocando para seu lugar o sueco Stefan Johansson. E, para piorar a situação do paulistano e deixar claro que não era apenas o piloto que vinha em grande forma, mas também o carro havia evoluído muito, Johansson completou a prova numa ótima quarta colocação.

Cabe salientar, contudo, que a equipe inscreveu um segundo carro para Pierluigi Martini, que acabou por não se classificar.

Nürburgring, 7 de outubro

Se por um lado Senna não chegou a correr na Itália em sua primeira temporada na F1, por outro, quando o circo chegou pela primeira vez à nova pista de Nürburgring, ele já havia pilotado noutras duas oportunidades por lá.

Toda esta experiência, no entanto, acabou não sendo devidamente aproveitada, da mesma forma como os novos e maiores turbos fornecidos pela Holset, graças a um problema com a centralina que o limitou à 12ª posição no grid.

Pior: na largada Ayrton acabou colhendo a traseira da Williams de Rosberg, que sofria com problemas de ignição. Além dos dois, também abandonaram de imediato Marc Surer, Gerhard Berger e Piercarlo Ghinzani.

Estoril, 21 de outubro

A última prova do ano terminaria por ser uma revelação. Desde a mudança para os pneus Michelin a Toleman não havia tido acesso aos compostos de última geração, exceto pelo já citado episódio em Monte Carlo. No entanto, quando a fornecedora francesa fez o surpreendente anúncio de que estaria deixando a categoria ao fim do ano, decidiu ignorar o contrato de exclusividade que tinha com Ron Dennis e entregar à equipe sua borracha safra 1984. Resultado: Senna classificou-se em 3º, a apenas 0,23s da pole de Piquet!

Na corrida o desempenho foi equivalente: apesar de ter sido superado por Lauda, Senna iria herdar a posição de De Angelis para completar o pódio, junto aos dois grandes protagonistas daquele ano. Uma posição consistente, conquistada na pista, que dava uma boa dimensão da competitividade daquele conjunto que havia começado o ano tão distante das primeiras posições.

Os homens da Toleman, no entanto, estavam convencidos de que a forma da equipe era ainda melhor do que parecia. “Ao contrário de Mônaco, quando a Michelin nos deu pneus novos sob a falsa alegação de que não tinham pneus de chuva antigos, em Portugal eles realmente só tinham a borracha de última geração. E nos disseram que com Senna no carro, calçado com pneus de 1984, nós poderíamos ser mais rápidos até mesmo do que a McLaren”, revelou recentemente Alex Hawkridge.

“Acontece que é uma grande mudança quando você recebe um pneu novo, após fazer a temporada inteira com compostos do ano anterior. Em termos de ajuste do carro, esse é um grande desafio. Nós terminamos na terceira posição em Portugal, e Lauda, na McLaren, teve que ultrapassar Ayrton para conquistar o título”, continuou o antigo chefe da equipe, em relato a Tony Dodgins.

“Após a corrida a Michelin permaneceu na pista, de forma que nós pudéssemos fazer alguns testes, porque naquela altura todos já sabiam que Senna estava de partida e eu penso que Dupasquier estava curioso para saber o que Ayrton teria sido capaz de fazer com os pneus certos!”

“Assim como havíamos feito no teste secreto em Dijon, fomos ao caminhão e pudemos escolher o que havia de melhor entre os compostos de 1984. Como resultado Senna baixou o próprio tempo em cerca de um segundo, ficando muito abaixo da pole de Piquet conquistada dois dias antes – e fez isso com pneus de corrida, que poderiam durar a prova inteira!”

“Foi realmente uma pena que nós não tenhamos tido a chance de continuar com Senna e a Michelin em 1985, competindo para valer. Porque eu acredito que nós tínhamos um pacote muito melhor ao fim daquele ano do que as pessoas se dão conta.”

Levando em consideração o poderio da concorrência e dando a devida atenção ao enorme déficit que a Toleman enfrentou ao longo de toda a temporada em uma área tão importante quanto os pneus, só nos resta reconhecer que o nível de desenvolvimento apresentado por aquele grupo de jovens brilhantes foi qualquer coisa de espetacular, nas poucas vezes em que competiram juntos.

O conjunto que se conquistou o pódio no Estoril pouco ou nada fazia lembrar o time das primeiras corridas, e me arrisco a dizer que, podendo escolher pneus como os da McLaren, e tendo um pouco mais de confiabilidade, a Toleman do fim de 1984 teria condições de brigar pela vitória com o super time de Ron Dennis em qualquer pista, dispondo de orçamento infinitamente inferior.

Passados 32 anos, esse é o tipo de história e de conquista que ainda me fascina.

Forte abraço, e tenham todos um excelente fim de semana.

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