Correr pra galera!

Em março de 2008, Max Mosley, então presidente da Fia, foi vítima de um inominável crime de invasão de privacidade, perpetrado pelo jornal inglês News of the World. A exposição da sua vida pessoal custou-lhe o cargo de presidente da entidade e um ostracismo no qual permanece até hoje.

Mosley processou o jornal, ganhou a demanda e obteve uma indenização considerável – 60 mil libras, a maior concedida até então por um tribunal inglês por violação de privacidade.

Tempos depois, ficou claro que o caso Mosley não havia sido, de forma alguma, uma exceção. Pelo contrário, News of the World havia montado uma verdadeira quadrilha de invasão de privacidade, com violação em escala industrial de sigilo telefônico, e-mail e rastreamento de vítimas, entre pessoas famosas por suas atividades – políticos e artistas, principalmente – ou por tragédias pessoais. Detetives profissionais a soldo do jornal violaram, por exemplo, o sigilo telefônico de familiares de crianças e adolescentes assassinadas e de militares mortos no Afeganistão.

No julgamento envolvendo o caso, constatou-se que Mosley havia sido apenas um entre cerca de 7 100 pessoas cuja vida havia sido invadida de maneira criminosa pelos editores do News of the World num espaço de poucos anos. Vários jornalistas foram condenados à prisão.

A narrativa minuciosa da derrocada do News of the World – engolido pelo escândalo, o jornal foi fechado em julho de 2011 pela sua editora, a News Corp, de Rupert Murdoch – é o tema do livro Vale Tudo da Notícia, do jornalista Nick Davies, que levantou a ponta do escândalo e teve papel relevante nos desdobramentos do caso.

Atravessando, nauseado, a leitura do livro, descobri com alegria que Max Mosley teve a oportunidade de comer frio o seu prato de vingança contra a publicação.

Depois de conhecer Nick e ajudá-lo com informações e contatos, Mosley topou também bancar os custos com advogados de uma série de vítimas do jornal, tendo confessado ao jornalista deter uma grande fortuna, conquistada na vida profissional e também por herança de família. Uma parte deste dinheiro foi usado para contratar o detetive que pilotou a maioria das invasões a mando do News of the World, contrato condicionado a ele contar tudo à Justiça (estranhos caminhos, os da Justiça…). A iniciativa de Mosley foi importante porque os custos advocatícios jogavam, na prática, a favor do jornal, inibindo a ação contra ele de vítimas menos abonadas.

Depois de haver comemorado a extinção do poder de Mosley (aqui), o elogiei quando ganhou o processo contra o News of the World (aqui). Nunca pensei ter, em vida, um segundo motivo para admirar Mosley, muito menos ao chafurdar na história do esgoto criado pela imprensa sensacionalista inglesa.

A comemoração de Lewis Hamilton após sua vitória em Silverstone não foi nada demais, nada que já não tenhamos visto nas pistas americanas e nas da MotoGP, por gentileza de Valentino Rossi. No entanto, a corridinha do inglês pela grama, diante do pódio, logo que saiu de seu Mercedes, seguida mais tarde por um stage dive têm boas chances de se tornarem “as cenas” de 2016 da categoria, tanto mais se se confirmar o hoje inegável favoritismo de Hamilton ao título da temporada.

httpv://youtu.be/8xmccy36_Lo

Correr pra galera! Algo tão simples, banal e assimilado por esportistas e famosos em geral nos dias de hoje, e mesmo assim é fato único na história recente da Fórmula 1. Não lembro de nada minimamente parecido, até retroagir a Senna, Interlagos 93, ele e seu McLaren sendo cercados por torcedores enlouquecidos de paixão depois de o motor Ford ter entregue os pontos.

Não tenho dúvidas de que este distanciamento, esta frieza laboratorial imposta goela abaixo da categoria, como se a proximidade com a galera a desmerecesse, é um dos problemas que tem afastado progressivamente a Fórmula 1 do grande público. Hamilton, “a cabeça mais lúcida da categoria”, como apontou com propriedade Alessandra Alves, parece o único que luta contra isso, dentro das suas possibilidades.

Houve quem temesse por uma punição ao inglês pelo fato de ter quebrado o rígido protocolo pós-corrida, condicionado pelos horários das emissoras de TV, e, mesmo assim, notem quão distante Hamilton estava do público, dadas as distâncias lunares entre a pista e as tribunas em Silverstone. Aliás, lembro-me vivamente de um comentário de algum jornalista especializado quando, em 72, Nivelles tomou o lugar de Spa como sede do GP da Bélgica, que Deus perdoe quem tomou tal decisão. Era uma vergonha em termos de traçado, etc. e tal, mas a principal crítica do jornalista era exatamente o fato de o público ter ficado tão distante da pista…

No fundo, a queda da F1 – que a mim parece inexorável – pode ter uma explicação tão simples assim: ela está demasiado distante do público.

O Tour de France está aí, a confirmar a minha tese.

Acompanhei a competição pela TV nas últimas semanas com a atenção possível, podendo testemunhar o entusiasmo popular, o frenesi que moveu incontáveis pessoas a esperarem sob sol e chuva pela passagem dos competidores, não importando que isso dure segundos e não haja, na maioria dos casos, uma segunda oportunidade para vê-los.

Este entusiasmo certamente não se deve ao carisma do novo rei da competição, o inglês Chris Froome, a materialização humana do personagem de As Bicicletas de Belleville, mas ao fato de o ciclismo ter preservado, ao menos na aparência, sua simplicidade, sua sintonia com o cotidiano das pessoas, da mesma forma que o automobilismo algumas décadas atrás, quando os Lotus de Jim Clark não eram tão diferentes de um carro de rua. Foram os motores turbo, os materiais compostos, a eletrônica e, acima de tudo, as pesquisas aerodinâmicas insanas que levaram a um descolamento progressivo da realidade, tornando um carro de corrida em muita coisa, menos algo que possamos entender.

Eu disse que o ciclismo mantem ligação com a realidade “ao menos em aparência” e é isso mesmo: em suas entranhas, o esporte já está na estratosfera, seus atletas tendo sido transformados em cobaias de experiência orgânicas de resultados imprevisíveis e, em muitos casos, ilegais, enquanto as bicicletas embutem tecnologias de dezenas de milhares de dólares.

Também seduzido pela serpente – quem pode resistir a ela? -, o ciclismo mergulhou no mesmo inferno de dinheiro, poder e tecnologia desvairada que vimos na F1. Espero apenas que isso não o leve a se afastar da galera.

Bom final de semana a todos

Eduardo Correa

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *