O piloto oculto

O sonho de todos os pilotos é tornar-se bem sucedido, rico e famoso, certo? Esse definitivamente não era o caso de Louis Krages, um alemão que chegou a vencer as 24 Horas de Le Mans mas preferiu se manter no anonimato com a alcunha de “John Winter”.

A geração de pilotos alemães dos anos 80 era de altíssimo nível. Encabeçava a lista os promissores Stefan Bellof e Manfred Winkelhock, que tristemente faleceram no mesmo ano, 1985. Mas o país tedesco tinha uma boa fornada que competia principalmente nos campeonatos de turismo e endurance, como Klaus Ludwig, Hans Stuck, Manuel Reuter e Frank Biela.

Até o surgimento de Michael Schumacher, esses homens eram as estrelas do automobilismo alemão. Entretanto, longe dos holofotes, outro se destacava. Um verdadeiro enigma, pois com uma longa carreira em turismo e GT, pilotando carros fantásticos, manteve-se à sombra, passando sempre despercebido. Seu nome era “John Winter”.

E é assim mesmo, entre aspas, que se escreve. Em todas as corridas televisionadas que participou aparecia “John Winter” o que por si só, já é enigmático. O nome e sua própria tipografia parecem convidar a curiosidade. Porque um alemão teria um nome tão inglês como esse? Além de tudo, as informações oficiais eram quase nulas. Nenhum local de residência; sem data de nascimento ou idade; nenhum resquício de uma vida fora do carro.

A realidade é menos estranha do que parece. Muito simplesmente, “John Winter” foi um piloto que quis manter a sua verdadeira identidade para si. E não é o único caso a respeito. Como nós brasileiros sabemos bem, Nelson Piquet corre com o sobrenome da mãe, que nos primeiros anos era escrito como “Piket”, para que seu pai, um famoso ministro não desconfiasse do que o filho estava aprontando nas pistas.

Louis Krages, assim como Piquet, queria manter sua carreira longe da atenção dos parentes. Nascido em Bremen, em 12 de agosto de 1949, Krages era descendente de uma nobre família alemã que havia feito fortuna no comércio de madeira e assegurando status social com um sólido envolvimento colecionando arte e antiguidades. Assim como Niki Lauda, Krages percebeu que a família não veria o trabalho do filho com bons olhos e guardou a paixão pelo automobilismo para si mesmo.

E assim, nasceu “John Winter”. Sem precisar se preocupar com problemas financeiros, o alemão rapidamente galgou as categorias de base do automobilismo alemão. Winter se encontrou na série Interseries, um campeonato que misturava de carros envenenados, carros de turismo e GTs, atraindo muitos pilotos profissionais e amadores.

O melhor momento de Winter na série Interseries aconteceu em 1986 onde se sagrou campeão da Divisão 1. Mas o “Olimpo” para aqueles pilotos tinha outra palavra: Le Mans. E Krages também chegou ao topo da lendária corrida de 24 Horas, vencendo a edição de 1985, ao lado do renomado Klaus Ludwig e do futuro piloto de Fórmula 1, Paolo Barilla. Com um Porsche 956 da equipe Joest, o trio foi o primeiro a conseguir desbancar o time de fábrica, que era conduzido pelas estrelas Hans-Joachim Stuck e Derek Bell.

Mesmo com Ludwig e Barilia ficando à frente dos holofotes, Winter não conseguiu escapar da fama nesse momento. Foi através de uma foto no pódio de Le Mans vista em um jornal alemão que sua mãe ficou sabendo definitivamente sobre a profissão do filho. Apesar de desmascarado, Krages continuou a competir como “John Winter”.

Krages competiria em Le Mans em outras 10 oportunidades, muitas vezes abandonando a prova com problemas mecânicos. Depois da vitória de 1985, seu melhor resultado foi um terceiro lugar em 1988, novamente com um Joest Porsche e em parceria com Frank Jelinski e o – quase igualmente enigmático – piloto sueco Stanley Dickens.

Além de Le Mans, Winter continuou competindo na Alemanha e também na prestigiada série norte-americana IMSA onde se apaixonou pela terra do Tio Sam. Outro grande destaque de sua carreira aconteceu em 1991 quando venceu as 24 Horas de Daytona, ao lado de Hurley Haywood, Jelinski, Henri Pescarolo e Bob Wollek. Mas, a era dos velozes e furiosos carros-esporte estava terminando e Winter, assim como diversos pilotos alemães, voltou sua atenção ao reformulado – e cada vez mais famoso – Campeonato de Turismo Alemão, o DTM.

Entretanto, o tempo estava passando e Winter já não conseguia acompanhar a nova geração. Mesmo assim, Krages conseguiu deixar sua marca nesse campeonato com um mega acidente em 1994 no circuito de Avus. Tocado por Kris Nissen, seu Opel Calibra perdeu o controle virando uma bola de fogo ao chocar-se contra o guard-rail.

httpv://youtu.be/GGl2HEQ8H8E

Sua última temporada como piloto foi em 1995 utilizando um Mercedes-Benz Classe C. Nesse ano, decidiu aposentar o pseudônimo e pela primeira vez na carreira correu como Louis Krages. Em seguida, vendeu o negócio de família e mudou-se para Atlanta, nos Estados Unidos. Lá, se estabeleceu como empresário em um novo ramo: miniaturas de carros de corrida, feitas de madeira.

O desfecho de sua história é tão inusitado quanto sua vida: sem conseguir fazer os negócios decolarem e sofrendo de depressão, Krages cometeu suicídio em sua casa, no dia 11 de janeiro de 2001, com um tiro na cabeça. Apesar de seu respaldo financeiro ter sido sempre vital na sua vida automobilística, Krages foi muito popular entre seus colegas, sendo considerado um piloto rápido e técnico. E com um currículo que é o sonho de muitos pilotos por aí.

Até a próxima!

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