A batalha de Tony Vandervell – Parte 1

O segundo domingo de setembro de 1957 estava reservado para a disputa do GP da Itália. Com o campeonato de pilotos decidido desde o GP da Alemanha a favor de Juan Manuel Fangio, o clima na ensolarada Monza estava ameno entre os presentes ao autódromo.

Bem, nem todos estavam em clima ameno. Um grande e formidável homem, usando uma jaqueta branca e chapéu panamá, assistia tenso aos instantes finais do treino de classificação da corrida italiana. Era Tony Vandervell, rico industrial inglês e dono da equipe Vanwall.

Ele não se aquietou nem ao final do treino, quando ele viu os seus três carros ingleses conquistarem as três primeiras posições do grid de largada. Stuart Lewis-Evans, Stirling Moss e Tony Brooks, nesta ordem, haviam tomado de assalto toda a primeira fila do grid na cara dos italianos, no território das equipes mais rápidas e até então as mais dominantes dos campeonatos oficiais.

Pode parecer banal, mas em retrospecto, fazia menos de 50 dias que um carro britânico havia obtido sua primeira vitória em corridas oficiais. E foi uma vitória em casa, no GP da Grã-Bretanha daquele ano, quando Moss e Brooks dividiram o carro para chegar em primeiro.

Para os italianos era uma situação circunstancial e não havia motivos para se preocupar com aqueles carros verdes, muito menos com os britânicos, considerados construtores de segunda linha.

Mas a qualificação em Monza mostrou uma situação que até então os construtores italianos não estavam acostumados. Até o grande Fangio, já penta campeão, era incapaz de desafiar os carros verdes, apesar da Maserati tentar tudo que sabia para seus carros irem mais rápidos, enquanto a Ferrari estava tecnicamente batida antes mesmo de começar a andar.

Nessa corrida havia 19 carros inscritos, sendo 12 Maseratis, 4 Ferraris e 3 Vanwalls. Era evidente que os britânicos estavam sozinhos contra os italianos.

As três Vanwalls marcaram o ritmo, seguraram o ritmo, forçaram o ritmo, e dominaram a cena dos treinos. Para qualquer seguidor britânico era a mais inacreditável vista, algo que eles vinham sonhando há muito tempo.

Mesmo quando o novato Lewis-Evans foi o mais rápido, não havia mais necessidade para o líder da equipe Stirling Moss sair e tentar melhorar, nem para o número dois Tony Brooks, pois o trio britânico já tinha a primeira fila completamente dominada. A Vanwall estava no comando e isso era o que importava. Tony Vandervell sabia que a guerra iria começar, por isso ainda se mantinha tenso.

Para a Ferrari e Maserati, restou a batalha entre elas mesmas para ver quem sairia como a melhor “do resto”.

Desde que Vandervell colocou um carro Vanwall pela primeira vez em Monza em 1954, ele tinha o propósito de tornar seus carros memoráveis o suficiente para derrotar aquelas máquinas vermelhas. E como industrial poderoso em seu país, ele queria confrontar ninguém menos que o comendador Enzo Ferrari.

Desde a sua primeira ida a Monza que Tony Vandervell se enroscava com Enzo Ferrari em debates acalorados dentro dos pits. Eles trocavam muitas vezes insultos… via intérpretes!

Enzo Ferrari nunca ia às corridas, exceto Monza. No GP italiano, invariavelmente ele aparecia no final do treino de sábado à tarde, quando Tony mandava seu intérprete pelos pits com comentários ácidos para o Comendador. Muitas vezes, ele acabava recebendo de volta respostas tão ácidas quanto as que enviava.

Em alguns momentos, a situação tomava contornos vergonhosos e fugia dos limites. Segundo relatos, muitas vezes o intérprete parafraseava com suas próprias palavras, tentando usar tato e diplomacia para manter aqueles emblemáticos senhores industriais orgulhosos, e menos raivosos ou azedos um com o outro.

No entanto, algumas vezes os senhores Vandervell e Ferrari dispensavam o mensageiro e se confrontavam diretamente em seus próprios idiomas nativos, lançando impropérios em inglês, que eram respondidos a altura em italiano! Não entendiam uma palavra do que o outro dizia, mas nem era preciso. As pessoas ao redor, bilíngues ou não, testemunhavam o clima de franca provocação entre os dois construtores.

Aqueles homens buscavam em suas fábricas a construção da excelência em termos tecnológicos, não havia trégua para que o inimigo ao lado levasse a melhor, sem dúvida o que corrobora com isso é que havia muita gente com quem eles nem perderiam tempo falando.

Era um confronto de titãs.

Quando o time Vanwall mandou sua mensagem na pista durante o épico treino, os comentários de Vandervell fluíram em uma direção. O recado era aos carros vermelhos, tanto da Maserati como da Ferrari.

Em dado momento, Vandervell marchou pessoalmente até o pit da Ferrari, onde se encontravam os motores V8 explodindo seus oito megafones de canos de exaustão.

Quando um dos carros vermelhos sai para a pista, Tony se dirige a Vittorio Jano, que era o projetista chefe da Ferrari e maior autoridade presente da equipe na ausência do comendador, e dispara: “Eles estão fazendo barulho demais; toda potência está saindo pelos canos ao invés de passar pelas rodas traseiras”.

Um Vanwall passando no mesmo momento, fazendo barulho semelhante a um carro esportivo de estrada, apenas reforçou sua observação, pois com certeza o Vanwall era um carro de corrida quieto e rápido. O som em seus escapamentos era muito macio e sutil, o que Vandervell sempre atribuiu à uma boa queima da mistura de combustíveis, ao invés de apenas saírem em labaredas pelos escapes.

Vittorio Jano estava desesperado, pois nenhuma das Ferraris estava se destacando, apesar de todo o seu esforço e modificações nos carros e motores numa busca, sem esperança, por velocidade extra.

A Maserati tinha a vantagem de ter a pilotagem de Fangio, que era capaz de tirar leite de pedra. Além disso, Jean Behra e Harry Schell tinham uma última versão do motor Maserati de 12 cilindros. Só que nessa qualificação, ninguém conseguia tirar a Vanwall dos três primeiros lugares.

Em pânico, os organizadores italianos liberaram quatro carros na primeira linha, ao invés de três na largada, o que fez que a Maserati de Fangio fosse colocada junto aos britânicos para tentar salvar a honra italiana. Por sorte havia espaço para tal feitio em Monza.

A confirmação da supremacia Vanwall veio na corrida. Em 8 de setembro de 1957, quando Stirling Moss venceu o GP italiano, essa corrida ficou no registro como um dos mais amargos desafios visto na história da F1.

Foi à vitória mais magnífica e convincente que uma equipe poderia obter. Volta a volta, as três Vanwalls disputaram roda a roda, deixando para trás os carros vermelhos em um ritmo assombroso e desconcertante.

Fangio, Behra e Schell aceleraram usando todos os recursos e truques que tinham na manga, mas sem sucesso – os três britânicos calmos, compostos e sem piedade, tinham a corrida nas mãos.

As Ferraris de Hawthorn, Collins, Musso e Von Trips seguiam de perto as Maseratis, mas nada podiam fazer a não ser correrem próximos e tentar manter os líderes a vista.

Não que a Vanwall tenha saído sem danos. Primeiro Brooks saiu da batalha, quando seu regulador de pressão quebrou, e Lewis-Evans teve um vazamento em um dos cilindros e precisou de um pitstop.

Mesmo mantendo a vontade de combater os rivais ingleses, Fangio e Behra já estavam com Maseratis sem fôlego. Não havia como atacar Moss, que estava inspirado e voador naquele dia. Eles recuaram para que seus carros aguentassem o ritmo das 87 voltas, ficando a espera que, assim como os demais Vanwalls, Moss apresentasse algum problema.

Mas aquele solitário carro verde número 18 se manteve forte e sem problemas, e Stirling Moss caminhou rumo a uma vitória sem falhas. Apenas Fangio estava na mesma volta de Moss ao final da corrida, intermináveis 41 segundos atrás do inglês, enquanto a Ferrari mais próxima, que completou o pódio, de Von Trips, estava duas voltas atrás.

Quando a Vanwall vitoriosa parou após 2h35min de corrida, a plateia italiana estava sem palavras. Nunca antes na história longa e dramática de Monza, autódromo inaugurado em 1922, algo desse tipo havia ocorrido. Um carro britânico, uma macchina inglesa, havia vencido um GP italiano na sua pista mais famosa, lugar onde a velocidade e potência eram tão largamente atribuídos a carros de corrida italianos, desde os Fiats e Alfa Romeos no pré-guerra, até as Maseratis e Ferraris no pós guerra.

Quando a multidão correu para aclamar Stirling Moss por sua grande pilotagem, uma grande Union Jack foi aberta e colocada no capô do carro. Enquanto ‘God Save the Queen” tocava nos alto falantes, haviam lágrimas de emoção em vários britânicos. Muita gente ficou bêbada aquela noite comemorando…

Para Tony Vandervell, cujo aniversário de 59 anos era no mesmo dia, não podia haver presente melhor – exceto, claro, que se seus dois outros carros tivessem completado o pódio.

Para Tony isso pouco importava, ele havia atingido um de seus grandes objetivos com a sua britânica equipe Vanwall, deixar os carros vermelhos no chão.

Mas para ele não havia acabado ainda. Ele sabia que a guerra estava apenas começando…

Na próxima coluna vamos continuar essa história e seus desdobramentos.

Abraços,

Mário

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