15 anos!

Como Santiago Zavala, o personagem de Mario Vargas Llosa em Conversas no Catedral, olho a paisagem ao meu redor sem amor e pergunto: em que momento a Fórmula 1 se fodeu?

Perdoem o calão assim, logo cedo, mas a nobre referência literária me abona ou, ao menos, deveria abonar. Ainda que o menos-amor para com a Fórmula 1 possa ser mais frequente na comunidade do GPTotal – que hoje comemora os seus 15 anos – não se discute que a categoria anda meio por baixo, digamos assim, perdendo espaço no imaginário de brasileiros e não brasileiros, sendo objeto constante de análises minhas e dos queridos colegas e leitores. Em que momento começou esta derrocada, ainda que isso não queira dizer que a Fórmula 1 vá acabar, é questão mais aberta, à qual propus debate em minha última coluna, “Correr pra galera!”.

Lá, mencionei motores turbo, materiais compostos, pesquisas aerodinâmicas sem limites. Deveria, porém, ir mais para trás, chegando ao advento dos satélites de comunicação, o que possibilitou à Fórmula 1 tornar-se uma das pontas de lança do esporte globalizado, e da liberação dos patrocínios nos carros, o que franqueou às equipes verbas milionárias. Os dois eventos praticamente simultâneos tornaram possível, a partir do final dos anos 60, o vendaval tecnológico, financista e comercial que desfigurou a categoria de Fangio, Ascari, Clark e Graham Hill.

A inocência foi perdida ali e, sinceramente, não sei se havia alternativa pois o que se viu foi apenas a natureza humana, essencialmente egoísta, cobiçosa e vaidosa, se impor, assim como se impôs em outros campos da atividade esportiva, social, política, empresarial etc. Não foram, no final das contas, avanços tecnológicos os responsáveis; foi a falta de limites, o amoralismo, a acumulação, as vendas e lucros crescentes, soterrando todo e qualquer valor fraternal.

Não creio ser possível derrubar tal império, não importa o quão danoso para a natureza e para humanidade seja seguir nesta trilha. A Fórmula 1 é apenas reflexo disso.

Pensando em abordagens alusivas ao aniversário do GPTotal, dividi a Fórmula 1 em blocos de quinze anos, de 2015 para trás. Constatei que decresce o número de pilotos e equipes campeãs, período a período.

Entre 1956 e 1970, tivemos dez pilotos campeões, igual entre 1971 e 1985. De 1986 a 2000, foram oito, de 2001 a 2015, seis – Schumacher, Alonso, Kimi, Hamilton, Button e Vettel. O mesmo, com uma pequena variação, se observa entre os construtores: 8, 6, 4 e 5, respectivamente, a alta do último período coincidindo com o título da Brawn, sem discussão a maior surpresa da história da categoria.

O que isso prova?

Acho os dados precários para afirmações mais peremptórias, mas… demonstram a tendência de crescimento das hegemonias, mercê de uma curva de conhecimento cada vez mais acentuada, que permite um preparo mais técnico e competente de pilotos e construtores. Um exemplo: já mencionamos aqui que talvez um quarto dos funcionários de equipes de Fórmula 1 dedica-se ao controle de qualidade, o que gerou a quase extinção dos abandonos por quebra, algo comum no passado – Jim Clark perdeu títulos certos em 62 e 64 por quebras nas voltas finais dos GPs decisivos.

Também não será coincidência que nos últimos quinze anos, tenhamos convivido com as hegemonias mais duradouras da história da categoria. De 2010 até a Hockenheim, 127 GPs disputados, 59% das provas foram vencidas por Vettel e Hamilton, 71% por RBR e Mercedes.

Ainda que sejam um padrão na categoria – todos os GPs do primeiro ano da F1 foram vencidos pela Alfa Romeo -, hegemonias repelem cada vez mais o grande público, em especial os jovens, e isso ajuda explicar porque a Fórmula 1 está onde está.

Os Jogos Olímpicos do Rio chegam ao fim mesclando para nós, brasileiros, tanto boas surpresas quanto fracassos, alguns embaraçosos.

Fazer um balanço do desempenho do país nas competições é algo bastante distante das minhas possibilidades, mas creio que, olhando para cima no quadro de medalhas, podemos notar um continuo aprimoramento do que se poderia chamar de uma linha de montagem de campeões, produto da mesma curva de conhecimento já mencionada. É algo do qual ainda estamos muito distantes, mesmo no futebol e vôlei, as gambiarras e o valor pessoal predominando por aqui.

Desta forma, nunca passaremos de certos limites, mas cabe perguntar se vale a pena perseguir a tal linha de montagem: é legal trocar nossa eterna gambiarra pela ganância, vaidade e cobiça que movem o esporte profissional de ponta?

O que disse acima, sobre linha de montagem, deve ser entendida de forma cada vez mais literal. Já ouviram falar de Crispr, sigla em inglês para Repetições Palindrômicas Curtas Agrupadas e Regularmente Interespaçadas?

Os 15 anos do GPTotal coincidem, com diferença de poucos meses, com meus 40 anos de jornalismo. Comemoro as duas datas sentindo o peso do ceticismo próprio da profissão que abracei e da qual, por incrível que pareça, me orgulho. Não creio precisar me desculpar pelo comedimento; o país, o mundo, a paisagem ao meu redor não permitem outra conclusão: tudo o que é sólido se desmancha no ar e, como Nuno Ramos, suspeito que estamos fodidos.

Mas – prometo! – vamos seguir firmes em frente. Não sei se poderei assinar a coluna comemorativa dos 30 anos do GPTotal, mas se não puder tenho a convicção de que algum dos meus queridos Gepetos o fará.

Obrigado a todos por estes anos de convívio tão agradável!

Eduardo Correa

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