Fogo brando

Após 14 provas – ou dois terços da temporada – a diferença de pontuação entre os pilotos da Mercedes não chega a 1%: 250 para Lewis Hamilton, 248 para Rosberg. O equilíbrio continua quando se observa que Rosberg conquistou sete vitórias contra seis de Hamilton, e que estes números se invertem quando o assunto é pole position.

Como já escrevi anteriormente, quando se coloca no papel, a temporada 2016 da F1 parece linda. O problema é quando deixamos os números de lado e voltamos os olhos às corridas que alimentam as estatísticas. A prova em Monza, por exemplo, poderia ser resumida grosseiramente numa única frase: Hamilton largou mal a partir da pole e Rosberg venceu, reduzindo a desvantagem no mundial para dois pontos. Obviamente houve diversas nuances, mas ainda assim é esperar demais que o público se empolgue com uma corrida que se decidiu nas primeiras três ou quatro voltas, a partir de um erro de pilotagem.

E é justamente este o ponto: Hamilton e Rosberg dividem o único carro vencedor do grid, e não parecem capazes de sustentar entre si o interesse pela categoria como no passado fizeram Fangio e Moss, Clark e Hill, Lauda e Prost, Piquet e Mansell ou Senna e Prost, justamente porque têm protagonizado uma disputa nivelada por baixo, com corridas decididas a partir dos erros de um ou de outro, geralmente nos metros iniciais de cada nova prova. Faltam, enfim, corridas como a da Áustria, e sobram procissões como esta em Monza.

Tendo caído de primeiro para sexto nos metros iniciais, Hamilton protagonizou alguns momentos interessantes em sua busca pela segunda colocação. Primeiro ao ultrapassar Ricciardo por fora na Curva Grande, e depois ao arriscar uma abordagem bastante agressiva na Parabolica, a fim de evitar a turbulência da veloz Williams de Bottas, na briga pela quarta posição. A briga com as Ferraris provavelmente também teria sido interessante, mas acabou sendo desnecessária diante da capacidade das Mercedes de cobrirem a prova em ritmo forte fazendo apenas uma troca de pneus.

Incorporando novas atualizações à unidade de potência a Ferrari conseguiu superar a Red Bull nos retões italianos, com Vettel mantendo-se à frente de Räikkönen, ao passo que logo atrás Ricciardo conseguiu superar a maior potência da Williams de Bottas nas voltas finais. O polêmico Max Verstappen andou sozinho durante a maior parte da corrida, e terminou na sétima posição, três segundos atrás de Bottas e dez à frente de Sergio Pérez.

Felipe Massa pagou o preço por ter largado na 11ª posição, e ao longo da corrida limitou-se a superar a Haas de Gutiérrez e a Force India de Hülkenberg, o décimo colocado. Basicamente foi isso.

Apesar da atuação apagada, Massa esteve no centro das atenções ao longo de todo o fim de semana, graças ao anúncio de que irá deixar a Fórmula 1 ao fim desta temporada. Uma atitude, aliás, perfeitamente coerente com o senso de decência que sempre norteou sua conduta, e com os conselhos que cansou de dar a Barrichello quando o veterano insistia ano após ano em se perpetuar na categoria.

Em condições normais, Massa deve encerrar sua carreira com 251 GPs disputados (e 249 largadas), 11 vitórias, 16 pole positions, 15 voltas mais rápidas, e muitos motivos para se sentir vitorioso.

Senão, vejamos: o sujeito sobreviveu a uma agressão equivalente a um tiro de grosso calibre na cabeça. Está riquíssimo e conhece boa parte do mundo aos 35 anos de idade. Tentou fazer sua parte pelo esporte a motor nacional através da finada Fórmula Futuro, e promoveu durante nove anos um dos eventos mais bacanas do calendário automobilístico anual, o saudoso Desafio das Estrelas de kart. E, claro, antes da mola na Hungria, e também do “Fernando is faster than you” em Hockenheim, foi um piloto muito rápido e habilitado a brigar por títulos mundiais.

O discurso politicamente correto dirá que ele voltou tão bom quanto era, e irá encontrar diversas teorias da conspiração e desculpas pontuais para o desempenho abaixo de seus padrões anteriores. A verdade é que não, ele não voltou no mesmo patamar, e sua motivação sofreu um duro golpe na Alemanha em 2010, apesar de ser inegável que Fernando era mesmo mais rápido que ele naquela altura. Ainda assim, diante de tudo que poderia ter acontecido, o fato de ter perdido aqueles décimos de segundo que fazem toda a diferença na carreira de um piloto acaba parecendo algo de menor importância.

Pessoalmente, o que mais admiro em Massa é justamente a forma como vejo nele mais méritos que brilho natural. Sem jamais ter sido um piloto refinado ou superdotado, Massa evoluiu demais do garoto selvagem de 2002 para se tornar um piloto capaz de corridas quase perfeitas, como suas duas consagradoras vitórias no Brasil e, acima de todas, a brilhante atuação na Hungria em 2008. Sem mencionar um punhado de voltas fantásticas, como sua inesquecível pole position em Cingapura 2008, no mesmo fim de semana em que acabou sendo indiretamente prejudicado pelo piloto ao qual tinha dado tanta moral na coletiva após o GP da Alemanha daquele mesmo ano.

Mas se as sete temporadas apagadas que teve desde então acabam por nos privar da lembrança do quão competitivo ele chegou a ser, cabe também a reflexão de que seus esporádicos feitos pós-2009 são fruto de superação ainda maior, por parte de alguém penalizado por handicaps físicos e sobre quem passaram a pairar prejudiciais nuvens de desconfiança.

Por tudo o que fez antes e depois da Hungria em 2009, tiro meu chapéu para Felipe, que agora deve decidir se dará prosseguimento à carreira na Fórmula E, no DTM ou no WEC (opção que certamente nos agradaria mais).

Logo depois de Felipe, Jenson Button também anunciou que não será piloto titular em 2017, embora tenha a possibilidade contratual de retornar no ano seguinte pela McLaren. Parece-me cedo, portanto, para tecer uma avaliação sobre sua carreira.

Não poderia encerrar este texto, contudo, sem dedicar algumas palavras à embaraçosa batida provocada por Felipe Nasr, e, principalmente, à patética defesa do piloto feita por meus colegas da tevê aberta.

No toque a culpa foi toda do brasiliense, Palmer já estava tocando a brita, e é este tipo de ufanismo ofensivo à inteligência do espectador que acaba alimentando a corrente jornalística do extremo oposto, que adora criticar pilotos brasileiros a partir de critérios essencialmente injustos, como forma de se dizer imparcial.

Considerando o encolhimento da F1 no Brasil e as nuvens negras que se colocam sobre ela, tanto uma postura quanto outra me parecem ainda mais desnecessárias.

Forte abraço a todos, e tenham uma ótima semana.

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