A batalha de Tony Vandervell – Parte 2

Clique aqui e confira a primeira parte dessa história.

Após o término da temporada de 1957, em que a Vanwall surgiu com força contra os italianos da Maserati e da Ferrari, muitos já se perguntavam o que aconteceria em 1958.

Como novidade, a CSI, antigo órgão regulador que hoje equivale à FIA, havia anunciado que além do campeonato de pilotos, haveria também um campeonato para os construtores. Na visão dos cartolas, essa seria uma maneira de atrair uma maior participação de fabricantes e assim encher o grid com uma maior diversidade de carros.

O que se pretendia era fazer da temporada de 1958 uma temporada recheada de mudança nos ares da Fórmula 1, como na limitação de GPs com 300 quilômetros. Fangio já manifestava em conversas a sua vontade de parar, com 5 títulos e, enxergando uma mudança que na visão dele não era boa, o Maestro já não se sentia tão motivado quanto antes.

Por sua vez, a Vanwall aparecia como uma equipe competitiva e uma séria candidata a fazer o novo campeão. Como mencionei na coluna anterior, Tony Vandervell personificava a Vanwall tanto quanto Enzo Ferrari asmacchinas italianas.

Quando olhamos externamente, fábricas não parecem lugares românticos; são locais de trabalho, muitas vezes em ritmo até monótono, locais onde coisas são feitas e os trabalhadores muitas vezes estão lá pelo salário. Isso acaba dando a sensação muitas vezes que toda fábrica se parece uma com a outra, mesmo quando sabemos que seus produtos variam infinitamente.

A ideia começa a mudar quando vamos buscar na origem da história individual de cada uma – o âmago da sua formação e iniciativa.

Algumas fábricas possuem em suas origens a história que passa longe de ser entediante e contem rica aventura e ambição humana por trás da fachada de concreto.

A fábrica da Vanwall era fruto de um obstinado trabalho e meta de Tony em vencer. Lá certamente se reunia toda a paixão necessária para trazer ao mundo um carro e equipes competitivas ao meio automobilístico.

A partir daqui vamos falar de uma fábrica com uma história e tanto.

A equipe técnica da Vanwall reunia dois jovens e promissores engenheiros chamados Colin Chapman e Frank Costin.

Os carros projetados por Chapman juntamente com Costin utilizavam vários conceitos da indústria de aviação, onde buscavam na redução de peso a vantagem competitiva frente aos poderosos motores italianos que reinavam naquela época em termos de potência. Esse era, sem dúvida, o fator de vantagem que as equipes italianas possuíam na década de 50.

Completavam o arsenal do Vanwall outras soluções como eixo traseiro De Dion e barras torção na dianteira, além do câmbio com cinco marchas, que fazia na época o carro ter uma posição mais alta do piloto, para a caixa de câmbio ficar acomodada.

Interessante pensar que essas soluções não eram tão revolucionarias e alguns problemas eram enfrentados pela dupla de engenheiros, principalmente em relação a altura que o piloto ficava no carro, bem acima do usual.

Mas Costin fez desenho de um carro muito estreito e cm linhas muito fluidas, Com isso, o Vanwall era muito rápido em retas. Além disso, o processo de construção era extremamente meticuloso por parte da equipe, sempre buscando soluções criativas em deixar o carro bem acabado para ter pouco peso. É perceptível a influência que esse conceito teria ao longo da carreira de Colin Chapman.

A temporada de 1958 começa na Argentina. A Vanwall não participa da prova e Stirling Moss, primeiro piloto do time, vence pilotando um Cooper da equipe de Rob Walker. Essa é a primeira vez que uma equipe privada vence um GP oficial de Fórmula 1, bem como é o primeiro triunfo de um carro de motor traseiro.

A corrida seguinte é em Mônaco. Para essa prova a Vanwall comparece com três carros, pilotados pelo mesmo trio de ingleses Stirling Moss, Tony Brooks e Stuart Lewis-Evans de 1957.

Equipe inglesa, pilotos ingleses, corpo técnico inglês. Tony desfilava nos pits orgulhoso de seu feito: concretizava seu sonho de se tornar um grande nome do esporte automotor.

Na corrida, porém, os seus carros abandonaram. Moss chegou a liderar prova, mas quem venceu foi Maurice Trintignant, que substituiu Moss na equipe de Rob Walker, na segunda vitória de uma equipe privada.

No campeonato de pilotos, a liderança estava com Luigi Musso da Ferrari, segundo colocado em ambas às provas.

Na sequência veio o GP da Holanda. Vitória inconteste de Moss, que chegou 47,9 segundos a frente do sendo colocado.

httpv://youtu.be/ajvCyKW6Y4k

A temporada de 58 estava prevista de ser disputada em 11 provas (10 se tirarmos Indianápolis), e com o embaralhamento dos resultados, até então estava difícil prever quem seria campeão.

O quarto GP foi disputado na Bélgica. Nova vitória de um Vanwall, dessa vez em grande exibição de Tony Brooks, com Lewis-Evans em terceiro a conquistar seu primeiro pódio na curta carreira.

Ficava claro que, passado os pequenos problemas técnicos enfrentados, os carros da Vanwall eram as feras desse campeonato. Eram rápidos e consistentes quando nada de anormal acontecesse.

Na França, a disputa foi no circuito de Reims. Num dia bastante inspirado, Mike Hawthorn da Ferrari derrotou Stirling Moss, que ficou em segundo. Mas a Ferrari não tinha o que comemorar: Luigi Musso teve um acidente fatal na quinta volta.

No campeonato de pilotos havia um empate em pontos entre Moss e Hawthorn, ambos com 23 pontos, mas nos construtores a Ferrari estava na liderança com 28 pontos, contra 22 da Vanwall.

A corrida seguinte marcou o ponto mais baixo dos ingleses. A disputa foi em casa, Silverstone, e a Ferrari queria se vingar da derrota em Monza no ano anterior. Os italianos conseguiram ao final uma dobradinha, com Peter Collins seguido de Hawthorn.

Essa foi uma corrida doída para os ingleses, que haviam se preparado para fazer uma festa em casa. Mas Moss teve motor quebrado, enquanto Brooks e Evans enfrentaram problemas e ficaram para trás. Hawthorn e a Ferrari saem da Inglaterra consolidados na liderança.

Nos 4 GPs finais da temporada, entretanto, a Vanwall impõe uma tremenda recuperação, vencendo todas as provas com Brooks e Moss. Na Alemanha, Nürburgring, o triunfo de Brooks acabou eclipsado pela morte de outro piloto da Ferrari, Peter Collins, vencedor da corrida anterior, que teve acidente fatal na 11ª volta do Inferno Verde.

O GP seguinte é em Portugal, na pista urbana de Boavista, em que Moss vence com enorme vantagem de 5 minutos e 12 segundos para Hawthorn, que seria desclassificado da corrida se o próprio Moss não desse um testemunho em favor do rival para os comissários de prova de que, quando o motor da Ferrari de Mike morreu, ele não foi ajudado por espectadores a voltar para a pista.

Ainda teríamos a vitória de Brooks na Itália, em mais uma vitória da Vanwall em Monza, e o triunfo de Moss no GP final no circuito citadino de Casablanca, no Marrocos.

Apesar de todas essas vitórias da Vanwall, no campeonato de pilotos Mike Hawthorn vence Stirling Moss por apenas 1 ponto de diferença: 42 a 41. Mesmo com apenas uma vitória no ano, Mike foi muito consistente na coleta de pontos. E ele, que se aposentava com o título de pilotos a fim de fugir dos carros mortíferos da F1, morreria no começo do ano seguinte um acidente rodoviário.

Muito se discute sobre as ordens de equipe da Ferrari desde aquela época. O time mostrou placas para Phil Hill diminuir o ritmo e deixar Hawthorn passar para o segundo lugar, o que garantiu o título. E ficamos sem saber se a Vanwall usaria esse mesmo artifício, já que o time teve vitórias pulverizadas entre Moss e Brooks, sem conseguir definir um primeiro piloto para a disputa do título: toda vez que um ganhava, o outro havia abandonado. Provavelmente o fair play britânico ia prevalecer.

httpv://youtu.be/DzTsevy4z4A

No campeonato de construtores, a Vanwall com 6 vitórias nas 9 provas que disputou, ganha, tornando-se a primeira equipe campeã de construtores da história da Fórmula 1.

Para Tony Vandervell foi a consagração. Vencer era algo que ele como industrial almejou desde que colocou um carro na pista. Infelizmente sua saúde não mostrava bons sinais já em 1958 e aos poucos ele já não podia mais estar no ambiente das corridas como gostava por ordens médicas.

Sua condição clínica certamente sofreu uma grande piora quando, seis dias depois do GP do Marrocos, seu mais jovem piloto Stuart Lewis-Evans morreu em decorrência de um acidente durante a corrida marroquina. Um enorme baque. Em janeiro de 1959, Tony anunciou que não estaria mais presente no circo da Fórmula 1.

Sem a presença contagiante de Tony, a equipe se limitou nos anos seguintes a uma participação esporádica por ano, sempre com Brooks ao volante: no GP da Grã-Bretanha de 1959, e no da França de 1960. Nas duas ocasiões, dois abandonos. A própria F1 estava mudando radicalmente com a Revolução de Cooper: agora eram os carros com motores traseiros que davam as cartas.

O último carro da Vanwall seria construído em 1961, com motor traseiro, para John Surtees, mas apenas para eventos extracampeonato.

Nos anos seguintes, quem passasse os portões principais da fábrica de Mr. Vandervell se confrontava com um bloco moderno de escritório. Para deleite dos olhos, visitantes encontravam um carro verde de corrida com o nome Vanwall gravado em sua lateral.

Nas paredes, inúmeras fotos dos carros Vanwall em ação, e na parede ao lado da porta de entrada de vidro, uma placa em bronze retratando um homem de semblante poderoso, com jeito expressivo do inglês típico. Uma placa sinalizava que esse era Guy Anthony Vandervell, conhecido como Tony, fundador da indústria Vandervell, e criador do carro de corrida Vanwall, que trouxe prestígio à Inglaterra.

Essa indústria colocou os ingleses na vitrine das corridas, numa época que quaisquer carros europeus eram ofuscados pelas maquinas italianas nas corridas de Grande Prêmio.

Nascido em 8 de setembro de 1898, “Tony” Vandervell morreu aos 68 anos em março de 1967, mas sua memória não morreu, muito menos os efeitos de tudo que ele alcançou.

A história escrita por Vandervell deixou um grande legado e não desapareceu com o tempo. Hoje, um exemplar de cada Vanwall construído pode ser visto na famosa coleção de carros de Donington Park – sim, aquele mesmo circuito da épica corrida de 1993. E não ficam parados: os rápidos e silenciosos bólidos verdes participam de muitos eventos clássicos.

httpv://youtu.be/CetB-Zm2Qnc

Depois de Vandervell, a Fórmula 1 não foi mais a mesma. Surgiram em seu esteio aqueles a quem Enzo Ferrari mais abominou: os “Garagistas”.

Abraços,

Mário

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