Revisitando 1997 – parte 1

Outubro de 1996. Damon Hill finalmente se sagrava campeão de F1, após muito lutar com Michael Schumacher nos anos anteriores. Naquela temporada, porém, o alemão iniciava sua jornada com a Ferrari para tirar a equipe italiana do limbo. Foi uma temporada de amplo e irrestrito domínio da Williams, que conquistou doze vitórias em dezesseis corridas, sendo seis dobradinha, com o novato Jacques Villeneuve ficando com o vice-campeonato.

O ano de 1996 também mostrou, em sua maioria, corridas chatas e sem maiores emoções, pois a Williams só foi derrotada três vezes pelo talento de Schumacher e pela sorte de Olivier Panis, no caótico e inesquecível Grande Prêmio de Mônaco.

A reclamação sobre o domínio da Williams era grande, vindo de todas as partes – torcedores, equipes e TVs. E a FIA resolveu se mexer, anunciando um regulamento novo e que mudaria completamente os carros, mas que só viria em 1998.

A expectativa para a temporada de 1997, portanto, não era das mais altas.

Assim como ocorre atualmente, quem acompanhou a F1 nos anos 1990 deve lembrar que havia muita reclamação de que a F1 estava menos empolgante e chata do que nas décadas anteriores. Com um novo olhar, passados quase vinte anos, pode se dizer que, se a década de 1990 foi inferior ao decênio anterior, também pode se dizer que houve campeonatos e corridas legais ao longo da última década do século 20. E se eu fosse escolher a melhor temporadados anos 1990, escolheria 1997.

1993 foi outro ano marcante e com um nível altíssimo (os quatro primeiros daquele campeonato somariam quinze títulos mundiais!), mas não houve muita disputa pelo título. Alain Prost foi campeão com relativa facilidade, superando as estocadas de genialidade de Ayrton Senna com o carro de outro planeta da Williams. Mas em 1997 não faltaram histórias para contar e muita, muita disputa.

O que teria mudado tanto de uma temporada tão sem graça como a de 1996, para o ótimo ano de 1997? A volta da guerra de pneus! A Bridgestone faria sua estreia oficial na F1 naquele ano, calçando apenas equipes pequenas ou em desenvolvimento.

Como ocorreu oito anos antes com a Pirelli, os competentes japoneses proporcionaram ótimas surpresas, causando rebuliços durante os finais de semana de corrida com equipes pequenas surpreendendo. A Goodyear, há anos correndo sozinha na F1, não ficou de braços cruzados e melhorou bastante seus pneus, fazendo com que os tempos caíssem, em média, 2s em relação a 1996, além de melhorar a qualidade das corridas com uma aderência mecânica superior.

A Williams ainda era claramente a grande favorita para 1997, com praticamente a mesma receita desde 1991, quando a equipe do Tio Frank vinha sempre produzindo o melhor carro da temporada. Porém, havia uma mudança no line-up de pilotos, com a chegada de Heinz-Harald Frentzen, no lugar do campeão Hill.

Hoje pode soar absurdo, mas Frentzen era considerado pelos próprios alemães no começo dos anos 1990 melhor do que Schumacher quando correram juntos nas categorias de base tedescas. Por causa desse cartaz todo, havia muita expectativa do que Frentzen poderia fazer se tivesse em mãos um carro capaz de conseguir vitórias, até porque HH vinha fazendo bons trabalhos na Sauber.

O namoro entre Williams e Frentzen era antigo e finalmente deu casamento em 1997. Na sua segunda temporada na Williams e na F1, Jacques Villeneuve tinha mais experiência e mesmo tendo um bom piloto ao seu lado, o canadense almejava se tornar primeiro piloto da equipe e conquistar o título que lhe escapou em 1996.

O dispensado Damon Hill, que recusaria uma proposta da McLaren, acabou indo parar na Arrows, que se reestruturava sob a batuta do difícil Tom Walkinshaw com motores Yamaha e direção técnica do lendário John Barnard.

Entre as demais equipes consideradas grandes, nenhuma grande novidade entre os pilotos, mas a McLaren teria uma mudança importante. Após vinte e dois anos usando o icônico e tradicionally-out branco e vermelho da Marlboro, a McLaren trocaria pelo não menos bonito e histórico preto e prata da tabaqueira West em 1997.

Com apoio da Ford, a equipe Stewart era a grande novidade do ano com relação às equipes, com o escocês tricampeão de F1 levando sua equipe, com ótimos resultados nas categorias de base inglesas, para a F1. Jackie Stewart inicialmente queria Gil de Ferran, com quem tinha ótimo relacionamento, mas o brasileiro estava brilhando na Indy e preferiu ficar nos Estados Unidos, mas Stewart teria outro brasileiro na sua equipe na figura de Rubens Barrichello, além de promover a estreia de outro pupilo: Jan Magnussen.

No ano em que Ayrton Senna morreu, o dinamarquês bateu o recorde do brasileiro de vitórias na F3 Inglesa na equipe Stewart e o próprio Jackie dizia que Magnussen era tão bom quanto Senna… Havia uma boa expectativa em ver como se comportaria Magnussen em sua primeira chance real, após ter atuado como piloto de testes da McLaren, com apenas uma corrida isolada pela equipe de Ron Dennis. A Lola fazia um retorno com um carro colorido e muito lento, que só seria visto em Melbourne, já que a MasterCard, que financiava o projeto, caiu fora ao ver o tamanho da encrenca.

Logo na primeira corrida, a temporada 1997 mostrou a que veio. Jacques Villeneuve conquistou a pole com impressionantes 1s754 de diferença sobre o companheiro de equipe Frentzen, com o primeiro carro não-Williams já 2s distante do pole.

Parecia que a Williams dominaria mais uma vez, mas o destino não quis assim. Villeneuve largou muito mal naquele nublado dia em Melbourne e na primeira curva, acabou atingido pela Ferrari do incauto Eddie Irvine, saindo da corrida. Quem assumiu a ponta foi Frentzen, seguido por Coulthard e Schumacher.

O alemão disparou na ponta, mas um problema técnico no novo carro definiu a prova. A Williams tinha discos de freio mais finos que dos rivais. Só que com os pneus novos e aumento da aderência, havia o risco dos freios não aguentarem as fortes freadas de Melbourne.

Como solução, a Williams decidiu deixar seus carros o mais leve possível e com um reabastecimento a mais. Nas voltas finais, Frentzen se encontrou atrás de Coulthard e Schumacher no final da corrida, só que bem mais rápido. Quando o alemão estava se aproximando dos dois, um dos discos de freio da Williams falhou de uma vez e Frentzen rodou no final da reta dos boxes, ficando fora dos pontos.

Schumacher teve que fazer uma parada não programada nas voltas finais por problemas na mangueira de combustível e com isso, David Coulthard vencia em Melbourne com o novo layout West dando sorte à McLaren, que retornava ao topo do pódio depois de mais de três anos, após a vitória de Senna em Adelaide/1993.

Após essa corrida problemática na Austrália, a Williams voltou ao normal nas duas corridas sul-americanas a seguir, com Villeneuve vencendo no Brasil e na Argentina. Em Buenos Aires, enquanto Michael Schumacher ficou de fora após batida na largada, Villeneuve fez a prova com problemas estomacais e, cansado, sofreu uma pressão enorme de Eddie Irvine no final da corrida, mas o canadense segurou bem o piloto da Ferrari e os dois subiram ao pódio junto com Ralf Schumacher.

O irmão mais novo de Michael Schumacher estreava na F1 em 1997 já mostrando muito do que seria sua carreira nos próximos dez anos na F1. Nas duas primeiras corridas, Ralf se acidentou muito e esteve longe de marcar pontos (lembrando que naquela época, só os seis primeiros marcavam pontos). Em Buenos Aires, Ralf largou em sexto, se envolveu em uma acidente com o seu companheiro de equipe Giancarlo Fisichella e numa corrida excepcional, chegou em terceiro lugar, se tornando na ocasião, o piloto mais jovem a subir ao pódio, com 21 anos de idade. Nas suas três primeiras corridas de F1, Ralf Schumacher mostrava muita velocidade, inconstância e um mau relacionamento com o seu companheiro de equipe. Essas foram as três marcas de Ralf na F1…

A F1 iniciava a temporada europeia com a Williams novamente na ponta em Imola, mas desta vez com Frentzen vencendo, com o alemão derrotando o seu antigo rival Michael Schumacher. Era a primeira vitória de HH na F1 e com motivação em alta, o alemão também conquistou sua primeira pole na prova seguinte, em Monte Carlo, tendo ao lado Schumacher. Era o domínio alemão que a F1 só veria nos anos seguintes, mas que a Williams ajudou a estragar em Mônaco.

Quatorze anos antes, a Williams venceu em Mônaco com Keke Rosberg apostando numa estratégia arriscada, ao colocar pneus slicks no carro do finlandês, quando havia acabado de chover. Como a pista estava apenas úmida na largada em 1983, Keke assumiu a ponta na largada e partiu para a vitória. Em 1997, o principado de Mônaco amanheceu com muita chuva e se inspirando em Rosberg, a Williams montou seus carros com pneus slicks com a pista claramente molhada.

Foi um fracasso retumbante, com os dois carros da Williams abandonando quando andavam nas últimas posições, proporcionando a primeira vitória de Schumacher naquele ano. Mais atrás, se aproveitando dos ótimos pneus de chuva da Bridgestone, Rubens Barrichello fazia uma excelente corrida para ser segundo, entregando um pódio para a Stewart logo na quinta corrida do time. Não faltou a ‘sambadinha’ e Jackie Stewart estava claramente emocionando com a conquista de sua equipe. Mas apesar das boas exibições da equipe ao longo do ano, a falta de experiência e o noviciado da equipe fariam com que os seis pontos conquistados por Barrichello naquele dia fossem os únicos da equipe Stewart em 1997.

E Magnussen? Dizia-se que ele iria destruir Barrichello dentro da Stewart com toda a sua velocidade, mas o dinamarquês nunca esteve perto de entregar o que dele se prometia e ele acabaria dispensado da equipe que apostou nele em 1998.

Villeneuve daria a volta por cima em Barcelona, com sua terceira vitória no ano e liderança do campeonato. Mas um piloto francês, já veterano, começava a chamar atenção de todos. Após vencer em Mônaco na base da sorte em 1996, Olivier Panis começava 1997 cheio de dúvidas quanto ao seu futuro, pois a equipe Ligier tinha sido vendida enquanto se preparava para a temporada 1997 e o tetracampeão Alain Prost se tornava chefe de equipe, antigo sonho do francês.

Porém, ao contrário dos prognósticos, a equipe Prost iniciava a sua jornada na F1 com o pé direito, com um bom chassi e os pneus Bridgestone ajudando bastante. Panis conseguiu um ótimo terceiro lugar em Interlagos e estava em segundo quando abandonou em Buenos Aires. Após corridas mais discretas em Ímola e Monte Carlo, Panis fez uma corrida excepcional em Barcelona.

Numa briga fortíssima contra a Ferrari de Schumacher e a Benetton de Alesi, Panis estava em segundo lugar e se aproximando de Villeneuve, quando foi vítima de ordens de equipe da Ferrari. Sempre subserviente à sua equipe, Irvine diminuiu o seu ritmo e como retardatário, ficou à frente de Panis, para que Schumacher tivesse uma chance de tomar o segundo lugar do francês da Prost…

Como se os deuses do automobilismo estavam justos naquele dia, a tática deu errado, Irvine foi punido e Schumacher acabou ultrapassado por Alesi. Mas o tempo perdido atrás de Irvine fez com que Panis não tivesse chance de alcançar Villeneuve, mas garantia ao francês o terceiro lugar do campeonato.

Na tabela, Villeneuve tinha 30 pontos, apenas 3 a mais que Michael Schumacher. E Panis vinha em seguida,com 15 pontos.

Continuamos nosso flashback numa próxima oportunidade.

Abraços,

JC Viana

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