Revisitando 1997, parte 2

Retomamos a temporada [confira aqui a primeira parte] a partir do Canadá, em Montreal. Casa de Jacques Villeneuve, que apareceu loiro na pista que leva o nome do seu pai, para desespero da área de marketing da Williams, que fez a promoção daquela corrida com Villeneuve ‘natural’.

Os canadenses lotaram as arquibancadas para verem Jacques vencer, mas o canadense, após perder a pole para Michael Schumacher por apenas um centésimo, bateu na chicane da reta de chegada ainda na segunda volta, frustrando a todos que estavam no Circuito Gilles Villeneuve. Era a ‘inauguração’ do muro que mais tarde seria chamado de ‘Muro dos Campeões’.

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Porém, o maior drama da corrida canadense não seria com Villeneuve. Olivier Panis teve problemas técnicos no começo da prova, mas se mantinha na corrida, sendo um dos mais rápidos na pista. Nas voltas finais, o francês perdeu o controle do seu Prost nos rápidos esses e bateu forte no muro, quebrando as duas pernas. Panis ficou meses em recuperação e, mesmo que tenha conseguido voltar a pilotar ainda naquele ano, não mostraria o mesmo brilho. Uma pena, pois ele vinha numa brilhante terceira posição no campeonato.

Como havia acontecido quando venceu os títulos de 1994 e 1995, Schumacher tirava leite de pedra da Ferrari. Mesmo com um equipamento nitidamente inferior ao da Williams, o alemão conseguia superar os pilotos da equipe inglesa. Ao vencer no Canadá, com certa dose de sorte, Schumacher assumiu a liderança, que se estenderia na França, com uma brilhante vitória.

O alemão estava liderando a corrida, seguido de perto por Heinz-Harald Frentzen, quando começou a chover em Magny-Cours nas voltas finais. Muitos pilotos pararam, incluindo o terceiro colocado Villeneuve, que caiu para quarto. Schumacher e Frentzen permaneceram na pista molhada com pneus slicks e sem perder muito ritmo para quem tinham pneus para pista molhada, receberam a bandeirada em nova dobradinha alemã.

A Benetton fazia uma temporada discreta com seus dois veteranos pilotos e para piorar, na véspera do Grande Prêmio do Canadá, Gerhard Berger teve problemas após uma cirurgia de sinusite e não estaria presente em Montreal, sendo substituído pelo seu compatriota, o jovem Alexander Wurz. Alto, magricela e carismático, Wurz chegou com uma sapatilha de cada cor em Montreal e logo na sua terceira corrida na F1, em Silverstone, Wurz conseguiu seu primeiro pódio com um terceiro lugar, atrás de um recuperado Villeneuve e Jean Alesi. Um pódio que só aconteceu porque o motor Mercedes do então líder Mika Häkkinen explodiu nas voltas finais, eliminando o piloto da McLaren.

Berger postergava a sua volta e quando seu pai faleceu nas vésperas do Grande Prêmio da Alemanha, em Hockenheim, vítima de um acidente aéreo. Muito se falou que o simpático austríaco não retornaria mais à F1. Berger quase havia vencido na pista alemã em 1996, perdendo a corrida na penúltima volta com o motor quebrado, mas nada levava a crer que o piloto, que só havia marcado dez pontos até então e estava longe de brilhar, pudesse repetir a corrida do ano anterior.

Porém, Berger surpreendeu a todos com uma pole espetacular, uma corrida perfeita e uma vitória dominadora. Na verdade, era a primeira vez em muitos anos que Berger brilhava na F1 e o austríaco o fez numa situação extremamente difícil para ele.

Foi uma vitória de personalidade. Aos 38 anos de idade, Berger encerraria sua carreira na F1 no final da temporada, deixando o seu lugar para Wurz a partir de 1998, que teria como companheiro de equipe Giancarlo Fisichella. O jovem italiano brilhou em Hockenheim, mas foi traído pelo temperamental motor Peugeot já nas voltas finais. Depois da corrida, Fisichella pegou carona no carro de Schumacher, no que seria uma das cenas mais marcantes de 1997.

Com mais da metade da temporada de 1997 já tendo transcorrido, onde estaria o atual campeão Damon Hill? Após finalmente se tornar campeão e dispensado da Williams, Hill embarcou na aventura de Tom Walkinshaw, que comprou a Arrows com a esperança de transformar a equipe, que normalmente brigava pelas últimas posições, num time competitivo.

Porém, Hill teria que se acostumar em sofrer com um carro que se demonstrava frágil demais. Logo na primeira corrida em Melbourne, Damon abandonaria na volta de apresentação após largar da última fila. Ele até conseguia algumas boas classificações, mas terminar as corridas estava difícil.

O campeão vigente ficou zerado até a metade da temporada, quando conseguiu um ponto suado num 6º lugar em Silverstone, o que foi comemorado pela torcida inglesa como se fosse uma vitória. Então, veio Hungaroring e sua pista travada, em provas realizadas normalmente com muito calor. Essa acabou se configurando numa ótima combinação para os pneus Bridgestone e Hill foi o piloto que mais se aproveitou da situação.

Logo na classificação, Damon emplacou um promissor terceiro lugar. Durante a corrida, o inglês voltou a brigar pela vitória, como havia feito nos últimos tempos. Ultrapassou seu antigo rival Schumacher com uma facilidade desconcertante. Michael estava em apuros, usando carro reserva após danificar o titular no warm-up, e com pneus com calibragem errada.

Damon estava num sólido segundo lugar, atrás de Frentzen, quando o alemão da Williams teve um problema no bocal de reabastecimento, fazendo com que seu carro soltasse labaredas quando fazia curvas para a direita. Hill assumia a liderança com confortáveis 20s de vantagem sobre Villeneuve.

Quando venceu em Suzuka, no ano anterior, parecia que Hill nunca mais triunfaria novamente na F1. Mas o inglês estava prestes a ter uma tarde de Cinderela. Contudo, assim como no conto infantil, a Arrows voltaria a se tornar abóbora numa das chegadas mais dramáticas da história da F1. Faltando três voltas para o fim, Hill perdeu completamente o ritmo, com problemas hidráulicos em seu carro. O acelerador não funcionava corretamente e Hill perdeu toda a vantagem que tinha para Villeneuve, mas o canadense só alcançou Damon na última volta, tendo que ir para a grama para finalizar a ultrapassagem da vitória, enquanto Hill (e todo o mundo da F1) se lamentava pela vitória ter escapado tão perto do final.

Schumacher voltaria a dominar uma corrida debaixo de chuva, em Spa, enquanto em Monza, a F1 mostrava todo o seu equilíbrio de 1997. Os seis primeiros colocados, de cinco equipes diferentes, separados por apenas 11s. Coulthard vencia pela segunda vez no ano, derrotando o poleman Jean Alesi. Como havia acontecido três anos antes, Alesi não aproveitou a pole que conquistara em Monza, pista onde sempre andou bem, e amargou outra corrida decepcionante.

Alesi vinha fazendo uma temporada bisonha, incluindo uma pane seca em Melbourne, por não ter obedecido a equipe Benetton. Em Monza, Alesi brigaria pela vitória pela última vez na F1, saindo da Benetton e se transferindo para a Sauber a partir de 1998. Piloto extremamente promissor no começo da década, Alesi ficaria para sempre com o rótulo de eterna promessa. E seria outra eterna promessa que se destacaria na corrida seguinte.

Quando Panis quebrou as pernas, foi substituído na Prost pela grande promessa italiana do momento: Jarno Trulli. Um dos melhores pilotos de kart de todos os tempos, Trulli logo se associaria com Flavio Briatore e teria uma ascensão meteórica até a F1, onde estreou com apenas 22 anos pela Minardi.

Substituindo Panis, Trulli logo mostrou muita velocidade, mas também inexperiência, como quando perdeu pontos preciosos na Alemanha ao rodar. Dez anos após a saída da Áustria do calendário da F1, a categoria retornava ao local. Mas Zeltweg era um circuito completamente diferente do encantador e espetacular antigo traçado que todos estavam acostumados a ver. O novo A1-Ring era uma pista com muitas retas, curvas pontudas e pouca inspiração.

Enquanto os puristas reclamavam, Trulli conseguia um ótimo terceiro lugar no grid. Numa largada muito boa, deixou Villeneuve para trás e, se aproveitando da quebra precoce de Häkkinen, passou a liderar a corrida com autoridade, sustentando a pressão de Villeneuve por 37 voltas. Trulli seria superado pelo canadense na estratégia, e viria a quebrar quando vinha em segundo. Panis estaria de volta na corrida seguinte, mas Trulli ficaria na Prost em 1998, continuando sua longa carreira na F1 com o mesmo rótulo de Alesi.

A corrida seguinte seria de estreia do GP de Luxemburgo, mas num circuito velho conhecido da F1: Nürburgring. Era a casa da Mercedes, que queria ter recompensado o grande investimento que havia feito no seu motor e na própria McLaren. Mesmo com as vitórias de Coulthard, a McLaren-Mercedes esperava muito mais da temporada, principalmente por já ter o motor mais potente da F1 de então. No entanto, o que mais chamava a atenção era a falta de sorte de Häkkinen.

Em Silverstone, Mika liderava a corrida com facilidade, quando abandonou nas voltas finais. Na Áustria, o finlandês quebrou o motor ainda na primeira volta quando liderava. Em Nürburgring, em meio às comemorações dos seus 29 anos de idade, Mika Häkkinen conquistava a sua primeira pole na F1 e por causa de uma largada caótica, a McLaren-Mercedes vinha correndo em dobradinha. A primeira curva em Nürburgring quase viu uma cena digna de Caim e Abel, quando Ralf Schumacher tentou uma manobra para lá de otimista e acabou tirando da corrida o seu irmão Michael, líder do campeonato, atrapalhando bastante a campanha do piloto da Ferrari. Na corrida, Häkkinen fazia uma corrida madura na frente e parecia que finalmente venceria pela primeira vez na F1.

Com 94 Grandes Prêmios, Häkkinen poderia se tornar o piloto que mais corridas fez antes de vencer uma corrida. Na volta 42, David Coulthard entrou na reta dos boxes com o motor fumando e lentamente passou em frente ao pit-wall da McLaren acenando, como que dizendo ‘o que eu posso fazer?’. Então, na volta seguinte, exatamente no mesmo local, Häkkinen vinha se preparando para rasgar a reta… mais fumaça vindo de um motor Mercedes! A cara do diretor da Mercedes Norbert Haug chegava a ser hilária, mas todos sentiram pena de Häkkinen naquele dia, que voltou sorrindo na sua curta caminhada para os boxes. Essa falta de sorte seria recompensada mais tarde.

Com a quebra dos dois carros da McLaren em Nürburgring, praticamente ao mesmo tempo, Villeneuve venceu novamente e abriu nove pontos de vantagem para Schumacher no campeonato, podendo liquidar a fatura na penúltima etapa do ano, em Suzuka, pista em que Jacques conhecia muito bem dos tempos na F3 Japonesa.

Mas os dramas de Suzuka, e o incrível desfecho em Jerez, eu deixo pra terceira e última parte deste flashback.

Abraços,

JC Viana

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