Reviravoltas malaias

Tão perto, tão longe. O GP da Malásia nos proporcionou diversas e interessantes reviravoltas que muitíssimo provavelmente serão determinantes para o desfecho do campeonato.

Mas para entender o exótico pódio malaio formado por Daniel Ricciardo, Max Verstappen e Nico Rosberg, temos que retroceder até os treinos.

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A primeira reviravolta é da própria vencedora da corrida. A Red Bull começou apenas como terceira força nos treinos livres, melhorou no qualify e acabou o domingo com uma dobradinha, em disputa franca e empolgante entre seus pilotos.

Ao mesmo tempo, claro, a Ferrari foi tão ou mais derrotada quanto a Mercedes. Nas duas ocasiões em que os prateados não ganharam (a outra foi na Espanha), a Ferrari não conseguiu aproveitar-se para emplacar uma vitória.

Não custa lembrar que a Ferrari venceu na Malásia ano passado. Eles ganharam três corridas em 2015 com Sebastian Vettel, piloto que não é nem sombra do que foi um ano antes, quando quase conseguiu roubar de Rosberg o vice-campeonato.

A segunda reviravolta foi com o próprio Rosberg. Ele não fez particularmente uma largada que mereça elogio, mas posicionou-se muito bem para a tomada da primeira curva.

Ele tinha uma grande chance de conseguir mergulhar por dentro do pole Lewis Hamilton na curva seguinte, saindo do trecho como líder – um golpe e tanto nas pretensões do companheiro de equipe.

Dessa vez a reviravolta veio na forma da porrada do incauto Vettel. Enquanto o piloto da Ferrari ficou fora de combate, Nico resolveu reunir forças e começar uma recuperação desde a 17ª colocação.

Pra quem quase ficou de fora da corrida, ter chegado em terceiro foi um feito e tanto. A propósito: o que foi aquela punição a Rosberg pela ultrapassagem em Kimi Räikkönen? Caramba, ultrapassagem faca-na-caveira, forte, determinada, decidida, ousada…

Tem hora que a gente perde a esperança.

Dá até pra desconfiar, de leve, que houve uma tentativa de empurrar Nico pro quarto lugar e não dar tanta vantagem para o alemão na tabela de pontos.

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A última e maior reviravolta, claro, é a de Hamilton. Ele tinha 25 pontos no bolso, quando as labaredas tomaram conta de seu bólido prateado a 16 voltas do fim. Hoje, um motor que explode virou um evento absolutamente dramático e exótico. São dois os fatores que amplificam o drama.

O primeiro é a questão da durabilidade. Motores e câmbios são feitos hoje para serem usados por várias corridas seguidas, tornando a Fórmula 1 numa enorme endurance fatiada em vários GPs de 300 km.

Não existe mais aquele conceito do Colin Chapman de carro projetado pra se desmontar após a bandeirada. Isso significa que, em nome da contenção de custos (seja isto balela ou não), a Fórmula 1, que tem como um dos pilares fundamentais a superação de limites, está limitada na questão da durabilidade.

Eu particularmente não gosto disso. Prefiro pensar que um motor ou uma caixa de câmbio, durante uma corrida, sempre estão a ponto de explodir porque os projetistas as fazem com pensamento de performance máxima. A F1 de hoje está num patamar bem abaixo disso.

Outro ponto das quebras que é muito mais chocante é o impacto que isso tem na tabela de pontos. Hoje vale muito mais ser consistente do que arriscar-se pela vitória.

Isso ocorreu porque as pontuações foram dramaticamente elevadas. Num passado já distante, a vitória valia 10 pontos. Hoje vale 25. Você ter um motor quebrado na liderança uma década atrás significava perder muito menos que agora. A diferença entre o primeiro e o segundo (25×18) é de apenas 7 pontos. Mas o abandono são os 25 pontos de uma vez só. Um abismo enorme.

É por isso que ainda defendo o sistema de “melhores resultados”, conhecido vulgarmente como “sistema de descartes”. Fazer contar apenas os melhores resultados na tabela de pontos “purifica” os resultados e faz com que haja mais necessidade de disputa pela vitória ou postos melhores nas corridas, além de eliminar resultados ruins por quebras e imponderáveis.

E o que eu acho de um motor quebrado? É lindo ver todo aquele óleo espirrado, fumaça e labaredas. Quebras são inerentes ao esporte a motor. O fator quebra tornou muitas corridas e campeonatos interessantes. Muitas dessas quebras, por sinal, mudaram o destino de campeonatos.

Mas com essa regra de motores e câmbios para vários GPs, e um sistema com pontuação tão alta para cada corrida, quebras serão cada vez mais raras.

Por sinal, soa um tanto ridículo Hamilton “cobrar explicações” da Mercedes. Caramba, o cara ganhou os dois últimos campeonatos em carros desse time, o melhor disparado do grid, e ainda pode ganhar o terceiro.

E que eu saiba, nenhum time tem um botão de auto-implosão para eliminar um piloto que está na liderança, fazendo não apenas com que perca a corrida como não possa comemorar com antecipação o título de construtores diante da casa da Petronas, além de não conseguiu igualar a performance da McLaren de 1988.

Ele perdeu a espetacular chance de ficar quieto.

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Tivemos também a reviravolta vivida por Fernando Alonso. Mais uma vez punido com trocentas posições no grid por trocar componentes que sempre quebram em sua McLaren, o espanhol voou da 22ª e última posição para um surpreendente 7º lugar, à frente da Force India de Nico Hülkenberg (carro melhor que o seu), de seu companheiro Jenson Button, que completou 300 GPs, e da Renault de Jolyon Palmer, que finalmente pontua na temporada.

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Como fica o campeonato? A implacável matemática nos diz que Rosberg já pode ao menos parcialmente tomar um tom conservador. Isso porque os carros da Mercedes têm potencial para fazer dobradinhas no restante dos cinco GPs da temporada: Japão, States, México, Brasil, e Abu Dhabi – talvez nesta última, com alguma dificuldade.

E se Rosberg ganhar apenas UM desses GPs e apenas comboiar Hamilton nos restantes, fecha o campeonato em seu favor por 2 pontos. Vale lembrar que Nico venceu México, Brasil, e Abu Dhabi ano passado…

Mas claro, sempre temos que contar com as reviravoltas. O GP da Malásia não nos deixa esquecer.

Abração!

Lucas Giavoni

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