Trocando as bolas

Olá amigos do Gepeto! Estou escrevendo minha coluna um dia antes da publicação, 25 de outubro de 2016. Essa é uma data que ficará para sempre marcada entre os amantes do motociclismo mundial. Estamos completando exatamente um ano do polêmico “Incidente de Sepang” entre Valentino Rossi e Marc Márquez na 12º volta do GP da Malásia do ano passado.

O toque ocorrido entre as curvas 13 e 14 do circuito de Sepang foi tão sutil que gera discussões até hoje. Alguns alegam que Rossi perdeu a paciência e empurrou Márquez para fora da pista. Outros acham o contrário, que foi o espanhol quem perturbou o italiano para impedi-lo de ser campeão do mundo pela décima vez. Seja qual for a sua opinião, o fato é que, desde então nada foi como era antes.

Além da subsequente punição que fez Rossi perder o título e o clima de inimizade que se instaurou, parece que os dois maiores nomes da MotoGP atual trocaram as bolas em Sepang. Quem acompanhou de perto a temporada 2016 percebeu muito claramente a influência que aquele microssegundo trouxe ao campeonato atual.

Um deles foi o meu amigo e colega Márcio Madeira. Responsável por fazer as crônicas das etapas ao Gepeto enquanto estou ocupado com o meu site (Notícias Motociclísticas), ele percebeu um detalhe muito interessante: Rossi correu em 2016 como o Márquez de 2015: no limite, tentando ser veloz o tempo todo. Já o espanhol se comportou como o italiano no ano passado: regular, cerebral, sereno.

Mas por que isso aconteceu? Rossi e Márquez tiveram um inverno inteiro para refletir sobre as últimas semanas da temporada 2015. Foram dias amargos para ambos. Enquanto um lamentava um momento de descontrole que lhe custara o título, o outro viu a sua reputação ficar arranhada, além de sofrer ameaças e insultos diários.

Rossi com certeza deve ter pensado: “não posso mais ficar refém desse tipo de situação”. Ou seja, depender das atitudes dos outros para ser campeão. Por isso, aos 37 anos de idade, o lendário piloto tentou conseguir o que parecia ser impossível: ficar ainda mais rápido, principalmente em classificações.

Foi o que ele fez. Enquanto em 2015 tinha dificuldades até para conseguir entrar na primeira fila do grid de largada, o Rossi de 2016 já conquistou três pole positions exibindo a classe de sempre, graças a voltas voadoras nos últimos segundos, lembrando muito um brasileiro na Fórmula 1…

Durante as corridas, no entanto, seu desempenho tem sido irregular. Até o momento, duas vitórias foram conquistadas: a primeira em Jerez (liderando de ponta a ponta) e outra na Catalunha (após uma disputa antológica com Márquez). Contudo, erros decisivos foram cometidos na pista (Austin, Assen, Motegi) e na estratégia, como em Sachsenring, onde insistia em permanecer na pista, mesmo com sua equipe o chamando para os boxes.

Márquez, por outro lado, nem parece o mesmo piloto de 2015. Mais calmo, o espanhol começou o ano sem grandes expectativas, apenas com a dura missão de desenvolver a Honda RC213V, agora com a centralina eletrônica padronizada da Dorna, que não estava se apresentando bem no início. Além disso, o jovem de 23 anos queria fazer as pazes com Rossi, com sua torcida e consigo mesmo.

Márquez percebeu que pilotar todas as corridas no limite só podia resultar em duas coisas: vitórias ou quedas perigosas, que poderiam tirá-lo de combate por um longo período. Por isso o espanhol tratou de coletar pontos onde não dava para vencer e forçar apenas onde se sentia a vontade para isso. O resultado foram apenas três vitórias na primeira metade do ano, mas todas as provas completadas na zona de pontuação.

Ao chegarem à segunda metade do campeonato, Márquez já tinha 48 pontos de vantagem para Jorge Lorenzo e 59 para Rossi, que naquele momento era apenas terceiro. Por isso, o espanhol encarou as corridas seguintes com absoluto cuidado para arrematar o título o quanto antes. Foi essa postura conservadora que permitiu a sensacional sequência de cinco vencedores diferentes (Jack Miller, Andrea Iannone, Cal Crutchlow, Maverick Viñales e Dani Pedrosa) que falamos na coluna passada.

A responsabilidade passou a recair sobre a Yamaha. Mas Lorenzo, definitivamente se perde quando as condições climáticas estão desfavoráveis enquanto que Rossi, apesar de mais veloz, alternou entre erros e acertos desde a Catalunha. Ao chegarem à Motegi, ambos estavam pressionados para vencer, quando acabaram caindo e dando um adeus precoce à disputa pelo título.

O início da temporada foi o mais difícil, e talvez o mais difícil na minha carreira. Após as duas primeiras vitórias foi difícil porque quando você está liderando o campeonato pode se dar ao luxo de terminar em segundo ou terceiro. Paguei um preço alto no ano passado para aprender o que eu sei agora. Eu senti mais pressão este ano e foi difícil administrar isso durante toda a temporada.”, disse Márquez após conquistar o título em Motegi.

A sabedoria precoce tornou Márquez o pentacampeão mais jovem do Mundial de Motovelocidade, deixando para trás nomes como Wayne Rainey e Eddie Lawson e já estando em condições de igualdade com Lorenzo, Michael Doohan e Anton Mang. No motociclismo, contamos todos os títulos mundiais, mesmo aqueles conquistados em cilindradas inferiores. E ele já afirmou que não vai parar até conquistar o décimo título, não por acaso, o objetivo maior de Rossi.

É uma má notícia para os rivais, já que Márquez só tende a melhorar cada vez mais. O que não quer dizer que as coisas ficarão chatas. No próximo ano, com Lorenzo ocupado desenvolvendo a Ducati (e talvez fora de cena por um tempo), as atenções estarão voltadas para o seu substituto na Yamaha, Maverick Viñales.

Frio, preciso e muito veloz, Viñales, que está completando apenas a sua segunda temporada completa na MotoGP, parece ser (se a grande expectativa se confirmar) a maior ameaça à hegemonia de Márquez nos próximos dez anos. E ainda terá duas temporadas para aprender com o mestre Rossi, se for esperto o suficiente para isso, é claro. A grande batalha, portanto, pode estar apenas começando!

Até a próxima!

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