Espionagens, traições e teorias da conspiração – parte 1

Apesar da atual temporada da F1 ainda nem ter acabado, muitas pessoas do paddock já estão pensando em 2017. No ano que vem se celebrarão os dez anos da chegada do jovem e intrépido Lewis Hamilton à F1, pela McLaren.

Primeiro piloto negro da F1, Hamilton chegou à categoria fazendo muito barulho e mostrando seu imenso talento ao bater de frente com o então bicampeão mundial Fernando Alonso, primeiro piloto do time. Porém, o título ficou com a Ferrari, que nesse ano completa dez anos de jejum, exatamente a metade do tempo do maior jejum que a Scuderia amargou, entre 1979 e 2000.

Contudo, 2007 também ficou marcado pelo rumoroso caso ‘Spygate’, em que Nigel Stepney (Ferrari) entregou informações confidenciais a Mike Coughlan (McLaren), causando um dos maiores escândalos da história da F1. A McLaren acabaria penalizada em cem milhões de dólares (a maior multa da história) e perderia todos os pontos no Mundial de Construtores daquele ano – que seriam suficientes para ser primeira colocada.

Mas seria esse o maior escândalo de espionagem na história do esporte a motor?

Em meados dos anos 1950, a Alemanha Oriental tentava ganhar o reconhecimento mundial, mesmo com os Estados Unidos e seus aliados boicotando os comunistas o tanto quanto podiam. Uma das formas dos alemães orientais conseguirem mostrar sua força era no esporte e, por isso, foi criada uma política incessante no esporte, em que a Alemanha Oriental se tornou uma potência olímpica, principalmente nos esportes individuais, ficando atrás apenas de Estados Unidos e União Soviética.

Infelizmente, com a queda do muro de Berlin, soube-se que muitos atletas orientais conseguiram seus resultados à base de doses cavalares de doping. Um dos exemplos clássicos disso é o caso de Heidi Krieger, uma atleta de lançamento de peso, que após uso desenfreado de esteroides, hoje é conhecido como… Andreas Krieger.

Outro esporte escolhido naquela época pelo partido comunista como vitrine foi o motociclismo. Esporte muito popular nos países comunistas, o Grande Prêmio da Alemanha Oriental chegava e levar públicos superiores a 200 mil pessoas no circuito de Sachsenring.

O Mundial de Motovelocidade era dominado pelos motores quatro tempos e por isso o paddock riu com desprezo quando a equipe alemã oriental MZ (Motorradwerk Zschopau, ou Fábrica de Motocicletas de Zschopau) estreou no Grande Prêmio da Alemanha Ocidental de 1956 com um motor dois tempos e uma equipe minúscula.

Contudo, por trás da precariedade da equipe, havia um gênio liderando essa pequena revolução: Walter Kaaden. O alemão tinha participado ativamente do projeto dos mísseis V1 e V2 de Wehner Von Braun, criados para os nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.

Mesmo convidado por Von Braun para ir aos Estados Unidos participar do projeto espacial da Nasa, Kaaden preferiu ficar na Alemanha, mais especificamente no lado soviético, pois Kaaden, mesmo trabalhando para os nazistas, era um fiel comunista.

Usando o seu conhecimento em metalurgia e sua genialidade, Kaaden criou um motor de dois tempos revolucionário, utilizando até mesmo a acústica para conseguir maior eficiência do seu motor. Através da ressonância de uma câmara de expansão, Kaaden usava ondas de pressão no lugar de válvulas mecânicas. Apesar de apresentar muita fumaça e ser um motor que ainda quebrava muito, rapidamente as motos MZ ganhavam mais e mais adeptos nas categorias menores do Mundial de Motovelocidade por causa de sua enorme potência.

Nomes como Mike Hailwood e Gary Hocking andaram nas motos de Kaaden. Mas para o partido comunista, um piloto da casa (e comunista) era bem melhor para a sua propaganda.

Ernst Degner era um nome perfeito para isso. Engenheiro que se interessou pelas motos no começo da década de 1950, Degner foi contratado pela MZ em 1956, onde atuaria juntamente com Kaaden não apenas dentro da pista, mas desenvolvendo a moto. Degner foi campeão das 125cc na Alemanha Oriental em 1957 e em 1958 fez sua primeira temporada completa no Mundial, sendo alçado imediatamente como primeiro piloto da MZ nas 125 e 250cc.

Após um ano de aprendizado, Degner venceu sua primeira corrida no Mundial em 1959, no Grande Prêmio das Nações em Monza, nas 125cc, terminando o campeonato em quinto lugar, enquanto era quarto no campeonato das 250cc. Em 1960 Degner sofreu um acidente num treino para a famosa corrida TT, atrapalhando sua temporada, mas o alemão oriental ainda salvou um bom terceiro lugar no Mundial das 125cc. A essa altura, a moto MZ era a mais rápida das categorias 125 e 250cc, com o motor de dois tempos sendo o primeiro a alcançar a espantosa marca de 200 cavalos por litro!

Toda a potência e agora confiabilidade das motos MZ de Kaaden alçaram Degner a um dos favoritos para o título da categoria 125cc. Ele conquistou três vitórias, contra outras três do seu grande rival no ano, o australiano Tom Phillis, da Honda. O alemão oriental, porém, liderava o campeonato quando o Mundial de Motovelocidade chegou à Kristianstad, local do Grande Prêmio da Suécia e penúltima etapa do campeonato de 1961. Degner tinha chances matemáticas de vencer antecipadamente o título na Suécia e a propaganda comunista noticiou em primeira página em todos os jornais da Alemanha Oriental o feito de Degner. Uma moto e um piloto comunista derrotariam os decadentes capitalistas.

A largada aconteceu sem maiores problemas, mas a equipe MZ se surpreendeu quando Degner não cruzou a reta dos boxes. O circuito de Kristianstad tinha mais de 6 km de extensão e sem auxílio de câmeras de TV. Tudo o que Kaaden e o resto da equipe MZ tinha que fazer, portanto, era esperar Degner retornar aos boxes e saber o que havia ocorrido.

O retorno de Ernst Degner, porém, isso nunca iria acontecer, em um clima de enorme mistério. O que teria acontecido ao herói da Alemanha Oriental e líder do campeonato mundial de 125cc?

Esse é assunto para a segunda e última parte deste texto.

Abraços,

JC Viana

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