Se a Fórmula 1 fosse gente

Vinícius Chaer é leitor assíduo do GPTotal há anos, e sempre traz reflexões sobre a Fórmula 1. Licenciado em Matemática, é fascinado não apenas pelos números, mas pelo lado humano da categoria.

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Perdoe-me o leitor pelo excesso de imaginação. A ideia aqui é comparar Fórmula-1 com gente. E se a categoria máxima do automobilismo, essa corridinha de carro que um dia seduziu o mundo, fosse uma pessoa nascida em 1950? Fórmula é substantivo feminino. Campeonato, substantivo masculino. Mas deixemos o gênero de lado: falemos de gente, de ser humano. Seria possível associar cada grande piloto – e seu contexto – a uma fase da vida dessa pessoa imaginária? Proponho-me aqui a tentar.

A década de 1950 marcou o início do campeonato mundial – sabemos que havia longa história pregressa com os GPs -, e o início é a infância. A brutalidade de duas a três mortes por ano na aurora da F1 nada tem a ver com a leveza da infância, é fato. Mas o automobilismo daquele tempo tinha a inocência. O lúdico, tal qual na infância de qualquer um, era ainda o grande imperativo. Houve até a figura de um pai – ou uma mãe – na forma de piloto: Foi Fangio a figura primeira a marcar a vida da categoria. Categoria que, pelo menos quando não havia sangue, esportivamente falando, corria feliz como se num clipe de Aquarela de Toquinho estivesse.

Meados da década seguinte, nessa contagem, se equivaleriam à adolescência. O que foi a revolução da Lótus, as criações de Chapman, se não alguns sopros de rebeldia e liberdade? E são tais ingredientes que fazem a primeira das fases da juventude, a tal adolescência. Ninguém representaria esta fase mais e melhor que Jim Clark. A mistura do lúdico com a liberdade contestadora era Clark de Lótus, e nada mais.

Com a segunda fase da juventude costuma vir – um pouco de – juízo. Assim como alguém que ganha dente siso, ingressa na faculdade e começa a descobrir que a vida tem muito limite, muita regra, a F1 viu Jackie Stewart. O segundo escocês voador foi quem, ainda com um pé no lúdico, falou de segurança e de profissionalismo. O início da fase adulta é trabalho e busca por segurança, por mais que ainda se queira brincar – e como brincamos! Nesse embalo, com ainda mais maturidade, veio Lauda, o trintão na quase trintona F1. Niki representou o trabalho, mas também o triunfo definitivo da razão e o contado mais maduro com a dor – que pode ser também a dor da alma.

Alguém que passa dos trinta conquistando relativa estabilidade familiar e profissional, e que começa olhar para o futuro com menos ansiedade e mais – pretensa – autoridade, pensa que sabe muito, que é um professor da vida. Na F1, foi Prost, o professor, o piloto-resultado, a consequência automática de três décadas de maturação. E foi a bordo de foguetes turbinados, ainda que mais seguros. Essa fase seria também representada por Nelson Piquet, que de bonachão só se via traço nas entrevistas ou no interior do iate ancorado em Mônaco. Na F1, na pista, esses caras eram como chefes de família, pagando contas e criando filhos com a testa franzida de preocupação, mas gozando um bocado suas conquistas.

Acontece que os danados dos quarenta anos chegam para contestar a sabedoria precoce. Vem a saudade da infância, da liberdade da juventude, do lúdico, mas com o espírito carregado de experiência e com um pouco de medo do fim. Uma mistura-bomba, um Ayrton Senna. Para muitos, um apogeu. Para outros, o começo do fim. O que foi Senna vs Prost se não algo comparável, na intensidade, ao grande conflito existencial da meia idade? E realmente, por outro lado, há quem na velhice veja tal fase, essa do conflito, como a mais marcante de todas.

No entanto, o tempo não fica parado assistindo ao conflito passar. A vida acumula milhas com experiências e vivências mil. Conquistas, perdas, vitórias e derrotas. A F1 que viu o lúdico, a aerodinâmica, a segurança, os “motores de avião”, a eletrônica e quase uma inteligência artificial, como alguém que vai da infância ao meio da vida, zerou o jogo para começar de novo. Os cinquenta anos e seus precedentes mais próximos chegam calejados, provavelmente com mais dinheiro – deixemos o assunto crise financeira para lá -, mas também tentando recuperar o brilho no olho perdido. Schumacher foi a cara dessa fartura que por mais farta que tenha sido já parecia, pela primeira vez, mais perto do fim do que do começo. Schumacher foi tudo, e o paradoxo é que faltava algo.

O que vem depois dos cinquenta para muita gente é cansaço, no sentido largo do termo, algo parecido com descrença. Vem também segurança, novamente no sentido amplo, além da alegria – pontual, mas revigorante – causada pela chegada dos netos. A F1 neste século XXI se aproximou e chegou à idade que, nas pessoas, marca o início da velhice, ainda que o conceito seja muito relativo. A fase do Schumacher pós-2000 e toda essa excelente geração que o sucedeu trouxeram junto um pacote curioso, exatamente como a mistura de alegria dos netos, segurança e certa descrença no olhar. Regulamentos estranhos, carros vez por outra acanhados, lugares exóticos, audiência em queda e autódromos tilkeanos em excesso, em meio a muita grana e pilotos brilhantes, formaram na F1, tal qual na vida, o misto morno da maturidade definitiva.

Entretanto, nem tudo é pessimismo. Todo mundo morre um dia, mas a Fórmula-1, que só é gente na imaginação, tem a chance de renascer. Mesmo se ser humano fosse, não seria impossível se reinventar depois dos 70 anos. Sei lá eu como ou quando, mas a corrida que importa será pela aliança perfeita entre segurança, business, audiência, correção ambiental e o resgate da velha octanagem emocional da esportividade. Afinal, é natural que se caminhe para a morte – ou para o renascimento – buscando equilíbrio. Buscando algo um dia perdido, mas levando consigo todo o aprendizado.

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Post scriptum: Pode ter ficado uma certa incoerência no começo do texto o Fangio não ser a criança da história. Ora, o grande Fangio simplesmente não poderia ser a criança.

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Abraços,
Vinícius M. S. Chaer

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