Sonhos frustrados – parte 1

Samuel Mudd era um modesto médico rural no estado de Maryland. Mudd havia herdado uma plantação da família que se encontrava a apenas uns 30 quilômetros da capital federal Washington, e ali tinha sua pequena consulta, desde onde atendia os vizinhos das redondezas. Contudo, com o objetivo de progredir e dar o melhor à sua família. O sonho de Mudd era ampliar a consulta e convertê-la numa verdadeira clínica.

Na madrugada do dia 15 de abril de 1865, Mudd acorda quando ouve como batem à sua porta. Eram dois homens que requeriam seus serviços. Um deles lhe diz haver caído do cavalo e que sentia fortes dores numa perna. Mudd comprova que seu tornozelo estava muito inchado. Tao inchado que, para poder retirar-lhe a bota, Mudd teve de cortá-la para poder examinar a perna.

O diagnóstico foi muito fácil: o homem tinha o tornozelo quebrado. Mudd aplica os tratamentos necessários e lhe venda e entala a zona afetada. Pelo bem do ferido, também permite que os dois homens passem a noite lá para que pudessem continuar sua viagem já com a luz do dia. Isso mesmo é o que fariam após pagar 25 dólares pelos serviços recebidos.

Dois dias depois, uma patrulha militar chega em sua casa. O tenente lhe dize estar perseguindo uns fugitivos relacionados com o assassinato do presidente Abraham Lincoln, acontecido dois dias antes em Washington, e Mudd lhes conta como havia atendido um homem ferido naquela madrugada. Então, encontram a bota cortada daquele homem e o tenente da patrulha, ao examiná-la, observa que havia um nome gravado em seu interior: John Wilkes Booth.

Aqueles eram, precisamente, os homens que estavam sendo perseguidos. Booth foi quem disparou a Lincoln enquanto que o outro era David Herold, quem lhe estava ajudando em sua fuga. Nos dias posteriores ao assassinato, os dois homens seriam capturados, assim como outros implicados, e uma verdadeira e irracional sede de vingança toma conta do pais. Arrastado por aquela louca e cega voragem, Mudd acabaria sendo acusado de formar parte do complô para cometer o ‘magnicídio’.

Um tribunal militar se encarrega de julgar o caso e, em apenas alguns dias, o juízo fica pronto para sentença. Todos os implicados seriam declarados culpados e sentenciados a morte, exceto Mudd que seria condenado a cadeia perpétua e enviado à terrível penitenciária da pequena ilha dos tubarões, ao sul da Flórida.

Mudd sempre manteve não ter nada a haver com o complô e que apenas havia cumprido seu dever de médico ao atender o ferido, e sua família e advogado também continuaram firmes lutando por sua liberdade. Finalmente, quase 4 anos depois, o presidente Andrew Johnson lhe concederia o indulto. Porém, Mudd, agora débil e enfermo, já nunca poderia cumprir seus sonhos de futuro.

Durante o GP da África do Sul de 1977, Tom Pryce perderia a vida num terrível acidente e seu companheiro Renzo Zorzi, involuntário participe no lance, abandonaria a formula 1. Alan Jones ocuparia o lugar de Pryce enquanto que para cobrir a vaga de Zorzi, outro italiano é chamado: Riccardo Patrese.

Patrese era um jovem piloto com uma carreira muito bem-sucedida até então. Havia sido campeão da Itália e do mundo de Kart, assim como campeão italiano e europeu da formula 3, e da Itália da formula 2 em 1976. Havia vencido o GP de Macau em 1977 e disputava o campeonato europeu da F2 quando foi chamado pela Shadow.

Sua estreia com a Shadow seria no difícil circuito de Mônaco, onde Patrese acabaria num meritório 9º lugar havendo partido da 17ª posição. Nas seguintes grandes prêmios, abandonaria na maioria por problemas mecânicos (em algumas se ausentou por coincidência com a F2) mas na última corrida, no Japão, conseguiria seu primeiro ponto, ao acabar em 6º lugar

Em 1977 a Shadow já tinha sérios problemas internos e as diferenças pessoais entre Don Nichols e Jacke Oliver, levam à excisão da equipe. Oliver, junto a outros membros decidem formar sua própria escuderia para 1978: a Arrows. Os pilotos seriam Riccardo Patrese e Gunnar Nilson. Contudo um câncer obriga o sueco a abandonar as pistas e a Arrows começa o campeonato só com Patrese.

Antes do início da temporada, o patrocinador da equipe – o financeiro Franco Ambrósio – é preso na Itália por irregularidades fiscais e seu dinheiro desaparece, e a equipe não se apresentaria na corrida inaugural na Argentina. No Brasil, a Arrows participaria com seus carros pintados de branco e com o patrocínio conseguido no último instante da Varig. Em Kyalami o carro continua pintado de branco, mas já aparece uma pequena publicidade da cerveja alemã Warsteiner e Rolf Stommelen é chamado a ocupar o lugar de Nilson.

Enquanto que no Brasil Patrese conseguia um meritório 10º lugar, na África do Sul o italiano surpreende a todos e, após superar consecutivamente a Lauda, Schecketer e Andretti, chegaria a liderar a prova com 14 segundos de vantagem sobre Depailler e Peterson, até abandonar a poucas voltas do fim com o motor quebrado.

httpv://youtu.be/q99k2r6GeS4

Tao extraordinário rendimento não passa despercebido e Patrese é logo convocado a uma reunião com Ferrari em Maranello e, ali, o comendador lhe oferece um pré-contrato. Realmente se tratava de uma declaração de intenções por ambas partes. Ferrari se reservava a opção de oferecer a Patrese um contrato na primeira ocasião que tivesse pois, naquela temporada, a equipe já estava completa com Villeneuve e Reutemann, ainda que o argentino abandonaria a equipe no fim da temporada. Enquanto Patrese se comprometia a esperar dita oferta. No caso de que a Ferrari acabasse decidindo não apresentar nenhum contrato firme, Patrese receberia uma compensação econômica estipulada.

Na seguinte prova em Long Beach, a Arrows já apareceria com o patrocínio da Warsteiner e Patrese conseguiria terminar em 6º lugar, ainda que parecia ter podido fazer mais não fosse por problemas no motor. Na Bélgica, disputando uma posição com Hunt na largada, ocorre um toque entre ambos e o inglês acaba batendo no muro e abandona. Aqui começaria a tensão entre ambos. Patrese também abandonaria pouco depois, assim como na Espanha.

No GP da Suécia, Patrese conseguiria uma fantástica 5ª posição no grid, somente atrás dos dois Lotus e dos dois Brabham para, após duras disputas com Watson, Jones e finalmente Peterson, terminar no segundo degrau do pódio. O sueco e Watson se queixariam da forma de se defender do italiano.

httpv://youtu.be/uCKZxIAdk5E

Para então, Patrese já havia despertado o interesse de outras equipes grandes e Ecclestone inclusive lhe oferece um bom contrato por três anos na Brabham. Contudo, ainda que o acordo com Ferrari não era vinculante, Patrese lhe fala a Ecclestone sobre o assunto e amavelmente declina aceitar sua oferta. Bernie fica impressionado pela correção e profissionalismo de Patrese, e uma boa relação de respeito se inicia entre ambos.

Na França, Patrese consegue o 8º lugar, após largar desde a 12ª posição. Na Inglaterra, partiria duma excelente 5ª posição no grid, para abandonar com um pneu furado quando estava em segundo e na Alemanha, após duras disputas com vários pilotos, uma derrapagem lhe condenaria à 9a posição final. Na Áustria, a Arrows estreia o modelo A1, que resultaria inferior ao FA1 usado até então, e Patrese abandona ali e na Holanda.

Assim chegamos ao GP da Itália, em Monza. Desde a morte de Rindt, em 1970, a segurança do circuito preocupava muito. Um dos pontos mais perigosos era a curva grande no fim da reta, onde os carros chegavam a mais de 300 km/h e que estava rodeada por frondosos arvores. Uma solução teria sido cortar algumas arvores e criar uma grande área de escape, mas o problema é que isso seria duramente criticado pelos grupos ecologistas e a solução implementada foi a de construir uma dupla chicane depois entre a largada e a curva grande esperando, assim, reduzir a velocidade dos carros antes de chegar a dita curva.

Confira a continuação deste texto clicando aqui.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *