Sonhos frustrados – final

Confira a primeira parte deste texto clicando aqui.

No dia 10 de setembro às 15:00 horas e, após a volta de reconhecimento, os 24 carros começam a se colocar em seus lugares no grid, com Andretti e Villeneuve na primeira linha. O diretor Gianni Restele espera com a bandeira preparado para dar a largada.

Andretti e Villeneuve começam a revolucionar seus motores e até se adiantam um pouco (de fato, ambos seriam depois castigados por queimar a largada), o que distrai Restelli que, antes de que os carros do fundo se detenham, abaixa a bandeira.

Ronnie, na terceira linha, é pego por surpresa e larga bastante mal, algo bastante incomum nele. Enquanto isso, os carros do fundo, aproveitando que ainda não estavam parados, se lançam para frente velozmente. Peterson é logo superado sucessivamente por Alan Jones, John Watson e Jacques Lafitte. Depois é Jody Scheckter quem, cruzando ousadamente a pista de um lado para o outro, supera a Ronnie e James Hunt.

Para então, os carros já se aproximavam à chicane, onde a pista começava a se estreitar, convertendo-se num verdadeiro funil. Dos 22 metros de largura iniciais, se passava a apenas 9 metros. Aqui ficou evidente que não havia distância suficiente entre a largada e a chicane para que os carros pudessem estabilizar suas posições, ainda que no ano anterior não havia acontecido nada.

 

Patrese, que largava desde a 6a fila, logo atrás de Hunt, também vinha forte e, ao ver que a pista se estreitava, logo que passa por Hunt, se lança para a esquerda para entrar no espaço que havia entre Scheckter e o inglês. O britânico, talvez surpreendido, por sua vez, vai para a esquerda e toca a roda traseira direita do sueco quem, em plena aceleração, perde o controle do carro e vai direto contra os guard-rails, onde arrebenta por completo todo o bico do carro, que logo se incendia. Cegado pela fumaça, Vittorio Brambilla colidiria com os restos do Lotus e outros carros também se involucrariam diretamente naquele inferno. Apenas alguns carros da frente se livrariam do caos que se forma por trás deles.

Hunt, logo pula do seu McLaren e vai ajudar Ronnie, tentando retirá-lo do carro. Regazzoni chega enseguida e os dois conseguem salvar Peterson das chamas. Porém, o sueco estava gravemente ferido, vindo a falecer no hospital algumas horas depois. Hunt, desde o primeiro momento, acusou duramente Patrese do acontecido, dizendo que o italiano lhe havia golpeado a roda dianteira direita, lançando seu carro contra o de Peterson. Pilotos como Lauda, Fittipaldi, Andretti ou Scheckter, entre outros, logo se juntam a Hunt em suas críticas ao italiano, e Patrese é apontado como causante do desastre.

Fittipaldi, possivelmente afetado pela morte do amigo, era um dos mais duros com Patrese. Alguns dias depois, Riccardo telefona a Emerson para lhe dar sua versão dos acontecimentos, mas Fittipaldi lhe responde: “Você é o responsável. Tenho o filme da televisão e as imagens são claras!“.

Colin Chapman, era outro que também  culpava Patrese e até se atrevia a dar uma descrição do acontecido, dizendo que Patrese havia golpeado Hunt por trás, empurrando o britânico contra Peterson, quem perde o controle e vai contra os guard-rails. Como vemos, ainda que as versão dos fatos fossem diferentes, já havia uma opinião generalizada de que o culpável era o pobre Patrese.

Contudo Patrese, com firmeza, sempre manteve não haver golpeado o britânico e Tony Southgate, engenheiro da Arrows, o apoiava dizendo que nem o carro nem os pneus apresentavam qualquer sinal de contato. Porém, nada disso bastou para aplacar a versão que crescia descontrolada contra Patrese. Uma vez mais, e como no caso de Mudd, os homens eram cegados por um juízo prematuro. Uma vez mais, o que tínhamos ante nós era praticamente um linchamento.

A justiça italiana, imediatamente, abre um processo judiciário para investigar o acontecido e depurar possíveis responsabilidades penais. Os carros acidentados e todas as imagens da televisão e fotografias são apreendidas como provas para serem analisadas. Também se recolhem os depoimentos de pilotos, fiscais, etc. Assim, Restelli e Patrese ficavam passivos de se enfrentar a possíveis e serias acusações de homicídio.

Quando as equipes chegam a Watkins Glenn para disputar o GP dos EUA. Ecclestone vai falar com Patrese e lhe diz: “Riccardo, acho que você tem um problema!“. Bernie lhe diz que os pilotos queriam se falar com ele e Riccardo acode à reunião. Ali, as estrelas do momento, que formavam o chamado comitê de segurança dos pilotos (Lauda, Scheckter, Hunt, Andretti e Fittipaldi ), tomam a palavra e lhe dizem estar preocupados por seu estilo de pilotar, exigindo-lhe que não participe no GP.

James Hunt era o mais beligerante contra Patrese, chegando a dizer que precisavam dar uma lição ao italiano. Resultava curioso que naquele comitê de segurança estivessem pilotos como Mario Andretti, de quem se dizia em seus princípios na formula 1 que era um sujeito perigoso.

Jody Scheckter, quem teve vários incidentes e acidentes em 1973, chegando a ser popularmente conhecido como o troglodita pois, segundo diziam, manejava seu carro como uma clava, ou James Hunt, conhecido como “Hunt the Shunt” (Hunt, o empurrador), por seus inúmeros acidentes em seus anos na F3. Portanto, não parece que estivessem em posição de julgar ninguém. Segundo diria Patrese depois, ainda que nenhum deles se atreveu a lhe dizer na cara, era óbvio que o castigavam pelo ocorrido em Monza.

httpv://youtu.be/wGq-fLNz7YA

Na seguinte prova, no GP do Canadá, Patrese voltaria a mostrar todo o seu talento e, partindo do 12º lugar no grid, terminaria na 4ª posição. Porém, a partir de Monza, nada era já igual para Patrese. A Ferrari, lhe diz que para 1979 Sckeckter se incorporaria à equipe e, portanto, ele teria que esperar. As outras equipes, que tanto interesse haviam mostrado por ele, tampouco se manifestam.

Assim, Patrese permanece na Arrows. Ainda que nenhuma escuderia diria nada ao respeito, creio que não é difícil imaginar que para elas um piloto como Patrese, repudiado pelas estrelas da época e sobre cuja cabeça pendia uma possível acusação de homicídio que o podia até levar a prisão, não resultava nada atraente.

Em 1980, Patrese pergunta por sua situação na Ferrari e, novamente, lhe dizem que devia esperar até 1981. Entrementes, as investigações sobre o acidente de Monza, seguem seu curso e no fim do ano Patrese e Restelli são formalmente acusados de homicídio culposo e a celebração do juízo fica fixada para dentro de alguns meses.

Quando é sabido que Scheckter abandonaria a competição no fim de 1980. Patrese, uma vez mais, trata de falar com Ferrari. Porém, tudo o que consegue é que lhe atenda alguém que dizia representar a escuderia. Depois de uns momentos e já cheio de conversa mole, Patrese diretamente pergunta: “Mas vocês ainda têm a intenção de me oferecer um contrato ou algo assim?“.

Após uns instantes, que a Patrese lhe deviam ter parecido uma eternidade, o sujeito, laconicamente, responde: “sem dúvida!“. Pouco depois Patrese receberia a compensação estipulada e o assunto acabou. Algum tempo depois, desde a Ferrari diriam que a contratação de Patrese foi impossível devido às suas altas pretensões econômicas, coisa que Riccardo, rapidamente, desmentiu.

Patrese inclusive assegurou que havia dado a Ferrari a opção de que lhe fizessem a oferta que estimassem justa, mas que nunca obteve nenhuma resposta. No fim de 1983, Enzo Ferrari, numa entrevista concedida à revista Autosport, quando perguntado sobre aquele contrato com Patrese, simplesmente diria: “com Patrese assinamos um contrato de opção em 1978. Uma opção que não foi possível exercer devido a oposições externas e internas, ainda que foi satisfeito economicamente nos termos acordados“.

Uma pobre explicação!

Finalmente, em outubro de 1981, o juízo tem lugar em Milão, durante o qual se apresenta toda a informação e depoimentos recolhidos nos meses precedentes. Dentre as provas, haviam imagens tomadas por uns repórteres holandeses, desde um ângulo diferente ao da televisão, e fotografias de espectadores que mostravam como Patrese não chega a tocar o carro de Hunt. Também havia um depoimento do fiscal situado na torre do indicador de voltas e posições confirmando que, no momento em que Hunt golpeia a Peterson, Patrese já estava à sua frente. Dentre a informação, também estava o depoimento de Hunt, quem insistia na culpabilidade de Patrese ao afirmar: “No que me diz respeito, a responsabilidade pelo acidente é totalmente de Patrese!“.

Certamente, a ultrapassagem de Patrese a Hunt foi ousada, mas não mais ousada que a anterior de Scheckter. Segundo os 5 peritos oficiais consultados pelo tribunal, Patrese, ao encontrar-se já à frente de Hunt, tinha o direito de escolher sua trajetória. Assim, os três juízes que compunham o tribunal, perante as contundentes provas apresentadas, decidem exonerar os acusados de toda e qualquer responsabilidade, decretando que o acidente foi consequência dos inerentes riscos da competição.

Porém, isto teve pouca repercussão mediática, pois parece que somos mais propensos a divulgar a mal que o bem. Enquanto que as primeiras páginas dos jornais e das revistas haviam informado profusamente sobre o acidente e as acusações vertidas sobre Patrese, apenas umas pequenas notas interiores deram conta de sua absolvição.

Como diria o próprio Patrese: “As massas parecem ter mais interesse por um assassino do que por um inocente“. Pouco depois, Ecclestone volta a oferecer a Patrese um bom contrato na Brabham e o italiano, desta vez, o aceita. Porém, o problema é que para então, Nelson Piquet, o homem que ocupava o lugar que ele havia rejeitado 3 anos antes, agora era o campeão e líder indiscutível da equipe, e a Patrese lhe coube somente assumir o papel de segundo piloto, coisa que faria digna e perfeitamente (como faria depois na Williams).

Como no caso de Mudd, Patrese havia sido arrastado pela mesma louca e cega voragem que, em busca de justiça, também acabou cometendo outra injustiça. Como no caso de Mudd, o futuro de Parte-se também fora bruscamente truncado por juízos prematuros emitidos em momentos nada propícios para o frio análise e a ponderação. Com o passo do tempo, todos aqueles pilotos que haviam erguido seu dedo acusador contra Patrese, lhe foram pedindo desculpas um por um. Todos… menos Hunt.

Patrese continuou com sua carreira mas esta já estava marcada por aqueles acontecimentos. Como Mudd, Patrese teve de suportar durante anos a terrível carga de uma grave e injusta acusação formulada no fragor de uma histeria coletiva. De ser submetido ao ostracismo e a um triste protagonismo nem buscado nem muito menos merecido. Como Mudd, finalmente, Patrese seria reabilitado mas… já era tarde demais, pois seu momento havia passado.

Assim como as ocasiões perdidas não voltam mais, o tempo perdido tampouco se recupera e Patrese também acabou com seus sonhos frustrados.

Feliz 2017, um grande abraço e até a próxima!

2 thoughts on “Sonhos frustrados – final

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