Anticorpos

Nesta época do ano em que tradicionalmente nos dividimos entre arriscar previsões para o novo ciclo que se anuncia, ou analisar em forma de retrospectiva o que de mais importante se passou nos últimos doze meses, me parece praticamente impossível ignorar a plataforma que a temporada 2016 da MotoGP nos ofereceu para detalhar um importante aspecto da formação de um piloto: as lições impostas pela concorrência.

A essência desta importante curva de aprendizado reside nas diferenças existentes entre extrair o máximo desempenho do equipamento quando correndo sozinho, apenas contra o relógio, e repetir a mesma tarefa quando sob pressão, tendo na pista seus adversários diretos, por vezes dispondo de maquinário de melhor qualidade.

O título desta coluna apoia-se numa metáfora que parece traduzir bem o processo. Graças à providencial memória imunológica, existem diversas doenças que contraímos apenas uma vez na vida, ou ao menos em longos intervalos de tempo. Com base neste princípio, de que o corpo “aprende” como se defender de determinados ataques, e diante de um segundo episódio reage de maneira muito mais rápida e direcionada, foram desenvolvidas as vacinas. Em resumo, como é de conhecimento geral, elas fazem com que o sistema imunológico seja apresentado a potenciais invasores mortos ou atenuados, a fim de que a menor exposição a tais agentes em momento posterior desperte a chamada Resposta Imunológica Secundária (RIS), muito mais eficiente que primária (RIP), lenta e imprecisa.

A memória biológica encontra sucedâneos no convívio social. Diz a sabedoria popular que “quem apanha não esquece”. Vale para surras literais, vale para calotes, desilusões, decepções ou traumas de qualquer natureza. A criança que já levou um choque, não volta a colocar o dedo na tomada, da mesma forma como ninguém irá cair na mesma artimanha duas vezes.

Poder-se-ia dizer, portanto, que tais estímulos dolorosos, quando não matam, efetivamente fortalecem. Sua herança são as “marcas de guerra”, calos e cicatrizes – por vezes invisíveis – que com frequência testemunham os golpes que terminaram por lapidar o diamante bruto, ou, se preferir, o derretimento do ouro no cadinho, para que a joia pudesse tomar forma. O fato é que determinadas lições são mais difíceis de se aprender sozinho – quando, inclusive, é impossível ser derrotado – e isso vale para qualquer área da vida.

O esporte a motor, claro, não é exceção. E se é verdade que o tempo irá roubar alguns milésimos de segundo daquela rapidez exuberante da juventude, é igualmente certo que os primeiros cabelos brancos, quando cultivados em meio a pesada concorrência, irão trazer suas compensações. Sobretudo na forma de uma visão mais ampla da competição, que vá além da mera busca por ser o mais rápido o tempo todo.

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A motovelocidade conserva uma relação com os limites que remete ao que já foi a Fórmula 1 no passado não tão distante. Ultrapassar a aderência máxima entre pneus e asfalto significa cair e quase sempre abandonar, da mesma forma como antigamente os carros ficavam atolados na caixa de brita, nas telas de proteção, ou se esfacelavam numa árvore ou despenhadeiro em tempos mais remotos. O fato é que existe um ritmo ideal a ser perseguido, e nem sempre os jovens leões estão imunes a estímulos para que se desviem dele.

Quem não chegou agora certamente irá se lembrar da aula que Valentino Rossi aplicou a seus concorrentes ao longo de toda a temporada 2015 da MotoGP. Em algum momento ao longo das férias o Doutor se debruçou sobre os sintomas de seus adversários diretos e fez o diagnóstico: se ele assumisse a liderança da tabela de pontos atacando com tudo no início, e depois colecionando pódios na medida segura de sua competitividade, longe de tombos, iria colocar os jovens adversários sobre pressão, com a obrigação de vencer e, claro, muito mais sujeitos a tombos.

É bem verdade que a Honda não colaborou, dando a Marc Márquez uma moto bastante traiçoeira até as alterações introduzidas em Assen, mas o fato é que ao longo de toda a temporada o velho leão aplicou uma brilhante aula à concorrência, que só não lhe valeu o título graças a um erro de avaliação em Misano, e ao comportamento infantil e mau perdedor adotado por Márquez, especialmente a partir da Austrália.

Na ocasião cheguei a comentar aqui mesmo que Valentino tinha perdido aquela que provavelmente fora sua melhor chance de conquistar o merecido décimo título mundial, uma vez que seria impossível aplicar o mesmo método à mesma concorrência uma segunda vez. Antecipando o inevitável amadurecimento de Márquez, a única solução restante a Rossi, registrei à época, seria elevar ainda mais sua competitividade, saindo ele próprio da zona de segurança para compor, junto à R1, o conjunto mais rápido do grid. Dito e feito.

De fato, ao longo da maior parte do ano, os 37 anos de Rossi não o impediram de entregar o melhor desempenho aos domingos, fizesse chuva ou sol. O experiente italiano voltou a pilotar como nos velhos tempos, melhorou seu rendimento nos treinos, e com grande frequência assumiu a liderança nas voltas iniciais, lidando com riscos típicos da adolescência.

O grande problema, para ele, é que não existem meios de ir além do que o equipamento permite, sem pagar um preço final por isso. A partir do momento em que deixou de cair, Márquez já não poderia mais ser batido, pelo simples fato de que ele e a Honda eram capazes de impor um ritmo mais forte dentro da zona de segurança. Para Rossi foi a velha história do cobertor curto: ou você cobre as orelhas, ou protege os pés. Não dá para escolher as duas coisas. Ao escolher a velocidade, Rossi tornou-se insustentável.

Foram alguns tombos em momentos decisivos, e também diversas ocasiões nas quais os pneus simplesmente não suportaram o castigo extra, limitando o rendimento nas voltas finais.

Também houve uma quebra muito cruel diante da torcida em Mugello, e no fim seus esforços bastaram para superar Lorenzo e conquistar o terceiro vice-campeonato consecutivo, mas nem de longe ameaçaram o terceiro título do jovem fenômeno que ele próprio tratou de lapidar um ano antes.

Aliás, prova maior desta influência nos foi dada pelo próprio Márquez, que caiu por duas vezes após a conquista antecipada do mundial, quando voltou a correr pensando apenas nas vitórias.

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O tema me leva a lembrar Ayrton Senna, mas antes que os amigos pensem que lá vem mais alguma declaração ufanista, desta vez meu objetivo é render homenagens àquele que, em minha opinião, foi o maior de todos os professores das pistas.

Ele mesmo, Alain Prost.

Como o pobre Senna sofreu em suas mãos, a partir do momento em que ficou claro que seria impossível bater o brasileiro em velocidade pura. E como, no longo prazo, todas essas brilhantes e dolorosas aulas foram talhando o piloto genial que vimos brilhar em 1993.

Nos dois anos em que dividiram a McLaren o francês disparou enorme quantidade de tiros psicológicos, entre os quais se destacam as “ondas de pressão” em Monte Carlo 1988 – que seriam repetidas no ano seguinte, já sem qualquer efeito –, a diabólica tática do ritmo suicida, aplicada em Hockenheim e Suzuka 1989, cujo trauma veio à tona no Japão em 1990, e aquela que é minha aula favorita, em Monza 1988.

Afinal, que outro piloto teria sido sensível o bastante para notar, ainda nas voltas iniciais de um GP, que seu motor não iria durar até o fim da corrida? E que outro piloto teria – enquanto pilotava em ritmo de corrida – bolado uma estratégia para, ainda assim, tendo apenas a opção do blefe, evitar que seu adversário pudesse somar mais uma vitória?

Pois foi exatamente o que o francês fez, ao partir para uma corrida cujo ritmo iria consumir todo o combustível antes da bandeirada, ciente de que Ayrton seria incapaz de agir pela razão e simplesmente deixá-lo passar. Quando Alain finalmente abandonou e o brasileiro se deu conta de que havia caído em mais uma armadilha já era quase tarde demais, e o resto é história.

A meu ver, inclusive, eram justamente essas cicatrizes o principal trunfo de Senna no duelo que se anunciava contra Schumacher, quando o destino tratou de interromper a brincadeira.

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Olhando rapidamente para a Fórmula 1 atual, todos esperam que os anticorpos contraídos em 2016 nos brindem com um Lewis Hamilton certamente mais decidido e focado em 2017.

Assim, deixo a pergunta aberta aos amigos: terá sido este um fator, ainda que secundário, a influenciar a decisão de aposentadoria do campeão recém-coroado?

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Ao encerrar minha última coluna de 2016 o sentimento é de profunda gratidão por mais uma temporada ao lado de todos vocês.

Aos nossos colaboradores ficam os votos de muita saúde e alegrias em 2017, inspirados pela chegada do mais novo gepetinho, o querido Vicente, filho ainda não nascido dos amigos Marcel e Simone Pilatti.

10 thoughts on “Anticorpos

  1. Caro Márcio, brilhante como sempre… Sobre Monza, 1988, já li um belo texto aqui no GP Total sobre a tática de Prost. Ocorre que não consigo mais localizá-lo. Você poderia me ajudar? Um forte abraço do leitor e admirador.

      1. Exatamente isso, Márcio! Vasculhei o GP Total inteiro e o texto se encontra no Última Volta… Muito obrigado. Boas festas, que passarei na minha Bom Jardim amada. Forte abraço.

  2. Marcio,

    Concordo com você, certamente Lewis estará mais decidido e focado em 2017, além de ao contrário de Rosberg, que declarou estar aliviado de um fardo, pretende permanecer na F1 por no MINIMO mais dez anos http://grandepremio.uol.com.br/f1/noticias/sem-pensar-em-aposentadoria-hamilton-estipula-prazo-para-ficar-na-f1-no-minimo-mais-dez-anos.
    Sendo assim alguns recordes da F1 poderão ser batidos por ele. Por exemplo o de poles, a se confirmar uma Mercedes forte com o novo regulamento, pode já ser batido em 2018 pois só faltam 8 para superar.
    Ele tem um percentual de vitórias(28%) superior ao de Senna e Prost (25%) e Stewart(27%) e inferior ao de Schumacher(29%), os melhores de 70 para cá, e então supondo-se uma queda no percentual de vitorias para 20%, natural com o tempo, teríamos em uma temporada de 20 gp”s 4 vitorias e em 10 anos 40 vitórias. somando-se às 53 atuais seriam 93, quebrando portanto o recorde de Michael.
    Já o nº de campeonatos, acho mais difícil, pois ele teria que vencer 5 campeonatos em 10. Os demais recordes, que são de menor importância, cairiam facilmente.
    É lógico, vai depender também do carro, equipe e de quem for seu companheiro, mais forte ou fraco.
    Gosto do seu estilo de pilotagem rápido, arrojado, corajoso, combativo, semelhante ao de Max.
    Gostei da estratégia utilizada por ele em Abu Dhabi, era a unica alternativa disponível na luta pelo titulo e além do mais deu emoção à corrida. Max disse que faria o mesmo.
    A Mercedes que não queria perder a dobradinha, alguns dias depois acabou aprovando.

    Abraços e feliz 2017 para você e sua família,

    Márcio

  3. Parabéns. Obrigado por escrever esse texto. Lembrei-me dos texto épicos do “Última Volta”, especialmente a série sobre a batalha que gerou Suzuka 1989, a melhor corrida de fórmula 1 que já assisti, considerando os fatores na pista e fora dela. Feliz Natal, Márcio. E um 2017 abençoado para você e sua família!

    1. Muito legal saber que ainda se lembra daqueles textos, Stephano. Aliás, fiquei devendo a conclusão da série, que poderia até mesmo crescer e virar livro no futuro. Quem sabe?
      Forte abraço, feliz natal, e obrigado pela atenção que sempre nos dedica.

      1. Não me esqueço daquele série de jeito nenhum! Ah, como seria legal um livro sobre a “Batalha de Suzuka 89″… Aliás, Márcio, e o livro sobre o “Baixo”, a quantas anda?

  4. Marcio,

    a vida é feita de vitórias e derrotas para todo mundo. Muitos obstáculos que encontramos no decorrer de nossas vidas nós conseguimos suplantar … outros não e mesmo assim a vida segue … mas o que nunca devemos deixar de fazer é saber aprender aquilo que não sabemos ou sabemos pouco com quem sabe mais … sua coluna “Anticorpos” está sensacional e explica muita coisa que aconteceu nos melhores esportes a motores que temos no mundo que é a Formula 1 e a Moto GP … nota 1000


    A Moto GP em 2016, mostrou a todos, que pode haver um nivelamento entre equipes e pilotos apesar de todas as eletrônicas que fazem parte e envolvem os esportes a motores hoje em dia … achei muito bom ver vitorias não só da Honda e da Yamaha, que dominavam a categoria há um bom tempo, assim como também da Ducati, da Suzuki e de Equipe Satélites … se 2017 for da mesma forma teremos um campeonato mais nivelado ainda mais em razão das mudanças de cadeiras que ocorreram …


    Com relação ao Senna, infelizmente ficamos sem saber como seria os duelos entre ele e o Schumacher (já como campeão) … e se as aulas do Prost foram realmente proveitosas …


    Quanto ao Nico Rosberg, para mim quem mais sofreu pressão dentro da Mercedes foi ele … que sabia que não era tão bom quanto Hamilton … fora isso ele devia ter uma clausula secreta em seu contrato que lhe dava o direito de tomar esta decisão … a sua decisão pegou o circo da Formula 1 de surpresa mas não todos … não tenho dúvidas que a Mercedes sabia que isso podia acontecer … só não acreditava que ia ser já neste ano e sim em 2017 …


    O que vai ser do Hamilton em 2017 … vai depender muito de quem será seu companheiro de equipe … pena que não vai ser o Vesrtappen …


    No mais um bom Natal e uma boa virada de ano para voce.
    Que 2017 seja bem vindo!!!
    Que o GEPETO continue firme forte e cada vez melhor!!!
    E que a chegada do Vicente Pilatti traga muitas alegrias para Marcel e D. Simone

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  5. Grande Márcio!!!

    Então, Rossi sabe bem que sua carreira está chegando na linha de chegada, mas, ainda sim, aposto nele pra conquistar o caneco em 2017.

    A onda de choque que o Prost mandou a Senna em Mônaco 88, ele também repetiu em Detroit meses depois, porém, naquela altura o brazuka já estava vacinado de tal lição.

    E sim, Monza 88 é a minha predileta também, pois aquilo foi fantástico!

    Hamilton pra mim é um miolo mole, mesmo que tenha feito o que fez em Abu Dhabi(só restava a ele fazer isso), afirmo sem medo de errar, que se o Alonso tiver carro ano que vem, ele destrói Hamilton, Vettel, Raikkonen e Cia.

    Um Feliz Natal e um Feliz 2017 a você, e seus familiares.

    Grande abraço!!!

    Mauro Santana
    Curitiba PR

  6. Belíssimo texto, Marcio. Conseguiu ilustrar a forma exata com eu que pensava à respeito da aposentadoria do Nico Rosberg, mas que obviamente eu não conseguiria escrever. Mas acho que foi exatamente isto, NR viu que á tática usada por ele este ano jamais daria certo ano que vem e ele ficaria conhecido como o campeão que só foi campeão por pura obra da sorte dele (e azar do Hamilton). Mas é fato também que o LH terá os títulos dele super valorizados pois conseguiu ser campeão na mesma equipe e correndo junto de outro campeão mundial. É minha opinião.

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