O Outono do Patriarca

“Na segunda vez que o encontraram carcomido pelos urubus no mesmo gabinete, com a mesma roupa e na mesma posição, nenhum de nós era bastante velho para recordar o que se passou na primeira vez, mas sabíamos que nenhuma evidência de sua morte era terminante, pois sempre havia outra verdade atrás da verdade.”

Lembrei de O Outono do Patriarca, o mais impenetrável livro de Gabriel García Márquez, de onde copiei o parágrafo acima, assim que soube da aposentadoria de Bernie Ecclestone, segunda-feira, final da tarde. Eu poderia ter lembrado de O General em seu Labirinto, do mesmo autor, também dedicado aos sátrapas que tiranizaram interminavelmente a América Latina. Exatamente como Bernie fez com a Fórmula 1.

Passei a acompanhar a categoria, 1968, bem no momento em que ela começava a deixar de ser uma atividade típica de pequenas e médias empresas, caso de Ferrari e Lotus, que haviam se tornado montadoras de carros esporte. Na temporada anterior, a equipe campeã, a Brabham, com Denis Hulme, contava não mais do que vinte funcionários, incluindo os pilotos.

Verdade que, naquela altura, Honda e Matra já tentavam a sorte na F1 e a elas juntou-se a Ford, creio que a maior montadora da época, que se associou à Cosworth, outra pequena empresa, para fornecer motores às equipes, Isso, porém, não mudava a essência da coisa: a F1 era feita por donos de oficinas e donos de autódromos mambembes, ganhando todos duramente o pão.

As coisas começaram a se mover, a partir de então, já falamos bastante sobre isso (por exemplo, aqui), levando a F1 a tornar-se um paquiderme gigantesco, enredado em mil interesses, muitos ligados a poder, ganância e vaidade, poucos à essência do esporte.

Bernie Ecclestone, “uma idade indefinida entre 107 e os 232 anos” como o Patriarca de Márquez, foi o principal agente dessa mudança. Seu poder na categoria foi tamanho e durou tanto tempo que é até difícil precisá-lo ou mesmo definir quando começou. Só se pode dizer que foi imenso, “o tempo incontável da eternidade”. Ele reinou o bastante para tudo dizer, tudo desdizer, tudo dizer novamente. Reinou até para elogiar o nazismo e se achegar a tanto governos desprezíveis.

Não esperem que reconheça em Bernie os méritos que tantos lhe rendem. Acho-o, antes, apenas um capitalista, amoral, inescrupuloso, oportunista, monopolista, autoritário, teimoso, blindado às críticas e, em muitos casos, ao simples bom senso, como qualquer reles capitalista, desses preocupados apenas e exclusivamente com a rapina imediata, insensível à tradição e valores, que estão condenando a humanidade a perecer vítima do aquecimento global e outras tantas pragas decorrentes da cobiça desabrida, incontrolável.

Posso concordar que se o mundo inteiro embarcou nesta aventura insensata, não seria a Fórmula 1 que ficaria fora dela, mas posso lamentar que tenha faltado a Bernie um mínimo que fosse de respeito aos fundamentos da categoria, que violou tanto e tão frequentemente. Ao desconhecer os tais fundamentos, Bernie lançou a F1 num balé insano de regras e regulamentos que a desfiguraram até tornar-se quase que uma caricatura de si próprio, próxima de ser carcomida por urubus. Ele poderia sim ter feito diferente. Cito sempre o exemplo do futebol. Não há santos ali, muito pelo contrário, mas o esporte foi resguardado dos interesses comerciais e preservado em sua essência. Talvez por isso, resta a salvo mesmo com tantos escândalos e violências.

De Bernie, posso dizer que enriquecer a si próprio e muitos do que estiveram à sua volta não foi nada demais, qualquer outro poderia ter feito o mesmo, foi algo global, comum aos esportes, a toda atividade humana. Especial teria sido ter promovido a Fórmula 1 dos dias das pequenas e médias empresas à opulência atual – que teve como efeito secundário ter acabado com o morticínio de pilotos, pessoal de pista e público comum até os anos 70 – preservando e respeitando a instituição maior e não a subordinando de forma vil aos piores instintos de banqueiros e gente pior, como parecem ser os dirigentes da Liberty Media, novos donos da categoria.

Por isso, não vejo motivos para comemorar a aposentadoria de Bernie. Temo “outra verdade atrás da verdade”.

O grau de relacionamento institucional de Bernie ainda deve valer alguma coisa para a Liberty, de forma que é mais do que provável que ele siga exercendo autoridade e influência na gestão da categoria, mesmo porque continuará sócio da holding na qual a F1 vai se inserir, a ser negociada na Bolsa de Nova York, ao cabo daquelas operações de consolidação de ativos incompreensíveis aos mortais.

Da Liberty, aliás, vale dizer: como Hitler em Minha Luta, ela não esconde por um segundo qual é o seu interesse: vendas e lucros crescente, a mesma prática abjeta que massacra o mundo. A entrevista de Chase Carey relaxada ontem não poderia ser mais clara. Disse ele: “o esporte não está crescendo o que deveria, e precisávamos de um novo tipo de organização para fazermos com que ele cresça no mundo de hoje, de todas as formas que precisa.”

Não importa que o mundo mal tenha se recuperado de uma das suas duas maiores crises, que a categoria esteja sangrando por óbvia incompatibilidade com o público, que tenha crescido de forma estúpida nas últimas décadas, raspando todos os tachos que encontrou pela frente. Nada disso importa; importa apenas crescer mais, sempre, para sempre, todo o tempo. Capitalismo selvagem, indetível, incontrolável, inconsequente.

Mas há esperança, sempre há.

Ela vem como a indicação de Ross Brawn para a operação não comercial da categoria. É um grande alento. Engenheiros, como Brawn, são indicados para a condução de negócios complexo pois estão mais aparelhados para se entenderem com a lógica, que é o que mais precisamos. Brawn parece ter todo o bom senso, todo o pé no chão de que a categoria precisa.

Também a aparente separação entre administração esportiva e comercial anunciada por Chase me anima. Não tenho nada contra vendas e lucros crescentes desde que eles não se imponham sobre tudo e sobre todos.

Donald Trump assume a presidência dos Estados Unidos abusando da “Teoria do Doido”, tantas vezes utilizada por governantes de poucos escrúpulos, Kim Jong-un sendo o mais caricato deles. Stálin e Nixon também eram fãs da Teoria. Consiste em se fazer de doido com a finalidade de assustar adversários e obter vantagens fáceis. Às vezes funciona.

Estimamos que a Chase Carey e seus colegas não copiem esta lastimável prática de governança, mas não sei não.

Chase falou em crescimento dos negócios. Isso se consegue ampliando receitas ou reduzindo custos. Não precisamos conhecer muito de negócios pra saber que aumentar receitas não é algo fácil nos dias de hoje, basta ver a dificuldade dos organizadores de Grandes Prêmios, até a Inglaterra falando em desistir, dados os prejuízos.

Resta a opção de reduzir despesas. A maior despesa da Liberty na Fórmula 1 é o repasse de dinheiro às equipes e os primeiros sinais enviados a elas não sinaliza uma convivência tranquila. Há um contrato em vigor – o Pacto da Concórdia – válido até 2020. Depois disso, a Liberty acena querer reduzir o valor dos repasses. Será a Teoria do Doido em prática?

Talvez por isso recentemente Chase recomendou às equipes que adquiram ações da Fórmula 1 na Bolsa.

Eduardo Correa

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