Cega vaidade – parte 1

Nos conta uma velha fábula que, certo dia, dois rapazes vinham pela estrada conduzindo um burro cada um. Um deles era um elegante soldado do rei com seu vistoso uniforme e reluzentes botas, cujo burro portava alforjes repletos de refinados produtos para o monarca. O outro era um humilde matuto descalço e maltrapilho cujo burro carregava rústicos sacos de farinha. Ambos iam pelo mesmo caminho pois se dirigiam ao palácio real, mas ao soldado não lhe agradava nada tão insignificante companhia.

Quando se aproximavam a uma cidade, o soldado acelera o passo para deixar o matuto atrás. Enquanto atravessavam a cidade, o passo marcial do soldado, unido à sua elegância e porte distinguido, eram motivo de grande admiração e até elogios e aplausos lhe eram dedicados. O soldado, ufano e arrogante, desfrutava tanto do lisonjeiro trajeto que acelera seu passo cada vez mais para se distanciar do humilde matuto tanto quanto pudesse e, assim, atrair para si todos os olhares e atenção.

Contudo, antes de chegar ao palácio, o burro do soldado, já no limite de suas forças, cai ao solo pesadamente. O soldado, cegado por sua vaidade, nem percebeu que estava submetendo o pobre animal a um esforço excessivo e este acabou sucumbindo extenuado. Quando o soldado ainda tentava em vão que o burro se levantasse e maldizia sua desgraça, passou por ali nosso matuto que, com seu burrinho em boas condições, continuou seu caminho até o palácio sem problemas. O soldado, ainda afligido por não poder cumprir sua missão, não se deu conta que a verdadeira origem de sua desgraça havia sido sua própria vaidade e arrogância.

Creio desnecessário falar sobre o extraordinário talento de Lewis Hamilton e de sua perícia ao volante. Isso é algo que resultou evidente logo desde sua entrada na Fórmula 1 na temporada 2007.

Contudo, não menos evidentes, também tem sido sua vaidade e arrogância. Nessa mesma temporada e depois de apenas algumas corridas disputadas, veio aquele feio incidente com Fernando Alonso na Hungria, onde o britânico, durante os treinamentos, se negou a obedecer a ordem de deixar o caminho livre ao espanhol. Já nos boxes, aquilo acabou desencadeando uma dura discussão com Ron Dennis, por quem Lewis não guardou nenhum respeito apesar de ser aquele o homem que lhe havia ajudado desde criança e quem lhe havia levado ao topo do automobilismo. Parece que sua vaidade era maior que sua gratidão. A partir de então, toda a temporada transcorreu sob uma grande tensão interna na equipe.

Algum tempo depois, Hamilton decide transferir sua residência para a Suíça. Dizia ele que no Reino Unido sua popularidade o fazia se sentir angustiado, pois estava constantemente submetido ao assédio de seus fãs, preferindo buscar um lugar onde conseguisse tranquilidade e passar despercebido. No entanto, uma das primeiras coisas que fez quando chegou no pais helvético foi solicitar uma placa de identificação personalizada para seu automóvel: LEW 1S.

Só que essa placa já pertencia a um tal Bob Lewis, um homem de negócios local. Isso não desanimou Hamilton, que acabou “convencendo” Bob a lhe vender a placa por 400 mil dólares. Como diria o próprio Bob, aquela era uma oferta que não se podia rejeitar. Para alguém que dizia almejar passar despercebido… No fim das contas, se trata do dinheiro dele, mas, não importa quanto dinheiro se tenha, isto me parece simples vaidade.

Após consagrar-se campeão na temporada 2008, outra das excentricidades de Hamilton foi pedir a Bernie Ecclestone um pit-lane pass para seu cachorro. Parece que Roscoe – esse era o nome do animal – era seu novo capricho e Hamilton não queria se desprender dele nem um momento. Ecclestone, encantado com Hamilton e sua popularidade, lhe concede sem objeções o tal passe, dizendo inclusive que ele mesmo cuidaria do cachorro durante as corridas.

Durante suas temporadas na McLaren, Hamilton desfrutou de trato preferencial na equipe. Naquela fatídica temporada de 2007, Ron Dennis chegou a afirmar que eles competiam contra Alonso, seu próprio companheiro!

Durante a temporada de 2011, tendo Jenson Button como companheiro, Hamilton sempre se irritava quando superado e aumentada a sua agressividade na pista. No GP do Canadá, com Button à frente, Hamilton tenta uma ousada ultrapassagem que provoca seu abandono. Não seria sua única colisão da temporada. Emerson Fittipaldi, diria ao respeito: “acho que Hamilton é um piloto excepcional, um campeão mundial. Mas às vezes é agressivo demais ao ultrapassar”. Button terminaria a temporada à frente de Lewis na classificação, algo novo para o britânico.

httpv://youtu.be/QsfkWav7IcU

No fim de 2012, Hamilton trocaria a McLaren pela Mercedes, tendo como companheiro Nico Rosberg. O filho do querido Keke era uma pessoa totalmente diferente de Hamilton. Rosberg era descrito como uma pessoa amável e muito formal, sóbrio e tranquilo tanto na pista como fora dela, mantendo plena disposição de fazer o que lhe pedissem e fosse necessário para bem da equipe. Enquanto Rosberg se concentrava em seu trabalho e em sua família, Hamilton mantinha um estilo de vida muito diferente e parecia muito confortável desfrutando de festas por todo o mundo, com as mais diversas celebridades da música, como Rihanna e Bon Jovi, e da moda e do cinema, festas às quais comparece em seu jato privado.

Após assistir a uma dessas festas em Mônaco, no fim de 2015, o britânico protagonizaria um acidente nas ruas do principado, quando colidiu de madrugada com vários carros estacionados, segundo ele mesmo confessou: “foi o resultado de uma festa pesada, eu estava um pouco cansado”. Hamilton dirigia (ou mal dirigia) seu Pagani Zonda, construído por encomenda para ele ao custo de mais de dois milhões de euros.

Rosberg nunca se sentiu atraído pelas celebridades e belas garotas que com frequência pululam pelos boxes da Fórmula 1. Assim, enquanto Hamilton era tão famoso pelo que fazia nas pistas quanto fora delas, Rosberg mantinha sua vida sossegada. Enquanto Hamilton se dedicava mais e mais ao mundo da música (inclusive anuncia que está disposto a lançar um álbum) e se desenvolvia tão bem nas passarelas e sob os focos e flashes quanto nas pistas, Rosberg contraia matrimônio com Vivian Sibold, sua companheira há vários anos e com quem teria uma filha. Enquanto Hamilton, que disse querer passar despercebido, exibia suas extravagâncias pelo mundo afora, é Rosberg quem fazia aquilo que o britânico havia dito querer fazer.

Conforme as temporadas se sucedem, chegamos à de 2016. Nas anteriores três em que Hamilton e Rosberg coexistiram nos boxes da Mercedes, foi Hamilton quem sempre superou o alemão, conseguindo o título em 2014 e 2015, de tal maneira que poucos já acreditavam em Nico como futuro campeão. Até as suas vitórias nos últimos três GPs de 2015 eram menosprezadas e Rosberg era até visto como um piloto que carecia do que se deve ter para ser campeão. Hamilton, antes do início do campeonato, com sua habitual arrogância, havia dito que ele não tinha intenção de defender o título pois seu objetivo era conquistá-lo novamente.

Porém, as coisas não começam bem para o britânico. Na prova inicial na Austrália e na seguinte no Bahrein, Hamilton domina os treinamentos mas péssimas largadas deixam a liderança nas mãos de Rosberg, que a conservaria até a bandeirada. Hamilton acabaria 2º e 3º respectivamente. Nas duas provas seguintes, Rosberg obtém a pole enquanto Hamilton larga em último na China, por trocar a caixa de câmbio, e 10º na Rússia, devido a outro problema no carro. Rosberg vence as duas corridas com Hamilton em 7º e 2º.

Na Espanha, os Mercedes ocupam a primeira linha com Hamilton na pole, mas é Rosberg quem, logo na largada, assume a liderança até que Hamilton, numa desesperada tentativa de ultrapassagem, colide com o companheiro e ambos acabam fora da prova. A vantagem de Rosberg na classificação já é importante: 43 pontos.

httpv://youtu.be/9r7E9CUphFQ

As ruas de Mônaco seriam testemunhas da primeira vitória de Hamilton da temporada. Os pilotos da Mercedes haviam sido superados por Daniel Ricciardo no grid mas, na volta 24 o britânico assumiria a ponta da prova para não abandoná-la até o fim. Cabe destacar que após o safety car, Hamilton ainda estava atrás de Rosberg, ainda que parecia apresentar melhor ritmo que o alemão, que sofria com problemas nos freios. Assim, Toto Wolff ordenou a Rosberg deixar via livre a Hamilton, o que permitiu ao inglês avançar rapidamente. Nico, apesar de liderar o campeonato, obedeceu sem objetar. A diferença caiu para 24 pontos.

Concluo esta história na 4ª feira

Abraços

Manuel

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