Cega Vaidade – Final

Nas próximas cinco provas, Hamilton conseguiria vencer em quatro delas e, pela primeira vez no ano, assumirá a liderança na classificação. No Canadá e Inglaterra, Rosberg foi quem teve problemas com o carro, enquanto que na Áustria, uma nova colisão entre ambos na última volta, deixa Hamilton com a vitória e Rosberg com o aerofólio dianteiro quebrado e a perda de duas posições. Hamilton tem 192 pontos, meia dúzia mais do que o adversário.

Na Alemanha, Rosberg, apesar de conseguir a pole, não rendeu bem durante a prova enquanto Hamilton segue para a sua quarta vitória consecutiva, o que lhe permitia aumentar a vantagem na classificação para 19 pontos. Agora, ninguém apostava sequer um centavo por Rosberg para a disputa do título. Hamilton estava exultante enquanto o alemão era visto como alguém psicologicamente já derrotado e que havia jogado a toalha.

Contudo, Hamilton vinha consumindo mais equipamento do que Rosberg. Por exemplo, na Inglaterra, apenas o décimo GP da temporada, o inglês já equipava seu quinto turbo enquanto Rosberg continuava com seu terceiro. Hamilton também já estava usando seu terceiro MGU-K e baterias, e Rosberg o segundo em ambos casos. No que se refere ao MGU-Hoje, Rosberg tinha o terceiro e Hamilton já usava seu quinto. Num sistema de pontuação onde todos os resultados contam, é fundamental conservar o equipamento para evitar punições e não perder nenhum ponto.

Após o intervalo de agosto, o campeonato continua com a disputa do GP da Bélgica. Rosberg consegue a pole enquanto que Hamilton deve partir desde o fundo do grid ao trocar vários elementos de seu motor e caixa de câmbio. A vitória seria para Nico, com Hamilton se recuperando até acabar terceiro. Na Itália, Hamilton e Rosberg, novamente, ocupam a primeira linha do grid mas outra pobre largada do inglês lhe causa a perda de seis posições. A vitória seria outra vez de Nico com o companheiro em segundo lugar, após nova recuperação. No circuito urbano da Singapura, Hamilton apenas conseguiu ser terceiro na classificação e na corrida, com Rosberg e Ricciardo mantendo-se sempre à sua frente. Com estas três inesperadas vitórias, Rosberg recupera a liderança do campeonato com oito pontos de vantagem.

Assim chegamos ao GP da Malásia. Nos treinamentos, Hamilton, que para então já havia comprovado que Rosberg não era o mesmo de anos anteriores, sai à pista como um possesso e domina todas as sessões de classificação, parecendo disposto a mostrar a todos que não tinha intenção de permitir que ninguém lhe disputasse a vitória. Na largada, sai disparado e logo se distancia, enquanto que Rosberg era abalroado na primeira curva por um Vettel, que parecia estar fora de si, e cai ao fundo do pelotão.

As coisas não podiam ser mais propícias para Hamilton, que continuava com seu esmagador ritmo já distante lá na frente. Porém, tudo mudaria na volta 40, quando seu Mercedes WO7 começa a emitir uma preocupante fumaça branca que não pressagiava nada bom. Assim foi e, apenas alguns metros mais adiante, o motor expirava entre chamas. Nesta prova foi Rosberg quem protagonizaria uma grande recuperação que o levaria até a terceira posição, permitindo-lhe aumentar sua vantagem na classificação para 23 pontos.

httpv://www.youtube.com/watch?v=SzH47JlZ6G8

Hamilton, furioso, seria traído por sua arrogância e lançaria duras críticas à equipe, chegando a dizer: “o título parece que vai numa direção e não há nada que eu possa fazer. Parece que alguém ou algo não quer que eu vença”. Também se queixava de que era ele quem sofria mais problemas mecânicos e dizia não entender certas decisões da equipe. Aqui, Hamilton se referia ao intercâmbio de alguns engenheiros e mecânicos entre sua turma e a de Rosberg no príncipio da temporada. Perante tais insinuações, Toto Wolff seria contundente, explicando que tudo fora decidido para impedir que a rivalidade entre os dois pilotos acabasse contagiando suas turmas.

Em relação aos problemas com o carro, Toto Wolff disse: “temos problemas de fiabilidade, mas isso é algo que você pode sofrer se vai além do limite”. Hamilton nem lembrava que nas três temporadas anteriores, Rosberg deixou de pontuar por problemas mecânicos em oito GPs, enquanto que ele o havia feito em apenas três, e nem Rosberg tampouco havia estado isento de problemas durante a temporada – mas ele nunca se queixou.

Muito molesto, Hamilton nem percebia que, ao insinuar que seus problemas se deviam ao intercâmbio de pessoal, estava dando a entender que sua turma era melhor que a de Rosberg. Em sua cega vaidade, Hamilton nem percebia que, assim, suas palavras promoviam a dúvida sobre que suas conquistas nas temporadas anteriores não se deviam a méritos próprios, mas ao fato de haver contado com melhor pessoal à sua disposição e que, no momento em que Rosberg dispôs desse pessoal… também ganhou.

E chegamos ao GP do Japão, onde Hamilton tinha a imperiosa necessidade de vencer. Nos treinamentos ele e Rosberg protagonizariam uma acirrada disputa pela pole que, finalmente e apenas por 0.013 segundos, ficaria nas mãos de Rosberg. Na corrida, quando as luzes se apagam, Hamilton, novamente nos brinda uma má largada e perde várias posições. Na primeira volta, Rosberg já domina o pelotão com Hamilton em oitavo.
Os esforços do britânico apenas lhe permitiriam acabar na terceira posição, o que deixava uma diferença de 33 pontos a favor do alemão.

Com quatro corridas ainda por disputar, Hamilton já não dependia de si mesmo para ser campeão, bastando a Rosberg concluir em segundo lugar.

Isso foi exatamente o que aconteceu pois nos GPs dos Estados Unidos, México, Brasil e Abu-Dhabi. Hamilton e Rosberg, ainda que lutavam por um mesmo objetivo, ser campeão, tinham formas totalmente diferentes de consegui-lo. Assim, Rosberg se podia permitir o luxo de deixar Hamilton dominar os treinamentos e as corridas, limitando-se a escoltar o britânico. Contudo, em Abu-Dhabi, com Hamilton dominando e Rosberg em segundo, já nas voltas finais da prova, o inglês reduz seu ritmo numa desesperada tentativa de conquistar o campeonato. Logo atrás dos dois vinham Vettel e Verstappen e Hamilton esperava que, reduzindo seu ritmo, os dois alcançassem Rosberg com a esperança de que algum deles o ultrapassasse, privando-lhe dos pontos que precisava.

No entanto, logo que Wolff percebeu a manobra do britânico, lhe ordenou retomar seu ritmo pois não queria que a boa imagem e prestígio da equipe e da companhia ficassem maculadas dessa maneira tão discutível. No entanto, uma vez mais, a vaidade prevaleceu em Hamilton e este desobedece a ordem. Desde o box, insistem na ordem, mas Hamilton a ignora novamente. Porém, a manobra seria em vão pois as posições se mantiveram até a bandeirada e Rosberg cruza a linha de chegada como novo campeão.



A arrogância de Hamilton, uma vez mais , era motivo de polêmica e suas declarações posteriores insistiriam em sua paranoica crença de que tudo e todos estavam em contra sua, chegando a criticar a ordem recebida: “é uma vergonha que não nos deixem correr. Fica claro o que é o que eles pensam”. Uma vez mais, Toto Wolff seria contundente em sua resposta: “a anarquia não funciona nem numa equipe nem numa companhia. Desestabilizar uma estrutura em público, significa que você está colocando seus próprios interesses por cima da equipe”. Jackie Stewart foi, possivelmente, quem melhor descreveu a atitude do seu compatriota ao dizer: “acho que ele pode ser como uma pequena bailarina (no sentido de menina mimada)”.

Para continuar: “Hamilton se negou a obedecer, indo contra a sua própria equipe. Sinto muito mas, quando você cobra cerca de 30 milhões por ano e te dizem que faças algo… você deve fazê-lo, sem importar quem sejas”. O pior é que não era a primeira vez que Hamilton desobedecia ordens.

Enfim, assim foi Nico Rosberg, como o humilde matuto de nossa fábula, quem acabaria cumprindo sua missão, enquanto que Hamilton, ainda maldizendo sua desgraça, continuava cegado pela vaidade.

Abraços
Manuel

5 thoughts on “Cega Vaidade – Final

  1. Texto moralista… F-1 é isso aí mesmo. Ás vezes o fdp realmente tem um talento genial e outras o certinho é que acerta no volante e manda ver. De certo apenas que se Hamilton tivesse um tiquinho de Rosberg não teria quem batesse ele (no caso, ele mesmo não se bateria… não tirando os méritos de Rosberg que capitalizou cada ponto na temporada passada e se sagrou campeão como um bom enxadrista).

  2. Boa noite.
    O novo formato da página me surpreendeu, visual simples e empolgante ao mesmo tempo! Tem horas que me pergunto se hoje o mais próximo de James Hunt entre os campeões atuais é Raikkonen ou Hamilton. Mas acho que é empate técnico. Raikkonen pelo estilo de vida não-tô-nem-ai e Hamilton pelos rampantes movidos pela vaidade aliados às declarações impróprias. Mas o estilo de pilotagem de Hamilton ainda enche os olhos, por isso ele ainda não foi demitido da Mercedes. Mas eu espero que esta nova derrota lhe sirva de lição para o futuro, pois a derrota de 2007 não ensinou nada a ele para que controlasse sua personalidade de prima dona e permanecesse focado, algo que Schumacher conseguia de forma magistral.

  3. Gostei do novo layout, e como o Fernando comentou, logo estaremos ambientados.

    Gostei muito do texto Manuel, Hamilton é um Grande Piloto, mas, suas atitudes queimam demais a sua imagem, e você conseguiu descrever muito bem isso.

    Grande abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

  4. GEPETO de novo visual!!!
    Show de bola!!!
    Logo estaremos ambientados.

    Manuel,

    o Hamilton perdeu o campeonato pra Rosberg no passado exatamente por não conseguir fazer uso adequado de seu equipamento. Ele gastou mais e por isso teve mais problemas. Só que isso ele jamais vai admitir. Nem ele e nem ninguém pois é mais fácil chorar e fazer beicinho via rádio e/ou via mídia do que admitir seus próprios erros. Ainda mais admitir que seu adversário foi melhor.
    O único senão que faço em relação ao titulo do Rosberg ano passado, foi exatamente aquela manobra na Espanha quando ele fechou inadvertidamente a passagem do Hamilton que tentava ultrapassa-lo visto que tinha notado que Rosberg tinha cometido algum erro ou passava por algum tipo de problema. Os dois acabaram batendo e achei desleal a manobra do Rosberg. Mas este tipo de manobra, face a segurança que as áreas de escape proporcionam hoje em dia, ficou banalizada e virou um uma manobra legal já que não foi só o Rosberg que a cometeu, todos os pilotos do circo fazem o mesmo sem ninguém até hoje ter sido punido por isso..

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  5. Wow!!! Este é o novo GPTotal!!!

    Gostava do antigo, mas a verdade é que tudo avança, e precisa ser renovado. Legal. Pena que perderam-se os comentários das colunas deste ano…

    E que bela maneira de começar esta nova história, lendo as estórias que nos conta o Manuel Blanco. Espetacular.

    Abraços,

    Rubergil Jr.

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