Norte magnético

Felipe Massa retorna de sua aposentadoria que, na prática, nunca aconteceu.

Quem não sabe para onde está indo, não consegue nem ao menos se perder.
Ok, a filosofia é barata, mas nem por isso inválida. De fato, por definição, só pode alcançar um objetivo quem tem um; qualquer forma de conquista sem o devido esforço direcionado será meramente fortuita. Colocando noutros termos, viajar sem saber para onde ir é tão somente ser errante, ao delegar a própria sorte ao sabor das marés ou dos ventos. Legal para uma aventura, mas inadmissível para um grande empreendimento como a Fórmula 1, por exemplo.

E é justamente a respeito deste norte – ou de qual ele deveria ser – que pretendo falar em minha primeira coluna de 2017, num momento compreendido como o fim de uma era, marcado por incertezas e infinitas possibilidades de direcionamento, no qual devem ser tomadas decisões críticas para o destino do pináculo no esporte a motor nos próximos anos.

E aí, qual é a Fórmula 1 que queremos?

Não muito tempo atrás, nosso querido Manuel Blanco nos presenteou com um projeto detalhado do tipo de carro que ele gostaria de ver correndo. Textos de grande aprofundamento técnico que merecem ser lidos com a devida atenção, e que me tiram dos ombros o peso de falar em Física mais pesada aqui, eventualmente criando distrações às metas que entendo cruciais, propositalmente genéricas nesta abordagem inicial.

Todo produto – e, por mais que me custe admitir, é isto que a Fórmula 1 é, há muito tempo – precisa ser elaborado a partir de uma pergunta fundamental: qual é o nosso público-alvo, e o que ele deseja? Ora, tenho a certeza de que a resposta a esta pergunta, no caso da Fórmula 1, coincide com o perfil dos frequentadores desta página, e por isso não apenas me atrevo a dividir com os colegas detalhes sobre a Fórmula 1 que eu gostaria de ver, como também os convido a fazerem o mesmo em nossos comentários. Terei prazer em ler cada um deles.

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Filosoficamente, acredito que o melhor rumo a ser tomado seja aquele que busque incorporar elementos de sucesso no passado, adaptando-os aos novos tempos e agregando, de modo seletivo, as possibilidades hoje oferecidas pela tecnologia.

Não se trata, portanto, de brigar com os ponteiros do relógio e partir à caça de uma infrutífera volta ao passado, que no máximo poderia gerar uma caricatura daquilo que já foi bom. Há que se valorizar o potencial criativo do presente, assegurando, inclusive, maior margem à personalização dos projetos nas mais diversas frentes.

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O fim de semana padrão em minha Fórmula 1 ideal teria uma sessão livre de uma hora na manhã de sexta-feira, e uma sessão classificatória de mesma duração à tarde. A rotina seria repetida no sábado, o grid sendo definido pelo melhor tempo de cada piloto no somatório das sessões classificatórias.

Teríamos também a volta do warm up no domingo, antes da corrida, a qual irá respeitar a definição de Grand Prix e cumprir os 300km, sem rodadas duplas. Tenho a consciência de ser um formato mais caro e na contramão das tendências atuais, mas estou falando de um dogma aqui. Fórmula 1 é GP, e isso não pode mudar.

Em vez de embaralhar o grid através de inversões ou punições artificiais e convenientes, abraçaríamos as diferenças técnicas entre treinos e corrida, de modo a gerar, sem apelações, discrepâncias entre o ritmo de prova e o posicionamento inicial dos pilotos, cumprindo assim a regra básica para que existam disputas de posição. Deste modo, cada piloto teria direito a quatro jogos de pneus de classificação (dois a cada sessão), e pequenas alterações de baixo custo seriam incentivadas para que a diferença entre o tempo de pole e melhor volta fosse amplificada a níveis próximos a 7%, como em alguns dos melhores anos da categoria. Pelo mesmo motivo não haveria reabastecimentos, e a troca de pneus deixaria de ser obrigatória. Pilotos também poderiam voltar a largar com compostos diferentes no mesmo carro, como moles de um lado e duros de outro, por exemplo. Esse é o tipo de estratégia que gostaria de ver de novo.

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Os carros teriam limitações muito mais genéricas. Largura, peso mínimo, tamanho/altura das asas, número de rodas, critérios de segurança e pouco mais. É urgente recuperar a diversidade de desenhos, os traços autorais, a ousadia.

O ápice desta diversidade seria uma fórmula de equivalência entre turbos e aspirados, mas entendo que esse é o tipo de situação absolutamente inviável atualmente. Neste caso teríamos motores turbinados, com apenas alguns parâmetros definidos, tais como capacidade de deslocamento volumétrico, combustível padrão, materiais eventualmente proibidos, e nada que vá muito além disso. O número de cilindros ou de válvulas, por exemplo, seria ao gosto do fabricante.

Poderia haver pressões máximas diferentes para treino e corrida, prevendo que no primeiro caso seja superada a barreira dos 1000hp, e no segundo o patamar não fique abaixo dos 800 cavalos. Alguns superesportivos já estão superando estes patamares, e Fórmula 1 precisa assustar, precisa roncar alto. O espectador precisa olhar e sentir-se intimidado, saber-se incapaz de fazer o que os pilotos fazem, como ocorre na MotoGP.

Não gosto da ideia de tanques de combustível limitados, por entender que a economia já é um objetivo em si mesmo, e motores mais beberrões são naturalmente punidos pelo peso extra que precisam empurrar. Mas se essa for uma concessão necessária para eliminar da categoria os motores híbridos, então assim seja. Nada contra o reaproveitamento de energia, mas Fórmula 1 precisa ser leve, precisa voar em curvas de baixa e se comportar como um kart, e isso não combina com o peso das baterias.

O baixo peso também ajudaria a conservar a velocidade num contexto de privilégio à aderência mecânica em detrimento da aerodinâmica. Os carros precisam ser rápidos, mas não podem perder a capacidade de andar próximos uns dos outros, até mesmo porque seriam banidos quaisquer mecanismos de auxílio a ultrapassagem, tais como Kers ou DRS. Poderia haver overboost, mas ele estaria disponível também para quem se defende, e o uso excessivo geraria riscos sobre a durabilidade dos motores. Não queremos dezenas de ultrapassagens; queremos ultrapassagens memoráveis, queremos premiar pilotos ousados e destemidos.

Gostaria de ver carros com pedais e câmbio por alavanca, preferencialmente não sequencial. Não por saudosismo, mas porque entendo que a janela de trabalho do piloto deve ser ampliada. Nada de controle de tração, suspensão ativa, ABS ou qualquer auxílio à pilotagem exceto a direção hidráulica, nem tampouco intervenção do carro de segurança motivada por chuva em níveis compatíveis com o esporte. Sinto saudades dos erros de marcha, de rodadas, e de abandonos por falhas mecânicas.

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O grande desafio para viabilizar economicamente minha Fórmula 1 ideal e permitir a flexibilização das restrições criativas sem gerar diferenças abissais entre os desempenhos das equipes estaria no estabelecimento de limites máximos e mínimos para os orçamentos das equipes. Algo que já foi tentado sem sucesso no passado, e que não poderia funcionar apenas à base de auditorias, mas dependeria essencialmente do bom e velho cavalheirismo. Afinal, estamos falando de algo ideal aqui. E, apesar de entender que todas as equipes deveriam construir seus próprios carros, por razões econômicas não teria problema em aceitar a volta das equipes privadas, correndo com carros comprados de outras equipes, dentro de limites previamente estabelecidos.

Em nosso próximo encontro, concluo a descrição de minha F1 ideal, abordando temas como pistas, testes, mídias e pontuação.

Forte abraço, e uma ótima temporada a todos.

5 thoughts on “Norte magnético

  1. Grande Márcio!

    Parabéns pelo belíssimo texto!

    Você e os demais amigos já listaram bem o que poderia voltar e fazer muito bem pra F1, e eu também em outras oportunidades já falei o que gostaria de ver na F1.

    Mas, sei lá, os que comandam parecem somente olhar para frente, como se fosse um pecado mortal ter que se espelhar no passado tão rico da F1.

    Abraço!!

    Mauro Santana
    Curitiba PR

  2. Caro Márcio,

    Belo Texto!! Parabéns!! Penso quase exatamente como você. Acredito que a Formula 1 deve buscar sempre a máxima performance dentro de condições limitadas, senão teríamos uma Can Am, isto para mim quer dizer baixo peso, potências extremas, grande aderência mecânica, privilegiando o talento do piloto e a competitividade. Não sou adepto de grandes downforces por achar que nivelam os pilotos por baixo. Creio que motores híbridos, consumo de combustível, gerenciamento de energia, limitação de fluxo de combustivel, tanques limitados deveriam ser deixados para o WEC.
    Com o grande aumento na segurança que tivemos nos últimos anos tanto dos carros como dos autódromos. creio ser possível lidar com potências da ordem de 1500 cv e pesos da ordem de 500 Kg.
    O superesportivo Bugatti Chiron tem 1500 cv , como a F1 pode ficar atrás? Alguns diriam, ele pesa quase 2 ton e tem tração nas 4 rodas. Mas o desafio da engenharia é exatamente este, conseguir transmitir esta potência ao solo com baixo peso e somente com tração traseira, garantindo dirigibilidade e segurança tanto nas retas quanto nas curvas.
    Se um Porsche 917/30 lidava com potências da ordem de 1100 hp e peso de 820 Kg em condições de corrida há 45 anos atrás e um F1 turbo com mais de 1300 cv em treinos, até 900 cv nas corridas e 540 Kg de peso e menos downforce há 30 anos atrás, como a Engenharia não saberia lidar com 1500 cv e 500kg com confiabilidade depois de TANTOS ANOS de evolução tecnológica? Detalhe: O turbolag era gigantesco naquela época, a potência vinha de forma explosiva, dificultando na saídas de curva.
    Motores: preferencialmente aspirados x turbos, com vários tipos de arquitetura. Com limitação de cilindrada, rotação e de pressão no caso dos turbos. O motor de combustão interna é uma máquina de baixa eficiência, se estes parâmetros não forem suficientes para evitar grandes discrepâncias, estabelecer limites na entrada de ar, taxa de compressão e escapamento.
    O difusor apareceu na F-1 em 83 e o bico alto em 90, portanto os carros de 30 anos atrás já tinham difusor, mas não tinham bico alto e o fundo era plano.
    Creio que a F-1 deveria diminuir substancialmente o difusor( que causa muita turbulência atrás), e aumentar a superfície da asa traseira como compensação, mas com menos downforce ao final, fundo plano da ponta do bico até a traseira, eliminando o bico de gavião.
    Ai seria possível tirar aquela asa dianteira gigantesca toda elaborada, que quebra e fura pneus á toa, substituindo-a por uma menor e lisa. Assim os carros poderiam andar mais próximos e poderíamos voltar a ter guerra de vácuo.
    Os pneus deveriam durar mais, serem mais largos, com liberdade de uso, deveriam usar rodas de aro 16-18 aposentando definitivamente o ultrapassado aro 13.
    A Eletrônica deveria ser limitada ao gerenciamento de injeção e ignição.
    Fim de todo artificialismo, como por ex. o DRS e de qualquer tipo de controle que ajude o piloto, exceto direção hidráulica.
    Fim da telemetria, uso do rádio limitado à comandos de entrada e saída de boxes e de segurança.
    Circuitos: Áreas de escape largas, mas com caixas de brita e softwall ou barreiras de pneus,
    fim dos estreitamentos, chicanes e cotovelos.
    Campeonato: máximo 18 GPs com mais corridas na Europa e menos na Asia.
    Pontuação: Sistema 10, 6,…….com pontos até o 6º, com 66,66 de pontos a mais do 1º para o 2º, privilegiando quem pisa e arrisca mais e não quem é mais regular como o atual 25,18,……. com 38,88% do 1º para o 2º e que dá pontos até o 10º. Regularidade é mais para o WEC, F1 é mais velocidade.
    Maior flexibilização das regras nos embates entre pilotos.
    Creio que teríamos então um confronto homem-máquina x homem- maquina que todos querem ver com minima interferência externa, com mais competitividade,os pilotos arriscariam mais, com menos gente envolvida, a um custo bem menor, onde mais fábricas iam querer participar .

    Abraços,

    Márcio

    1. Muito bom, xará.
      Intencionalmente, eu não me aprofundei em questões técnicas, pois me interessava mais registrar a filosofia, os nortes, mas acho muito interessante ver, como em sua resposta e no texto que citei do Manuel, opções para realizar tais objetivos.
      Em essência, concordo contigo. Precisamos de carros leves, potentes, com muita aderência mecânica, menos downforce, mais autorais e desafiadores.
      Abraço, e escreva sempre.

  3. Marcio,

    Qual a Formula 1 que eu quero? Para ser utópico eu gostaria de ver a Formula 1 dos anos 70 com o regulamento dos anos 80 quando a definição do grid para a largada era dada em uma hora de treino e cada piloto tendo 04 jogos de pneus de classificação para usá-los como bem entendesse … e aquela pontuação para os 6 primeiros (10,6,4,3,2 ,1 ) usada para definir os melhores da temporada … como era bom ver os treinos que definia o grid de largada … mas o que não falta é tecnologia nos dias de hoje … e como ela poderia ser usada? … Os carros de hoje não quebram como quebrava antigamente … como fazer … talvez a palavra chave seja a simplicidade … mas será que a Formula 1 pode ser mais simples com tanta tecnologia por trás dela?
    A meu ver melhoraria muita coisa se não houvesse mais a comunicação via rádio … que se instale uma caixa preta no carro para no fim da corrida saber o que de bom ou de ruim o piloto fez durante a corrida … só garantindo que qualquer a decisão tomada seria apenas ser de unica responsabilidade do piloto e mais ninguém.
    Uma outra coisa é com relação a área de escape das curvas dos circuitos … deveria ter entre a pista e a área de escape propriamente dita uma faixa com pelo menos 5 metros de largura, seja de areia, seja de grama mas que impedisse qualquer manobra no sentido de haver brigas por posições na corrida fora das pistas …

    Fernando Marques
    Niterói RJ

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