O melhor ataque é a defesa – final

Na primeira parte desta coluna, dediquei o texto para identificar quais elementos fizeram de Ayrton Senna um dos mais encardidos e irritantes defensores de posição da história do automobilismo.

Identifiquei quatro elementos, que foram aprimorados temporada após temporada: a (1) obsessão pelo melhor posicionamento de largada, a (2) rejeição quase patológica em ser superado, o (3) alto preparo mental para lidar com a pressão dos perseguidores, e (4) uma habilidade acima da média para reconhecer limites de aderência do carro e dos limites físicos da pista.

Como acabei de mencionar, essa habilidade de defender-se dos rivais foi algo aprimorado com o tempo. O primeiro a reclamar das condutas de Senna como caça foi… Alain Prost. (Já sei, vocês estão super surpresos, né?)

Em Imola 1985, após voltas na liderança, Senna passou a ser perseguido por Prost, que ao final da corrida criticou o novato da Lotus, acusando-o de manobras desleais e bloqueios em plena reta. Tirem suas próprias conclusões:

Os efeitos dessa batalha foram sentidos nas últimas voltas. Em uma corrida crítica em consumo, Senna foi um dos primeiros a parar com pane seca, ainda a quatro voltas do fim.

Gastou muito mais do que devia pra manter a posição, né? Erro de juventude, sobretudo porque seu companheiro de equipe Elio de Angelis terminou a prova em segundo, e seria promovido a vencedor porque Prost tinha um carro 1,5kg abaixo do permitido e acabou excluído. Não tenho dúvidas, porém, de que Prost guardou na memória essa batalha para quando precisasse pressionar o rival.

Ainda naquele ano, não seria apenas o Professor a dizer que Senna pegava muito pesado. Afinal, logo em seguida veio o episódio do bloqueio dos rivais nos treinos de Mônaco. Foi certamente o ponto ético mais baixo de Senna, perdendo apenas da porrada que desferiu em Prost em Suzuka 90. Michele Alboreto (que faria nesse fim de semana a corrida de sua vida) e Niki Lauda ficaram especialmente enfurecidos.

Senna fechou 1985 ainda arrumando encrenca diretamente com Keke Rosberg (e indiretamente com Nelson Piquet) no GP da Europa de Brands Hatch. Ayrton simplesmente se comprometeu em uma trajetória de fora pra dentro, ciente de que Rosberg não tinha corpo para passar. Deu ao finlandês duas opções: ou se chocavam, ou Keke recolhia por dentro, o que acabou sendo sua escolha.

O mesmo Keke se vingaria imediatamente do movimento – o que, evidentemente, Senna não esperava. ‘Promovido’ a retardatário, bloqueou categoricamente o brasileiro, permitindo que o companheiro Mansell superasse o brasileiro, rumo a sua primeira vitória na F1.

Essa arrogante ‘mania’ de se comprometer com uma trajetória (ou você recolhe do jeito que der ou nós dois batemos), e fechadas acintosas fizeram, sim, parte da carreira de Senna. Mansell sentiu isso na pele ao ser espremido na Curva Sul no GP do Brasil de 86, bater sozinho e ficar fora da prova. Assim como Senna não aliviou para Mansell na primeira volta do GP da Bélgica e ambos acabaram fora.

Outro crime cometido por Senna foi a fechada que deu em Prost no Estoril 88, em plena reta dos boxes. É possível imaginar o tamanho do susto daqueles mecânicos que ficam no pitwall segurando as placas de referência para os pilotos.

Senna também tinha dificuldade de fazer a leitura de que, por vezes, é melhor deixar um rival passar. Afinal, defender-se a qualquer custo também representa um tremendo desgaste em vários aspectos. Não apenas Imola 85 foi um grande exemplo em que ele não tirou lições, como quando o assunto era segurar Nelson Piquet tornava-o cego da leitura de corrida.

A batalha entre Senna e Piquet no GP de Portugal de 1986 foi talvez o melhor exemplo. A ação, testemunhada de camarote por Prost, foi bastante estúpida: Ayrton acabaria sem combustível a uma volta do fim (culparia o leitor de combustível), enquanto Nelson ficou totalmente sem pneus e freios, de tanto tentar. Chegou até mesmo a rodar a 7 voltas do fim.

Quem agradeceu, claro, foi Prost, que promoveu-se de quarto para segundo, na corrida vencida por Mansell. E claro, aqueles pontos a mais fariam diferença para o francês na inesquecível decisão em Adelaide.

Na Espanha 87, repetição. Senna não trocou pneus e segurou nas voltas finais um trem de adversários, liderados por Piquet. Ayrton mais uma vez jogou pesado, ambos se desgastaram e foram engolidos por Prost.

Pecados à parte, Ayrton, claro, já mostrava o quanto era eficiente para segurar os rivais nos raios de curva e em retomada de velocidade. Isso foi essencial para que vencesse o duelo final na Espanha 86, aquele mesmo dos 14 milésimos, num dos melhores GPs daquela década.

Outro episódio obrigatório de menção foi o das três voltas finais do GP de Mônaco de 1992. Mansell, que liderava, teve um furo nas voltas finais, calçou pneus macios e partiu à caça de Senna. Estimo que a Williams do inglês fosse, naquele contexto, 2,5s mais rápida por volta. E, puxa, estamos falando de Mansell. Um cara que tinha habilidade e coragem o suficiente para superar Senna como em lances domo no GP da Hungria de 1989. Aquele passão foi lindo.

Ainda assim, Senna transformou sua combalida McLaren num Caminhão-Cegonha e negou ao inglês a vitória em sua última aparição na pista monegasca.

Peço atenção especial para a frenagem absolutamente no limite de Senna no fim do túnel na penúltima volta. Ele transformou um bólido de mais de 700 cavalos num kart, descendo de lado, com rails bem apertados em volta e um inglês determinadíssimo em seus calcanhares. Poucos dão o devido mérito àquela manobra.

E ali está outro predicado pouco debatido de Senna: brincava como poucos com a regulagem de carga de freios. Quando precisava frear no limite, para defender-se ou para ultrapassar, jogava mais carga na traseira para não fritar os pneus dianteiros, e controlava a traseira do carro como nos tempos de kart.

Por mais que existam muitas evidências, não posso afirmar categoricamente que Senna foi o piloto mais difícil de ser ultrapassado. No entanto, por suas características, foi um dos que mais exigiu de seus perseguidores.

É por isso que cada ultrapassagem que ele sofreu na carreira acaba sendo altamente valorizada. Superar lindamente um adversário é uma coisa; superar um encrenqueiro patológico como Senna, aumenta o valor do movimento. É o que ocorre no lance de Hungaroring 86. A manobra de Piquet foi por si só espetacular. E foi largamente amplificada em importância por tratar-se de Senna o ultrapassado.

África do Sul – 1993

Inglaterra – 1993

Por mais que essas sequências de Kyalami e Silverstone 93 contra Prost sejam de arrepiar os cabelos por ser um dogfight intenso, minha defesa de posição favorita de toda a carreira de Senna ocorreu em Hungaroring 91.

Não foram apenas uns pares de voltas. Foi uma corrida INTEIRA tendo que se defender, em uma estratégia que ninguém reunia predicados suficientes para colocar em prática, senão o próprio Ayrton. Só encontro paralelo histórico na famosa vitória de Gilles Villeneuve em Jarama 81. Ainda assim, foram muitas voltas, mas não a totalidade das voltas.

Havia muitos fatores contrários. A Williams parou de fazer bobagens no meio da temporada e confirmava sua supremacia na pista. Tinham um carro de chassi superior, e motor Renault V10 tão potente quanto o Honda V12, mas que consumia menos e tinha mais torque, algo especialmente recomendável naquele kartódromo húngaro.

Mesmo assim, Senna conseguiu fazer a pole. E não foi uma qualquer. Foi absurda, até para seus padrões ‘normais’. Ele já tinha garantido um tempo para largar na frente, mas, não contente, se lançou em mais uma tentativa e baixou mais meio segundo.

As imagens da onboard são bastante assustadoras pela velocidade carregada em cada curva, e pela nítida noção de que o piloto estava nos limites da aderência.

Senna também foi até os limites na defesa de posição na largada. Riccardo Patrese, ao seu lado na primeira fila, tracionou melhor, mas foi obrigado a recolher diante da determinação do rival, que precisou fritar pneus para se manter em primeiro.

Patrese e Mansell tinham à disposição o então revolucionário câmbio semi-automático, que era um desgaste físico a menos. Eles também tinham para a largada pneus mais resistentes, enquanto Senna partiu para uma estratégia suicida de colocar compostos duros apenas do esquerdo, e médios do lado direito.

Peço a gentileza a todos para reservarem duas horas de suas vidas para rever essa corrida.

Patrese tentou por várias voltas. Mansell, em estratégia de espera, tomou o lugar do companheiro nesse assédio, mas no fim da corrida, surpreendentemente as duas Williams com pneus mais resistentes estavam muito mais combalidas que a McLaren #1.

A conclusão que se chega é que Senna foi um dos pouquíssimos pilotos do esporte a motor que tinha predicados o suficiente para poder colocar em prática sua preferência em ser a caça. Evidentemente, a aplicação desse conceito só foi possível por tratar-se de uma época em que na maior parte do tempo os conjuntos de treino eram bem diferentes dos conjuntos de corrida.

No mais, ser por mais tempo a caça deixou Ayrton em situações em que ficou claro que o expediente de fechar a porta era usado de maneira pouco amigável, e por vezes beirando o criminal. É de se supor que ele ficaria bastante irritado com os comissários de hoje em dia, que abrem sindicância a cada tentativa de ultrapassagem. Também não tenho muitas dúvidas de que, assim como eu, ele acharia o DRS um atentado ao esporte.

As situações mais pesadas de fechada de porta, porém, ficaram limitadas aos primeiros anos de atuação. Ayrton, nesse aspecto, também apresentou um quadro evolutivo durante a carreira, e passou a ser nas pistas duro, sem perder o fair play.

Nem sempre o melhor ataque é a defesa. E nem sempre Senna teve como se defender. Mas seu jeito de pensar a corrida certamente rendeu grandes defesas de posição e, em último caso, muitas das mais espetaculares ultrapassagens que um grande campeão já tomou.

Abração!

4 thoughts on “O melhor ataque é a defesa – final

  1. Lucas,

    gostei mais dessa parte da coluna do que da primeira, até mesmo pelos videos … mas ainda continuo achando que a melhor defesa é o ataque …

    show de bola!!!

    Fernando Marques
    Niterói RJ

  2. Grande Lucas!!!

    Você descreveu muito bem o que eu chamo de qualidade/fraqueza, e concordo contigo, Prost, Raposão que era, com certeza guardou todas estas informações, e soube usa-las muito bem quando foram necessárias no futuro.

    Gosto muito da ultrapassagem que o Alboreto lhe aplicou em Imola 87, simplesmente plástica!

    Quando me sobrar um tempo, com certeza vou rever aquele GP da Hungria de 91, pois ano passado eu assisti o treino classificatório deste GP, e que também foi muito bom, como vários outros daquela temporada de 91.

    Grande abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba-PR

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