Mau cheiro

Nos tempos da antiga Roma, contam que um rico comerciante, que se mudou para a cidade, foi morar numa casa que ficava do lado da pequena oficina de um curtidor de couro. O curtidor usava seu quintal para estender as peles ao sol, de modo que estas se terminassem de curtir. Naquela época, um dos principais produtos usados para a curtição era a urina e, como podem imaginar, todo o processo resultava bastante fedorento.

Assim, molesto com tão desagradável cheiro, nosso comerciante pressionava o modesto curtidor para que este abandonasse o local. O curtidor, sempre amavelmente, lhe dizia que não se preocupasse e que iria embora tão logo quanto pudesse. Contudo, o tempo passava e o curtidor continuava ali. Com o tempo, as queixas do comerciante foram sendo cada vez mais esporádicas e menos virulentas. Com o tempo, o comerciante foi se acostumando à aquela pestilência e acabou por não se queixar mais.

A temporada de 2014 trouxe consigo a introdução dos motores turbo híbridos de 1600cc, que veio acompanhada do chamado “sistema de desenvolvimento por tokens”. Segundo diziam, o objetivo buscado com esse sistema era dificultar a introdução de custosas atualizações de motor durante a temporada. Se pretendia, assim, que os fabricantes tivessem menos liberdade para desenvolver seus motores e se esperava que, com isso, os custos destes baixassem e, com isso, o orçamento total da equipe. Deste modo a FIA esperava aliviar os limitados orçamentos das demais equipes e atrair outras à categoria, pois estas teriam mais dinheiro para desenvolver seus carros e aumentar sua competitividade, reduzindo sua desvantagem respeito às montadoras e nivelando a competição.

Porém, ainda que tudo resultava bastante ilusionante, o resultado, como em tantas outras ocasiões, não foi o esperado. A Mercedes, uma das montadoras que mais pressionou a FIA para a introdução dos motores turbo-híbridos (inclusive ameaçando com se retirar da competição caso sua petição não fosse atendida), vinha trabalhando nesse motor desde fazia vários anos antes. Com a recente retirada da Toyota, da BMW e da Honda, a FIA terminou cedendo e a Mercedes, mercê a todo o seu trabalho e dinheiro investido (com a introdução já acordada, os alemães triplicaram o orçamento de seu departamento de motores!), se apresentou com um conjunto propulsor muito superior aos demais.

Assim, a consequência do tal sistema acabou tendo um resultado perverso para a competição, pois impedia que os outros fabricantes pudessem desenvolver seus propulsores a um ritmo que lhes pudesse compensar a desvantagem, permitindo que a Mercedes se mantivesse à frente sem ser ameaçada. O domínio da Mercedes nestes três últimos campeonatos, sem dúvida, parte de um trabalho muito bem feito, mas o tal sistema dos tokens limitados acabou sendo um aliado nada desprezível nesse domínio.

Enquanto à ideia de que o menor custo do motor seria bom para as equipes fornecidas, pois liberaria mais recursos para o desenvolvimento de outras áreas do carro, também resultou sendo um fracasso. Os orçamentos das grandes equipes não se reduziram e os recursos que as montadoras não podiam destinar ao propulsor, eram usados em outras áreas, tal como se esperava que o fizessem as equipes menores. Assim, não houve nenhuma redução nos orçamentos das equipes nem a competitividade delas se nivelou. Além do sistema de tokens, foram introduzidas limitações no número de componentes a serem usados durante a temporada. Uma vez mais, se pretendia buscar uma suposta poupança, ainda que nada mudou e.… possivelmente até piorou!

Em meados de 2015, Jean Todt, o presidente da FIA, admitiu que eles deveriam tratar do assunto, mas se limitou a dizer: ” Preciso de bons assessores para ver como resolvemos este desafio! “. No fim, o único que fizeram foi relaxar a norma referente aos tokens que as montadoras podiam usar durante a temporada. Os 15 que haviam sido acordadas para 2016, foram aumentados para 32, os mesmos que estavam estabelecidos para 2014. Contudo, o número de motores a serem usados durante a temporada foi reduzido a 4. Além desse número, as punições começariam a ser aplicadas.

No terreno da fiabilidade, Mercedes também dominou. Assim, basta dar uma olhada na situação de suas equipes fornecidas: Williams, Force India e Manor. Todas completaram a temporada sem precisar de motores e componentes adicionais. Nos casos da Williams e da Force India, se sabe que eles costumavam usar mapeamentos de motor menos agressivos, pois preferiam sacrificar rendimento em prol da fiabilidade e, assim, evitar a compra de motores adicionais, o que teria afetado seus restringidos orçamentos. Assim, não é descabido pensar que as equipes fornecidas das outras montadoras fizessem o mesmo, contudo nenhuma delas conseguiu terminar a temporada sem precisar motores e/ou componentes adicionais. Nos casos da Mercedes e da Ferrari, que fornecem propulsores a 3 equipes cada uma, o total de motores e de turbos usados em conjunto por elas mesmas e seus fornecidos foi, respectivamente, de 35 motores e 37 turbos para a Mercedes e de 39 e 41 para a Ferrari.

Para 2017 e 2018 se anuncia que já há um acordo para reduzir o custo dos motores. A medida “estrela” é a abolição do sistema dos tokens, permitindo que as montadoras incorporem qualquer melhora em seus motores, ainda que apenas em duas ocasiões durante a temporada. Com isso, se alguma consegue encontrar uma boa melhora após haver já aproveitado essas duas ocasiões, não poderá incorporar tal melhora. Também se aumentam as restrições no referente a peso, medidas e materiais a serem usados em diferentes componentes do motor. A pressão do turbo e o número de componentes disponíveis por temporada também serão restringidos progressivamente a partir de 2017. O preço que as montadoras cobram às fornecidas por seus motores, também é reduzido, sendo esta uma concessão das montadoras a troca da abolição dos tokens.

Com isso, uma vez mais, se modifica um acordo que já se havia tomado e que, em teoria, deveria estar vigente até 2020, portanto nada faz abrigar nenhuma certeza de que, desta vez, um acordo seja plenamente cumprido! De fato, segundo disse Christian Horner: ” É um pouco decepcionante. Se trata de um acordo muito débil! “.

Além do mais, como sempre aconteceu, a exigência de mais fiabilidade obriga os fabricantes a grandes investimentos para conseguir a durabilidade buscada. O fato de usar menos propulsores por temporada, não significa menor despesa total. Neste caso, como no da regra que limita o fluxo de combustível a ser usado, não se tem em conta a competição, apenas se busca dar boa imagem de marca pois, assim os fabricantes podem usar essa durabilidade como atrativo publicitário para a venda de seus carros.

Outro ponto do novo regulamento diz respeito ao fornecimento de motores às outras equipes. Assim, o processo de homologação dos motores, inclui a “obrigação de fornecimento” no caso de que alguma equipe não tenha fornecedor. Porém, não diz se haveria alguma punição à montadora que se recusasse a fornecer uma determinada equipe. Se atreveria a FIA a expulsar do campeonato o fabricante que se recuse a tal fornecimento?

A FIA, uma vez mais, recorre a um eufemismo quando se refere a todas estas mudanças dizendo que busca uma maior ” convergência” entre os motores, quando a realidade é que se trata pura e simplesmente de uma tentativa de padronização (outra mais). Em definitiva, na FIA dizem estar preocupados com os altos custos da categoria, mas promulgam regras que sempre acabam aumentando esses custos.

Os testes de inverno não trouxeram nenhuma novidade, pois os Mercedes foram os grandes dominadores, tanto nos tempos conseguidos quanto na fiabilidade de seus carros. Assim, tudo parece indicar que as esperanças de um maior equilíbrio depositadas no novo regulamento logo começam a se dissipar, mais ainda se recordamos que, em anos anteriores, os Mercedes costumavam fazer estes testes com uma maior carga de combustível do que seus rivais, se fizeram o mesmo agora…  De fato, logo na primeira corrida da temporada, só Ferrari parece ter melhorado, mas, ainda assim, só com a ajuda de uma péssima estratégia da equipe da estrela na troca dos pneus de Hamilton, é que Vettel acabou vencendo na Austrália.

Em resumo, uma vez mais, temo que as promessas da FIA, como aquelas do nosso curtidor, acabem em nada, assim, uma vez mais, como aquele comerciante de Roma, temo que já estamos nos acostumando ao “mau cheiro” desta formula 1.

Grande abraço a todos e até a próxima.

5 thoughts on “Mau cheiro

  1. Rapazes, vocês conseguiram destruir o site GPTOTAL, que era tão completo, objetivo, simples de ler e de navegar. Lamento profundamente, agora cada acesso é um lamento e uma grande tristeza de minha parte, que diga-se de passagem, vinha acompanhando e bebendo informações deste site desde sua criação/estréia. Como e disse, VINHA ACOMPANHANDO, não dá mais, vocês acabaram com ele.

    L A M E N T Á V E L.

  2. Grande Texto Manuel!

    Concordo contigo, e só que com o passar dos últimos anos, o público tem se afastado cada vez mais do mau cheiro que a F1 anda exalando, e neste caso, o que já esta péssimo, tende a ficar irreversível.

    Abraço!

    Mauro Santana
    Curitiba – PR

  3. Só mais uma coisa … O prefeito de São Paulo, o tal do Doria confirma venda de Interlagos e diz que Ecclestone participará de leilão
    Prefeito de São Paulo afirma que área de circuito paulista deverá receber hotel, prédios com apartamentos, além de um museu do automobilismo que poderá ser batizado com nome de Senna.

    Só não concordo com a mudança do nome … prefiro ainda o do Moco

    Fernando Marques

    1. Pelo que eu li, Fernando, o museu vai se chamar Ayrton Senna. Até prova em contrário o autódromo continuará com o nome de José Carlos Pace. Uma sugestão reiterada à exaustão pelos colunistas e leitores do gptotal finalmente atendida graças ao Prefeito João Dória. Daqui pra frente é só ver os resultados sejam bons ou ruins. Mas tomando como exemplo o aeroporto internacional do rio de janeiro acho que a privatização vai ser muito boa para o autódromo.

  4. Manuel,

    e pelo visto vem novas mudanças mesmo … a Formula 1 já esboça para a a parrtir de 2021 um motor biturbo com 1200 cv. Segundo a reportagem a proposta foi encaminhada pelos fabricantes de motores e pelo Ross Brawn junto a FIA, inclusive com o aval da Audi que deve estar planejando de novo entrar no circo … outro detalhe estes motores biturbos teriam custos mais baixos e serias mais barulhento que os atuais híbridos …
    Resta saber se a Mercedes, se esta mudança aprovada for, vai querer ainda continuar no circo.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

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