O resgate esquecido

Quem nunca recebeu por e-mail ou foi marcado no Facebook sobre o famoso resgate de Ayrton Senna em Spa-Francorchamps, durante o ano de 1992? A cena é conhecida. Erik Comas perdeu o controle de sua Ligier na Blanchimont e, como se trata de uma curva de alta velocidade, a pancada foi muito forte.

Comas desmaiou e seu pé ficou atolado no acelerador, como estivesse numa reta sem fim. Porém, com o carro semidestruído, Comas desfalecido dentro do cockpit e o motor sendo forçado ao máximo, havia uma chance de explosão. Senna vinha logo atrás do acidente e vendo a cena, parou sua McLaren e correu em direção à Ligier, cortando o circuito elétrico do carro e imobilizando o pescoço de Comas ao segurar seu capacete, enquanto o resgate, com o saudoso Dr. Sid Watkins.

Dentro da F1, fora das pistas, esse foi o maior momento de Ayrton Senna. Muitos o aplaudiram, com todo o merecimento. Passados quase 25 anos do ocorrido, porém, não faltam os exageros. “Senna deixa de ganhar corrida para salvar um francês” ou “Senna larga volta em que seria a pole para salvar outro piloto” são batatadas que podem ser encontradas por aí até com certa facilidade, recordando que o acidente de Comas foi numa sexta-feira, durante um treino livre…

Apesar da força do acidente e de não ter corrido naquele fim de semana, Erik Comas voltou a correr normalmente na prova seguinte, quinze dias depois, em Monza. O belo ato de Senna salvou Comas de um quadro agravado por uma possível explosão, ou de lesão no pescoço, mas o francês não estava seriamente ferido quando o tricampeão desligou seu carro naquele agosto de 1992. Porém, dez anos antes, outro brasileiro tricampeão participou de um resgaste muito mais dramático e que não teve um final tão feliz.

Quando alguém tenta se lembrar de um ano tão terrível como 1994, imediatamente vem à mente a temporada de 1982, com seus acidentes e tragédias. Foram duas mortes marcantes (Gilles Villeneuve e Riccardo Paletti) e em ambos, estava envolvido Didier Pironi. O francês fora contratado pela Ferrari em 1981 e com sua forte personalidade, tentava assumir as rédeas da equipe, que finalmente atingia o grau de amadurecimento dos motores turbo, com um chassi superior em 1982.

Porém, dentro da Ferrari havia Gilles Villeneuve, cultuado e adorado dentro da equipe pelo seu estilo de pilotagem agressivo e, fora das pistas, pelo jeito amável com as pessoas. Para se tornar o primeiro francês campeão mundial de F1 (e no começo da década de 1980 era uma disputa dura entre os vários botas gauleses da época), Pironi tinha que derrotar Villeneuve. Como na pista a coisa era complicada, Didier passou a jogar também nos bastidores, tentando conquistar os ‘capos’ da Ferrari, como no episódio em que chamou o então chefe Marco Piccinini para ser seu padrinho de casamento, e de não convidar Villeneuve, que até então era seu amigo.

Então veio o Grande Prêmio de San Marino, o boicote das equipes inglesas, o acordo entre os pilotos de Ferrari e Renault de pegarem leve no começo, e a ordem da Ferrari para, nas voltas finais, os seus pilotos diminuíssem o ritmo, já que a dobradinha estava garantida com o abandono dos dois carros da Renault.

Veio então a interpretação conflituosa entre os dois pilotos: Gilles achou que a vitória seria sua, enquanto Pironi pensou que a corrida estava em aberto, e acabou vencendo o colega nas voltas finais. Villeneuve sentiu-se traído e na corrida seguinte, em Zolder, foi uma última vez tentar melhorar seu tempo e cumprir a promessa de não ficar atrás de Pironi um treino sequer.

O destino fez com que Villeneuve errasse o cálculo enquanto ultrapassava Jochen Mass e morresse após ser jogado contra um alambrado após seu carro partir-se ao meio na série de capotagens. Pironi parou no local do acidente, recolheu o capacete de Gilles e saiu do local. Nelson Piquet, que sempre elogiou a segurança da Brabham, criticou acidamente a Ferrari, dizendo que os carros italianos eram inseguros. Pironi, alçado a primeiro piloto da escuderia, confrontou as palavra de Piquet e defendeu a Ferrari.

Contudo, a morte de Villeneuve fez com que Pironi ficasse bastante antipatizado por toda a F1. Muitos o culpavam (indevidamente) pela morte de Gilles. Algumas semanas mais tarde, durante o Grande Prêmio do Canadá, Pironi se envolveu em outro acidente fatal, quando ficou parado no grid, onde largava na pole, e foi atingido em cheio por Riccardo Paletti.

Pironi foi o primeiro a chegar na Osella destroçada e, quando percebeu a gravidade do estado do italiano da Osella, colocou as mãos no capacete. O francês da Ferrari ainda usou um extintor de incêndio para debelar o fogo que se sucedeu ao acidente, mas Paletti não morreria por causa do fogo, mas pelo impacto do volante em seu peito e abdome. A corrida continuou e Nelson Piquet venceu pela primeira vez em 1982, ano em que defendia seu título.

Por motivos completamente distintos, Didier Pironi e Nelson Piquet chegaram a Hockenheim bastante tensos. Mesmo estando perto da morte duas vezes em poucas semanas, Pironi superou tudo isso no seu sonho de ser campeão mundial. Ele liderava a tabela de pontos com uma folga de 9 pontos à frente de John Watson, o vice-líder do momento com a McLaren.

Não custa nada lembrar que o próprio Pironi havia escapado milagrosamente de dois acidentes enormes em testes da Ferrari em Paul Ricard. Já Piquet sofria com o desenvolvimento do motor BMW turbo, que já havia estragado definitivamente suas chances de ser bicampeão em 1982. Correndo na casa da BMW, porém, Piquet queria vencer, mas na sexta-feira ele foi superado por Pironi, que ficou com a pole provisória.

Havia previsão de chuva para sábado e domingo. Por esse motivo, todos os pilotos foram à pista molhada, mesmo sabendo que não havia a menor chance dos tempos melhorarem. O pole Pironi saiu para a pista para testar os pneus de chuva no encharcado circuito de Hockenheim. Piquet fez o mesmo e vinha atrás do francês. Pironi estava atrás da Williams de Derek Daly e fez a manobra de ultrapassagem sobre o irlandês na grande reta que antecedia a entrada do Estádio. Num acidente similar ao de Villeneuve, Pironi calculou mal a manobra, pois o piloto da Ferrari estava trás do spray de dois, não de um carro. Na frente de Daly vinha a Renault de Alain Prost, que vinha mais lento. Pironi acertou em cheio a traseira da Renault de Prost e decolou.

Aqui, um parêntese para Alain Prost. Antes desse incidente com Pironi, Prost era um grande piloto na chuva, mas Alain falaria depois. “Sempre que chovia e olhava no espelho retrovisor, eu via o carro de Didier voando”. Prost nunca mais foi o mesmo piloto na chuva de antes, iniciando uma espécie de bloqueio em pista molhada, que o fez ser chamado de Cascão, principalmente em comparação à Senna, uma lenda em condições molhadas.

Voltando à Hockenheim em 1982, Pironi saiu capotando de frente pela pista, arrancando toda a dianteira do seu carro, lhe causando sérias fraturas em suas duas pernas. Nelson Piquet vinha logo depois e parou seu carro numa cena que nunca foi gravada. Consta que Piquet tirou o capacete de Pironi, que estava acordado e sofrendo todas as terríveis de um acidente daquela gravidade. Ele apenas gritava “minhas pernas!”. Outros pilotos, como o próprio Prost, foram ajudar. O estado das pernas de Pironi era tão grave, que se cogitou amputá-las ainda dentro da pista. Enquanto os médicos trabalhavam para salvar as pernas de Pironi, Piquet saía de cena lentamente, segurando o seu capacete.

Não se sabe se Pironi agradeceu publicamente Piquet pelo auxílio prestado. No domingo, talvez ainda nervoso pelas cenas vistas no dia anterior, juntando a frustração de ser jogado por um retardatário enquanto liderava, Nelson Piquet encheu Eliseo Salazar de sopapos.

Se Erik Comas pôde continuar sua carreira normalmente, Didier Pironi não concretizou seu sonho de ser campeão mundial e não participou de mais nenhuma corrida de F1. Ele morreria cinco anos mais tarde num acidente com sua lancha offshore de competição, a Colibri.

Muito provavelmente pela falta de imagens, poucos conhecem a participação de Nelson Piquet no resgate de Didier Pironi.

Ayrton Senna teve uma carreira grandiosa e seu ato em Spa 92 foi um dos seus pontos altos. Mas Nelson Piquet também teve uma carreira grandiosa e seu altruísmo, o mesmo mostrado por Senna dez anos depois, não pode ser esquecido, como normalmente acontece.

Abraços,
JC Viana

4 thoughts on “O resgate esquecido

  1. Naquela época (anos 60,70 e 80) os pilotos de Formula 1 faziam diferença até nesta questão de tentar salvar vidas e não apenas serem “taxados” de loucos irracionais por colocarem a vida deles tanto em risco.
    Atualmente o protocolo sequer permite qualquer interferência neste sentido.
    Se não me engano, Nelson Piquet também ajudou a tirar o R. Perterson naquele acidente de Monza em 78. Ele era apenas um iniciante na Formula 1. Aquele era o verdadeiro espírito de ser piloto.
    JC Viana, bela história e uma lembrança que deve ser sempre bem lembrada.

    Fernando Marques
    Niterói RJ

    1. Fernando

      no acidente de Peterson, quem o retirou do carro em chamas foi James Hunt, ele foi um dos primeiros pilotos a se aproximar e perceber que os fiscais de pista sem a roupa apropriada não fariam nada para tentar tirar o sueco.

      Outro acidente parecido na questão incêndio e um piloto resgatando outro, foi na Africa do Sul 73, quando Mike Hailwood retirou Clay Regazzoni de sua BRM em chamas.

      Muito legal a lembrança desses atos heroicos JC, a falta de tecnologia anterior aos anos 80, traduzem esse deficit de registros de imagens, e muitos desses casos ficaram apenas na memória dos que estiveram lá

      abraços

  2. Grande Texto JC!!!!

    Pois é, este é um acidente que, mesmo com as poucas imagens que temos, é chocante demais, pois tem um fiscal que aparece olhando para o resgate, e saindo chacoalhando os braço de nervoso com aquilo que estava vendo.

    Em seu livro, o Professor Sid conta em detalhes sobre este resgate dramático, inclusive prometendo a Pironi, que iria salvar suas pernas.

    Eu tenho uma revista Placar de 82, e nela tem uma entrevista de Pironi em que ele fala da sua recuperação, e claro, detalhes do acidente, que ele lembrava de ter visto as copas das árvores quando sua Ferrari decolou.

    E outro ponto importante nesta sua belíssima coluna, é com relação ao Prost, pois se ele foi taxado de cascão, se deu mais pra nós brasileiros por causa da nossa mídia, afinal de contas, ele era adversário das nossas duas estrelas dá época.

    E realmente, Piquet merecia sim ser lembrado por este ato eroico dá época, pois poucos teriam coragem e sangue que o Grande Piquet teve.

    Belíssimo texto!

    Abraço!!!

    Mauro Santana
    Curitiba PR

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